A Douta Imaginação e A Louca Imaginação

Por Bruno Otenio

Autor do blog Bruno Otenio

A Douta Imaginação e A Louca Imaginação

G. K. Chesterton & Friedrich Nietzsche

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A primeira coisa que devemos deixar claro é a definição do que é a Imaginação. Pois nos debruçaremos nela para poder contrapor e também definir a douta da louca imaginação e a partir destas, situar G. K. Chesterton e Friedrich Nietzsche em seus devidos lugares. Finalizo indicando a que fim conduz cada uma destas formas de imaginação.

Sendo assim vamos às definições:

Imaginação é: o ato ou efeito de imaginar, isto é, o ato de criar mentalmente coisas, mundos, imagens, criaturas, estórias. É a capacidade de fantasiar, de criar mundos fantásticos. Imaginação não é somente o ato de criar realidades mentais, coisas, novas realidades. É a faculdade de reproduzir imagens mentais para fins analíticos, meditativos, reflexivos, criativos, inventivos entre outros. Ou seja, a imaginação é a faculdade que o ser humano possui para prever situações, para pré-sentir sensações, para relembrar situações do passado ou antecipar, presumir, uma possível aventura do futuro, supor situações.

O Homem é a única criatura que possui a capacidade de uma imaginação reflexiva. Por meio dela podemos vislumbrar histórias que nos são contadas ou que lemos. Quando nos aventuramos nos livros de histórias, principalmente as fantásticas, nós colocamos para funcionar de forma “plena” nossa imaginação. Nós fantasiamos! Sentimos a adrenalina das histórias de aventuras por meio da imaginação. Sentimos as tristezas das personagens também por meio da imaginação. Sentimos prazeres com histórias eróticas por causa daimaginação. Alegrias, consolos, pesadelos, nostalgias, curiosidade, saudades, sustos, medos, entre outras sensações ou sentimentos, tudo isso é gerado em nós por meio da imaginação. Por isso acredito que nos seja de extrema necessidade aprendermos a usar essa faculdade de forma realmente harmônica para com a nossa vida e que possa gerar também benefícios para vida em sua totalidade, isto é, a nossa própria vida que se relaciona com a vida de outros, e ambas se relacionam com a vida do mundo.

Mas vale a pena ressaltar uma importante restrição: o mundo da imaginação é também um lugar perigoso para se caminhar quando nossa razão não está funcionando bem. Se por qualquer patologia psicológica, qualquer desequilíbrio psicossomático, disfunção cognitiva ou racionalismo exacerbado, o indivíduo usar de mais e de forma errada sua imaginação, a consequência será desastrosa. Por isso alerto que com a mesma facilidade que a imaginação pode nos proporcionar certos prazeres e consolos, ela também pode nos prender numa realidade totalmente diferente da qual estamos inseridos. Ela, por sua vez, irá levar o indivíduo a um labirinto que dificilmente ele sairá. A partir deste conceito, podemos definir dois tipos de imaginação: a Douta Imaginação e aLouca Imaginação.

Por Douta Imaginação estende-se aquela imaginação que produz na pessoa os mais perfeitos benefícios mentais, físicos e espirituais. Ora, a Douta Imaginação não é pura imaginação, é ato criador, é o indivíduo que é capaz de criar uma sequência de imagens que o capacita viver melhor no mundo físico. Não se trata de trazer o irreal para real, mas se trata de, por meio da imaginação, expressar de forma fantástica verdades referentes ao próprio homem, ao mundo, a sociedade, religião, seja lá o que for. O homem dotado de Douta imaginação é capaz de ir à lua, vivenciar a gravidade, retornar ao planeta Terra e contar sua experiência sem necessidade de sair de seu quarto, porque não imaginou simplesmente, ele de fato sentiu, viveu a experiência, porque acreditou. É a Douta Imaginação que capacita o homem a ter uma abertura ao inimaginável, ao Sagrado, ao numinoso que ao atingir sua mente, seus sentidos, o fascina e o atrai. A imaginação por si só é capaz de gerar bons sentimentos como também maus sentimentos, mas a Douta Imaginação causa no homem sentimentos transformadores, isto é, leva o homem a uma mudança de postura de vida, atitudes, pensamentos, direção, um sentimento tão real e vivo que é capaz de arrancar lágrimas verdadeiramente libertadoras. É a Douta imaginação que permite o homem a crescer na fé, por exemplo. Os maiores especialistas neste modo de imaginar são aqueles entregues a meditação e a contemplação. Os antigos Filósofos como Sócrates, Platão, Aristóteles, Santo Agostinho, Santo Tomás de Aquino, C. S. Lewis, J. R. R. Tolkien, Adouls Huxley  como também todos os Santos e Místicos da Igreja Católica,  são doutos imaginadores, isto é, todos eles souberam ir além do simples ato de crer ou especular, do filosofar ou meditar, eles realmente visualizavam em sua mente aquilo que criam e não só visualizavam como sentiam que era real e sua vida testemunhava tais experiencias, eles contemplavam as maravilhas últimas, ainda que faltavam-lhe palavras para se expressarem.

