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SCB entrevista o crítico literário e escritor Rodrigo Gurgel

Apresentação

Caro Rodrigo Gurgel,

Primeiramente, obrigado por aceitar o convite da Sociedade Chesterton Brasil. A SCB é a iniciativa de um grupo de jovens entusiasmados pelas obras de Chesterton. Nós nos identificamos com a visão de mundo dele, sua sinceridade e alegria. O único intuito desse projeto é divulgar suas obras para que ele tenha o devido reconhecimento, mesmo que post mortem. Os conteúdos de suas obras são muito atuais e nos ajudam a enfrentar nossos desafios diários.

Para esta entrevista contamos com o envio de duas perguntas dos seguidores do perfil da Sociedade Chesterton Brasil no Facebook, Alberto Jaqueline e Márcio Augusto. Agradecemos, também, as sugestões de Wendy Carvalho.

Gostaríamos, então, de lhe fazer as seguintes perguntas:

Diga-nos um pouco quem é o Rodrigo Gurgel e quando surgiu seu interesse pelas obras de Chesterton. Foi um interesse motivado por elogios de outros escritores?

Rodrigo Gurgel - retirado do site RodrigoGurgel.blogspot.com

Foto retirada do site Rodrigogurgel.com.br

Sou professor de literatura e escrita criativa; também atuo como crítico literário do Jornal Rascunho e da Folha de S. Paulo. Tenho dois livros publicados pela Vide Editorial: “Muita retórica — Pouca literatura” e “Esquecidos & Superestimados”. No momento, preparo um novo livro, agora para a Editora Record. Descobri Chesterton depois do meu retorno à Igreja Católica, há alguns anos. Não me recordo ao certo como foi esse encontro, mas um pouco da experiência está relacionada, também, ao poema “The Convert”, como falo neste breve texto de maio de 2011: http://rodrigogurgel.com.br/2011/05/meu-nome-e-lazaro

O que mais desperta sua admiração pela obra de Chesterton? Como ele contribuiu para o seu desenvolvimento intelectual e para a literatura universal?

O que mais aprecio em Chesterton é seu estilo. Ele escreve de maneira ensolarada. Ele se assemelha a uma criança que sai para brincar na rua depois da chuva e se diverte sapateando nas poças d’água. Há uma alegria contagiante no seu estilo, nos seus paradoxos, na sua maneira de derrubar o senso comum. Essa forma de escrever é impossível de ser encontrada na ensaística contemporânea, que raramente conhece o riso. Chesterton ensina que devemos, inclusive, rir de nós mesmos. No meu caso, esse riso não permite que eu transforme meu trabalho num exercício de vaidade, o que seria, no mínimo, contraproducente.

Quanto ao papel de Chesterton na literatura universal, basta lembrar que um estudioso como Otto Maria Carpeaux, que dispensa apresentações, fez questão de incluir Chesterton na sua “História da Literatura Ocidental”.

Como a obra de Chesterton pode nos ajudar a compreender a realidade? Como ela pode contribuir na formação do imaginário?

O paradoxo chestertoniano coloca o senso comum de ponta-cabeça; e isso exige que o leitor, tenha de reprogramar sua compreensão da realidade — o que significa, no mundo atual, distanciar-se da linguagem poluída pela ideologia e abrir os olhos para a verdade, a verdade alpável, concreta, visível para quem se dispõe a observar o real. O maravilhoso é que ele não faz isso listando tediosos argumentos teóricos, mas por meio de um discurso ágil, contagiante.

Reflexões desse tipo nos obrigam a pensar na contramão do que a mídia, a academia e a arte contemporâneas repetem de forma mecânica. Ou seja, Chesterton liberta nossa inteligência — e, portanto, nossa imaginação.

Você concorda com a afirmação de alguns críticos de que a tradução de uma obra do inglês perde a musicalidade, diferentemente das línguas latinas? Você acha que isso afeta as traduções de Chesterton? Como a obra de Chesterton pode contribuir no desenvolvimento da linguagem?

É impossível traduzir sem que se perca algo do original. Mas esse exercício, com suas inevitáveis lacunas — de musicalidade e de sentido —, é imprescindível à vida intelectual, ao diálogo entre as culturas, à própria civilização. Coloco o trabalho do tradutor num dos pontos mais altos da organização social. Eu seria menor se não pudesse ler Tolstói, Homero ou Thomas Mann, escritores cujas línguas não domino. Então, diante de todas as traduções, não só as de Chesterton, devemos pensar: “Melhor com elas do que sem elas”. O que não exime os tradutores, claro, de buscarem um constante aperfeiçoamento.

As obras de Chesterton influenciaram alguns dos maiores intelectuais do Brasil nas décadas de 30 a 50, entre eles Gustavo Coração e Alceu Amoroso. Há uma espécie de esquecimento dele entre as décadas de 60 a 90 e ressurgimento no início do século XXI (inclusive com várias traduções inéditas publicadas). A que se deve esse esquecimento? 

O esquecimento de Chesterton está inserido na secularização do mundo. Quando valores ou comportamentos próprios da Cristandade começam a ser repudiados, é normal que um escritor como Chesterton seja esquecido. Mas isso ocorreu de maneira mais grave no Brasil e na América Latina, em que o cristianismo foi contaminado, desgraçadamente, pela bactéria marxista. A teologia da libertação e o laxismo lutam, faz tempo, para expulsar das livrarias pensadores ortodoxos e ao mesmo tempo brilhantes como Chesterton, pois a mentira que defendem só pode sobreviver onde não há inteligência — e onde a fé foi substituída por uma esperança rasteira, que se fundamenta numa perspectiva estreita e materialista da história humana. Graças a algumas corajosas editoras, contudo, Chesterton permaneceu pouco tempo no ostracismo.

IMAGEM RODRIGO GURGEL

Sabemos que a força do pensamento do marxismo cultural nas universidades é enorme. Não há no Brasil estudos promovidos por universidades a respeito das obras de Chesterton. Qual seria o porquê disso? Quando surgem estudos, estes são muitas vezes de conclusão de curso, mas raríssimos são os Mestrado e Doutorado. E mais, por que mesmo nas universidades católicas ainda é raro encontrar estudiosos da obra do gigante inglês?

Creio que minha última resposta pode ser utilizada aqui. No que se refere à produção acadêmica, sou otimista: é só uma questão de tempo. Os jovens que hoje leem Chesterton em breve estarão exigindo de seus orientadores, no mestrado e no doutorado, espaço para a obra chestertoniana. E a academia terá de se submeter ao peso da verdade, pois um escritor genial, seja cristão ou não, jamais pode ser esquecido.

Por fim, agradecemos sua generosidade em aceitar o convite. Você sempre foi muito atencioso com a SCB. Você sugeriria a leitura de Chesterton aos brasileiros?

Eu que agradeço. Vocês fazem um trabalho admirável — e manifestam sempre mais a alegria, a coragem de Chesterton. Eu não sugiro a leitura de Chesterton aos brasileiros. Sugerir seria muito pouco diante de um escritor apaixonante. Eu realmente convoco todos a lerem Chesterton. Deixem-se seduzir por Chesterton — e ele levará vocês para muito além do mero prazer da leitura.

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