Aulas sobre “Ortodoxia” do professor José Monir Nasser
28 de agosto de 2017

Resenha do livro A Taberna Ambulante

The Flying Inn por DALE AHLQUIST

 

Tradução de Raul Martins – Tradutor da Sociedade Chesterton Brasil. Atualmente está trabalhando no projeto definanciamento coletivo para publicação do livro A Taberna Ambulante.

 

Afora Hereges e Ortodoxia, Chesterton afirmou que o livro que mais gostou de escrever foi A Taberna Ambulante. Ao que parece, ele gostou de criar tanto as cenas cômicas quanto as polêmicas; as canções de beber tanto quanto a sátira amarga e as polêmicas pontiagudas e afiadas. Como diz o herói do romance (a descrever outra coisa), “É tão inocente quanto o Paraíso e tão quente quanto o inferno”. Um crítico descreveu-o como um romance de “grande ira e elevada alegria”. É também possível que, ao escrever este livro, Chesterton tenha conseguido um escape para a tensão, já que começou a redigi-lo logo após o julgamento de seu irmão Cecil, que havia sido processado por calúnia em meio ao Escândalo Marconi. O romance é um veículo para Chesterton esbravejar contra políticos corruptos e ineficazes que não apenas se haviam desligado dos cidadãos comuns como estavam, na realidade, a lhes roubarem os direitos e liberdades básicas. Além de políticos, ele tampouco poupa jornalistas, críticos textuais, gurus da saúde, socialistas estúpidos e bajuladores capitalistas.

É sempre difícil de se explicar as tramas dos romances de Chesterton (eis aí por que nunca se fez nenhum filme com eles: é que os executivos de estúdios são capazes de entender apenas descrições do tamanho de uma propaganda). N’A Taberna Ambulante, baixou-se de forma indireta e oblíqua Lei Seca na Inglaterra. Não se aboliram os pubs e as tabernas, mas, sim, as placas que lhes pendiam em frente. Contudo, as tabernas não podem vender vinho e bebidas outras a menos que tenham uma placa. Entenderam? Assim, dois rebeldes começam a vaguear Inglaterra afora com uma placa de taberna, estabelecendo pubs temporários em locais os mais insuspeitos. Os dois aventureiros são Patrick Dalroy, um soldado irlandês, e Humphrey Pump, ex-dono de uma taberna. Além da placa, têm consigo também um barril de rum e uma roda de queijo cheddar, e um cachorro e um burro por companheiros. O inimigo é Lorde Ivywood, líder do Parlamento, frio, calculista e o criador da lei opressiva. Ivywood persegue, furibundo, os bons vilões até que uma pequena multidão o confronta e o faz encarar, face a face, a total impopularidade de suas leis. Perguntam-lhe, “Você acha que foi você quem criou o mundo, para que pudesses recriá-lo assim tão facilmente?”

Em vez de se mostrar arrependido, responde ele: “O mundo não foi bem criado; eu o criarei de novo”.

Lorde Ivywood é um dos melhores vilões de Chesterton. É a encarnação de tudo o que anda de errado com o mundo. Não é apenas a personificação do Governo Grande e dos Grandes Negócios; é a perda da religião ocidental e a aceitação irrefletida da religião oriental após a perda; é o espírito do modernismo na arte, na filosofia e no amor: “Eu vejo o quebrar de barreiras”, diz ele. “Para além, não vejo mais nada”.

Conquanto Chesteton tenha dito que originalmente concebeu o livro como “um épico sobre a Crescente e a Cruz”, coisa que explica a presença no livro de outro personagem chave, o “Profeta da Lua” islâmico, Misysra Ammon (leia M. Ammon, se o preferir), não há um grande embate entre o cristianismo e o islamismo na história. O que há é uma elite que pura e simplesmente se rende ao Islão por meio daquilo a que Dalroy chama os quatro atos do Império: “A vitória sobre os bárbaros. O empregar dos bárbaros. A aliança com os bárbaros. A conquista dos bárbaros”. Porém, como sói sê-lo, são as classes mais baixas que têm de pagar o preço, aliás grande, por esta conquista, quando a grande virtude muçulmana da abstinência lhes é forçada goela abaixo. Assim, pois, Chesterton como que mudou a ênfase do livro desde a ideia original para uma defesa da democracia e dos costumes cristãos.

Mas, como era o caso com todos os seus livros, não tardaram a surgir críticos que insistiam em não atinar com o ponto principal. Diziam eles que as canções de beber e a defesa dos pubs que ali havia estavam a justificar e mesmo a glorificar a bebedeira. De novo, como era o caso, Chesterton entrou a defender menos o seu livro e mais as suas ideias. Em primeiro lugar, ele ali estava a lamentar a perda do centro social que era a pequena vila inglesa. A pub era onde os homens se reuniam no final do dia afim de discutir e debater ideias e acontecidos. Era um encontro alegre, no qual apreciariam, calma e vagarosamente, vinho e cerveja. Nesta tradição de centenas de anos a bebida era secundária; primária era a discussão. (Essa cultura já morreu. Ironicamente, na versão moderna do pub, é a bebida que é enfatizada, enquanto a discussão é engolfada pela música espalhafatosa ou, ainda pior, uma televisão espalhafatosa).

Chesterton admitia, e sem reservas, que havia um “outro lado” à questão da bebida. Não negava que havia tal coisa como o abuso do álcool; só o que fazia era notar que havia mais abuso não onde a bebida era permitida, mas, sim, onde era proibida. E não era um problema onde os homens bebiam as cervejas locais e defendiam-se uns aos outros; era um problema onde as grandes cervejeiras instalavam-se em locais e prosperavam às custas da sede do pobre, cujas vidas já estavam desordenadas pela pobreza. Noutras palavras, a bebida não era o problema real.

Finalmente, defendeu, n’A Taberna, as canções de beber como sendo verdadeiras canções de Temperança: a temperança é moderação, não abstinência. O comedimento e o auto-controle são atos de liberdade. A proibição não o é. Conquanto beber possa ser um capricho, diz Chesterton, “é um capricho que não pode ser proibido a um cidadão, mas pode ser proibido a um escravo.” E quais são estas canções que foram tão atacadas? Nada mais, nada menos do que alguns dos poemas mais deliciosos e maravilhosos que Chesterton ou qualquer outra pessoa já escreveu desde que o mundo é mundo: The Song of Right and Wrong, The Song of the Dog Quoodle, Wine and Water, The Logical Vegetarian, The Good Rich Man, The Saracen’s Head, e The Rolling English Road, cujos últimos dois versos são:

 

For there is good news yet to hear and fine things to be seen,

Before we go to Paradise by way of Kensal Green.

 

*Para quem ficou a se perguntar o que é Kensal Green, é o nome de um grande cemitério londrino.

 


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