Como havia já dito na definição acima, a imaginação não é somente o ato de criar imagens ou estórias, contos ou fábulas, mas também o ato de antecipar certas realidades que ainda estão por vir. Por exemplo, quando a uma criança se promete um dia inteiro num parque de diversões no seu dia de aniversário, certamente esta criança irá imaginar todo o seu dia e verdadeiramente sentirá, de forma antecipada, a alegria de vivenciar aquele dia. O mesmo e de forma perene ocorre com a Douta Imaginação.

Devo deixar claro que não se trata de uma simples imaginação, como viver numa fantasia simplesmente, mas se trata de usar uma faculdade própria do ser humano para auxiliar a tão singular “razão humana”. Ora G. K. Chesterton é um notável exemplo de um homem sábio e meditativo que soube junto com a razão se beneficiar com a Douta Imaginação. Seus escritos conduzem o leitor justamente para esta forma de ver o mundo. Esta forma de imaginação era o perene ato que fez de Chesterton tão notável e temido Filósofo do séc. XX. Ao contrário de inúmeros ideólogos e filodoxos da modernidade e contemporaneidade, que dão total ênfase aos prazeres ou a razão (o dito racionalismo), Gilbert Keith Chesterton soube integrar a razão com a imaginação. O ato da Douta Imaginação pretende apenas meter a cabeça do homem no Absoluto. Enquanto que o lógico-racionalista, o amante da opinião, o louco imaginador ou o escravo das vontades, tenta colocar o Absoluto na cabeça. Isso certamente fará a cabeça deste indivíduo explodir[1]. A Douta imaginação ocorre quando o indivíduo demonstra certa insatisfação para com o mundo em que está inserido, o que o leva a criar ou refugiar-se num mundo imaginário que nada mais é do que um instrumento de re-organização da própria razão, sentimentos, relações, projetos e escolhas. Não se trata de uma fuga do mundo real, mas de um “lugar” para o indivíduo recuperar as forças para a aventura do mundo real. É como um oasis no deserto.

A maior expressão de uma autêntica, verificável e correta Douta Imaginação encontra-se no mundo fantástico, ou seja, esta imaginação se dá de fato no País das fadas[2]. A pedagogia contida nos contos de fadas tem muito a ensinar o homem em seu processo de conhecimento da verdade, de si mesmo, do outro e do mundo. G. K. Chesterton em sua maior obra literária, intitulada Ortodoxia[3], nos diz que:

“Os antigos contos de fadas têm como herói um ser humano normal: suas aventuras é que são impressionantes e impressionam-nos exatamente porque tratam de um ser normal. Mas, no moderno romance psicológico, o herói é anormal: o centro não é central. Nessas condições, as mais terríveis aventuras deixam de afetá0lo devidamente, e o livro torna-se monótono. Pode-se escrever uma história de um herói entre dragões, mas não uma história de um dragão entre dragões. O conto de fadas aborda aquilo que um homem ‘são’ fará em um mundo louco: o romance realista, com toda a sua sobriedade, mostra-nos o que um indivíduo essencialmente lunático fará em um mundo estúpido”[4]

Mas sobre a pedagogia e a ética do Reino Encantado, dos contos de fadas, trataremos mais adiante, convém agora esclarecer o contraposto da Douta Imaginação, a Louca Imaginação.

Por Louca Imaginação deve-se compreender aqui um modo insano de se imaginar. Ora, o indivíduo que possui esta forma de imaginação não pode ser confundido como um louco, mas deve ser visto como alguém que caminha para loucura, para a insanidade. É justamente a Louca imaginação que acarreta no aprisionamento da pessoa no labirinto sem saída. Labirinto criado pela própria mente da pessoa. A loucura, a insanidade, é apenas o efeito de uma louca imaginação. É uma relação de causa e efeito. A Louca imaginação pode causar nas pessoas inúmeras patologias, escravizá-las no pecado, depressão, surtos psicóticos, demência, síndrome de perseguição, duplipensar, paralaxe cognitiva, entre muitas outras loucuras.

Geralmente são os ideólogos ou filodoxos que terminam na insanidade, devido esta forma de imaginar o mundo. A principal causa da louca imaginação é a negação do mundo em que vive, e a criação de um mundo na qual este indivíduo resolve refugiar-se. Note que há uma tênue proximidade entre a Douta Imaginação e a Louca Imaginação quanto ao problema do mundo, mas a diferença, e se trata de uma diferença que muda todo o efeito do modo de imaginar, está no fato de que enquanto a Douta imaginação parte de uma insatisfação para com o mundo em sua volta, a Louca Imaginação é a negação total desta realidade. Esta negação leva o indivíduo a criar uma realidade que certamente culminará em duas situações desastrosas: ou o indivíduo terminará internado num hospício, imerso em sua própria loucura ou certamente se tornará o pai de alguma ideologia. Esta segunda situação não exclui a primeira, mas geralmente a antecede. É o caso de Friedrich Nietzsche, pai do niilismo. Bastando citar que este mesmo ideólogo ou filodoxo (para alguns: filósofo) terminou sua vida imerso na loucura.

Nietzsche é um grande exemplo de uma pessoa que acabou atormentado e perdido em sua própria realidade imaginária. Mas não porque a imaginação seja a causa de tudo isso, mas causa de sua visão errônea do mundo, das pessoas ao seu redor, da realidade em si mesma. Lembre-se de que o louco imaginador é aquele que nega a própria realidade e se esconde em sua própria ou tenta transformar a realidade negada em sua própria realidade imaginada, tal como os grandes ideólogos ou fascistas e ditadores, tais como Karl Marx, Hitler, Mussolini, Stalin, Lênin, Fidel Castro entre outros. Mas entre muitos pensadores loucos, o que mais representa o indivíduo que aderiu a louca imaginação é Friedrich Nietzsche.

Muitos pensadores que se alimentam da louca imaginação não acabam, por via das regras internado num hospício. Ora, somente os loucos patéticos terminam no hospício. Pois sua loucura não produziu nada além de uma desordem subjetiva. Mas são os loucos ideólogos soltos pelo mundo que tornaram louco também o próprio mundo. Pois diferente dos loucos patéticos, os loucos ideólogos acabaram por desenvolver uma certa realidade imaginária um tanto convincente e atraente, não por ser lógica ou bela, mas porque é justamente louca e diferente, justamente porque causa espanto e fascínio. Uma loucura aparentemente organizada que atinge os prazeres das pessoas ou que a inspire “liberdade” sempre atrairá um grande número de adeptos. Não são os loucos que aderem tais loucuras ideológicas, mas as pessoas comuns, que não avançando para Douta imaginação, permanecendo somente na imaginação por si só, aceitam de prontidão a loucura messiânica da Louca Imaginação.

Todos os loucos imaginadores são na verdade medrosos. Temem o mundo real, fogem dele, não enfrentam a realidade. Preferem a negação desta, escolhem a fuga do que a luta. Vejamos por exemplo o famoso niilismo de Nietzsche. O Niilista é a pessoa que conscientemente negou os preceitos morais tradicionais, mais especificamente cristãos, e passou a agir segundo suas próprias vontades e instintos, isso para poder causar o fim de toda a moralidade, por isso Nietzsche decreta a morte de Deus, não que ele esteja negando a crença em Deus mesmo, mas negando a moralidade e os preceitos éticos judaico-cristãos. Claro que como cristão podemos afirmar que Nietzsche negou Deus decretando a sua morte, pois cremos que o Deus cristão seja o único Deus criador de todas as coisas visíveis e invisíveis, mas o que Nietzsche certamente queria era desconstruir os valores fundamentais do cristianismo que impedia o surgimento de uma comunidade de homens livres e senhores de si mesmo. Por isso Nietzsche propunha a criação subjetiva de novos valores, nova ética, sem a necessidade de um Deus metafísico como referencia de atitudes a serem tomadas. É dessa nova comunidade de homens livres que nasceria o Super-Homem[5], isto é, o homem que consegue ultrapassar a si mesmo. É o homem que superou a opressão da moral do cristianismo, que possui uma nova percepção de ser e de agir, que julga por si mesmo e a partir de si mesmo o mundo.

Em sua obra a Gaia Ciência, Nietzsche afirma:

“O insensato. – Nunca ouviram falar de um louco que em pleno dia acendeu sua lanterna e pôs-se a correr na praça pública gritando sem cessar: – Procuro Deus! Procuro Deus! Como lá se encontravam muitos que não acreditam em Deus, seu grito provocou uma grande hilariedade. – Ter-se-á perdido? perguntou um. – Ter-se-á perdido como criança? – perguntou outro. Ou estará escondido? Terá medo de nós? Terá partido? – assim gritavam e riam todos ao mesmo tempo. O louco saltou em meio a eles e trespassou-os com seu olhar. – Para onde Deus foi? – bradou. – Vou lhes dizer! Nós o matamos, vós e eu! Nós todos, nós somos seus assassinos! Mas como fizemos isso? Como pudemos esvaziar o mar? Quem nos deu a esponja para apagar o horizonte? Que fizemos quando desprendemos a corrente que ligava esta terra ao sol? Para onde vai agora? Para onde vamos nós? Longe de todos os sóis? Não estaremos caindo incessantemente? Para a frente, para trás, para o lado, para todos os lados? Haverá ainda um acima, um abaixo? Não erramos como através de um nada infinito? Não sentiremos na face o sopro do vazio? Não fará mais frio? Não surgem noites, cada vez mais noites? Não será preciso acender as lanternas pela manhã? Não escutamos ainda o ruído dos coveiros que enterram Deus? Não sentimos nada da decomposição divina? Os deuses também se decompõem! Deus morreu! Deus continua morto! E nós o matamos!! Como nos consolaremos, nós, os assassinos dos assassinos? O que o mundo possui de mais sagrado e possante perdeu seu sangue sob nossa faca. O que nos limpará deste sangue? Com qual água nos purificaremos? Que expiações, que jogos sagrados teremos que inventar? A grandeza desse ato não é muito grande para nós? Não seremos forçados a tornarmo-nos deuses para parecermos, pelo menos, dignos de deuses? Jamais houve ação tão grandiosa e aqueles que poderão nascer depois de nós, pertencerão por esta ação a uma história mais alta que o foi até aqui qualquer história – O insensato calou após pronunciar estas palavras e voltou o olhar para seus ouvintes; também eles se calavam como ele e o fitavam com espanto. Atirou, finalmente, a lanterna ao chão de tal modo que se espatifou, apagando-se. – Chego muito cedo – disse então, – meu tempo não é chegado. Este evento enorme está a caminho, aproxima-se e não chegou ainda aos ouvidos dos homens. É preciso tempo para o relâmpago e o raio, é preciso tempo para a luz dos astros, é preciso tempo para as ações, mesmo quando foram efetuadas, serem vistas e entendidas. Esta ação está ainda mais longe deles que o astro mais distante e todavia foram eles que o cometeram! Conta-se ainda que esse louco penetrou nesse mesmo dia em diferentes igrejas e entoou seu Requiem aeternam Deo. Expulso e interrogado não cessou de responder a mesma coisa: ‘De que servem estas igrejas se são tumbas e monumentos de Deus?”[6].

Veja que em determinado momento o personagem de Nietzsche declara:

“Chego muito cedo – disse então, – meu tempo não é chegado. Este evento enorme está a caminho, aproxima-se e não chegou ainda aos ouvidos dos homens. É preciso tempo para o relâmpago e o raio, é preciso tempo para a luz dos astros, é preciso tempo para as ações, mesmo quando foram efetuadas, serem vistas e entendidas”.[7]

Ora quem é este que chegou cedo de mais? Este é o próprio Nietzsche. Este personagem é uma metáfora dele mesmo. Enquanto que as outras personagens representam os cristãos, rendidos em sua moralidade, que velam o corpo de Deus nas igrejas e, as pessoas da praça pública, são os niilistas que ainda não perceberam que deveriam dar a luz ao Super-Homem e não apenas desconstruir os tradicionais valores.

Ora, Nietzsche, como explicado à cima, é o melhor exemplo de alguém imerso em sua própria imaginação. Um medroso, incapaz de enfrentar a realidade tal como ela é. Nietzsche é o típico homem desencantado com o mundo, que perdeu o encanto da vida, que não soube mais olhar o mundo com esperança, e isso é a causa de uma louca imaginação, uma imaginação que não cria, mas lamenta, e degenera em imagens desastrosas, metafóricas somente e malignas. Mas não devemos descartar Nietzsche, pois de fato este é uma vida importante para nossa reflexão, pois este expressa, de alguma forma, a loucura do homem contemporâneo.

  1. K. Chesterton seguramente afirma sobre Nietzsche:

“Nietzsche, para alguns, é um ousado e forte pensador. Não se pode negar que tenha sido um pensador poético e sugestivo, mas era exatamente o oposto de forte. De forma alguma se pode dizer que ele tenha sido ousado. Nunca se atreveu a pôr na sua frente, em palavras nuas e cruas, a sua maneira de pensar, como fizeram Aristóteles, Calvino e, até, Karl Marx, os intensos e intrépidos homens de pensamentos. Nietzsche sempre procurava desviar-se de questões por meio de metáforas físicas, como um alegre poeta menor. Ele dizia “além do bem e do mal” ou “pior do que o bem e o mal”. Se ele tivesse externado, sem qualquer metáfora, a sua maneira de pensar, teria visto que se tratava de uma tolice. Assim, quando descreve o seu herói, não se atreve a dizer “o homem mais puro” ou “o homem mais feliz” ou “o homem mais triste”, porque todas essas afirmações são ideias, e as ideias são alarmantes. Ele diz “o homem mais elevado” ou “super-homem”, metáforas de natureza física, atribuídas a acrobatas ou alpinistas. Nietzsche é, na verdade, um pensador muito tímido. Ele de fato, não sabe nem ao menos que tipo de homem deseja ver produzido pela evolução”[8].

Diferentemente de uma louca imaginação que se utiliza de inúmeras metáforas e imagens mentais confusas que aprisionam o homem numa irrealidade, a Douta Imaginação e por consequência os contos de fadas não expressam verdades por meio de metáforas, mas apenas fantasia a própria verdade, cujo fim último não é a fuga do mundo, mas o antegozo de realidades vindouras. Nos contos fantásticos o homem é imerso numa realidade totalmente singular, pode em meio à confusão ser ele mesmo. Os contos de fadas, as histórias fantásticas servem para ilustrar como uma pessoa comum consegue se virar no meio de enormes gigantes selvagens. E como esta mesma pessoa comum conseguiu restabelecer a ordem através da esperança, da amizade, da perseverança no bem, e do exemplo de uma autêntica postura moral e respeitosa para com a vida como um todo. Pois o herói dos contos sempre é referência de boa conduta, que se doou pela vida de outrem, respeitando a natureza, os animais, o povoado, o reinado, a princesa, os reis, o plebeu, etc. Não se trata de uma imaginação metafórica que esconde sua frustração ou medo para com o mundo, mas uma história imaginada que ilustra o desejo do homem de ver seu mundo bem. Nos contos de fadas é a esperança que é plantada no coração das pessoas, pois sempre o bem acaba vencendo o mal. E se há alguma metáfora, esta se encontra no maravilhamento que o Reino Encantado gera no homem, tal maravilhamento que faz o homem novamente ter forças para amar e se aventurar no mundo real. Maravilhamento este que toda criança possui quando olha para o mundo ao seu redor. Maravilhamento este que os loucos perderam de vistas.

Vale apena citar o que G. K. Chesterton nos ensina sobre os contos de fadas:

“O que me interessa agora é aquela ética e filosofia que nasceu dos velhos contos de fadas. Se me propusesse a descrevê-la pormenorizadamente, poderia apontar os muitos e nobres princípios contidos em tais contos. Temos a lição de cavalheirismo que nos é dada por Jack, o Matador de Gigantes: os gigantes devem ser mostos porque são gigantescos. É uma revolta humana contra o orgulho considerado como tal. Pois os rebeldes são mais velhos do que todos os reinos, e o Jacobino tem mais tradição de que o Jacobita. Temos a lição daCinderela, que é a mesma do Magníficat: exultavit humiles. (exaltou os humildes (Lc 1, 52). Há a grande lição contida em A Bela e a Fera: uma coisa deve ser amada antes que seja digna de amor. Há a terrível alegoria daBela Adormecida, que nos mostra como uma criança foi presenteada com todas as dádivas ao nascer, apesar de amaldiçoada com a morte, e como a morte também pode, talvez ser suavizada pelo sono. Não me interessa, porém, nenhum dos estatutps da Terra dos Elfos isoladamente,; interessa-me, apenas, o espírito da totalidade da sua lei, o qual aprendi ante mesmo de saber falar e que ainda hei de conservar quando não puder mais escrever. Interessa-me determinada maneira de encarar a vida, maneira essa que aprendi nos contos de fadas e que, desde então, foi serenamente corroborada pelos fatos mais simples”[9].

Nietzsche acreditava que a ética encontrava-se no instinto humano mais essencial, isto é, na vontade de poder. Poder aqui não significa "ser poderoso", mas em ter liberdade para livremente agir, julgar, pensar, fazer o que bem entender segundo as suas próprias convicções, Poder aqui significa domínio sobre todas as coisas. Por isso a moral cristã para Nietzsche era uma moral que escravizava, pois esta prendia a sociedade, as pessoas, dentro de um conjunto de normas universais de ética decadente. Por isso Nietzsche loucamente propôs uma nova forma de se fazer ética, a ética do Super-Homem, isto é, indivíduos poderosos que transcendem as normas comuns e senhores de suas próprias normas de vida. Ora, não é de se estranhar que seu pensamento muito influenciou Hitler e o Nazismo, como também Benito Mussolini e o Fascismo, pois essa vontade de poder serviu de base para ambos declararem guerra ao sistema moral, governamental e social de sua época. Ainda que isso jamais tenha sido de fato da vontade de Nietzsche, mas apenas consequências uma louca imaginação.

  1. K. Chesterton discordando desta filosofia da vontade proposta por Nietzsche diz:

“Houve uma escola de pensadores que observou esse fato e resolveu aproveitá-lo como meio de restauração da saúde pagã do mundo. Vêem, perfeitamente, que a razão destrói – dizem eles – mas a vontade cria. A última autoridade – dizem ainda – reside na vontade e não na razão. A questão principal não está no fato de saber-se por que motivo o homem procura algo, mas sim no fato de ele procurá-la. Falta-me espaço para esboçar ou expor aqui esta filosofia da Vontade. Acho que tal teoria chegou a nós por intermédio de Nietzsche, que pregou algo a que se dá o nome de egoísmo. Mas isso não passa de ingenuidade, pois Nietzsche já negou o egoísmo pela simples razão de pregá-la. Pregar uma coisa é divulgá-la; e o egoísta, que considera a vida uma guerra sem tréguas, emprega o melhor dos seus esforços para incitar os seus inimigos nessa guerra. Pregar o egoísmo é praticar o altruísmo. Mas seja qual for a sua origem, este ponto de vista já é comum na literatura moderna. A principal defesa de tais pensadores é que eles não são pensadores: são executores. Eles dizem que a escolha é em si, uma coisa divina. Bernard Shaw[10] atacou a velha ideia de que os atos do homem devem ser aferidos pelo padrão do desejo de felicidade; ele diz que o homem não age para sua felicidade, mas com a sua vontade [...] A pura glorificação do ato volitivo acaba no mesmo aniquilamento e no mesmo vácuo que a mera busca da lógica. Exatamente como o livre pensamento absoluto envolve a dúvida do próprio pensamento, também a aceitação do simples “querer” paralisa, realmente, a vontade [...] A diferença real entre o teste da felicidade e o teste da vontade é, simplesmente, que o primeiro é, de fato, um teste, ao passo que o outro não é [...] O culto da vontade é a negação da vontade. Admirar a simples escolha é recusar-se a escolher. [...] não podemos admirar a vontade em seu sentido geral, porque, na sua essência ela é particular”[11].

Os frutos do pensamento Nietzschieniano acabaram por mostrar quão prejudicial é a louca imaginação. Vejamos: Nazismo (Hitler), Fascismo (Mussolini), ateísmo radical e neo-ateísmo.  Agora por outro lado, os frutos do pensamento de G. K. Chesterton foram positivos e sublimes. C.S. Lewis (Crônicas de Nárnia), J. R. R. Tolkien (Hobbits e o Senhor dos Anéis), pensadores de seu próprio tempo. Ambos influentes em seu meio, ambos trouxeram esperança para aqueles que tiveram contato com suas obras, ambos influenciados pela alegria dos escritos de Chesterton.

Enfim, a Douta Imaginação nos conduz a maravilhamento do Mundo, nos abre ao inimaginável e nos prepara para um mundo diferente. Chesterton é sem dúvida um representante desta Douta imaginação. Ives Gandra da Silva Martins Filho bem define sua obra como: “um canto de Alegria, com três virtudes fundamentais para todo o caminho da vida: conhecer as próprias limitações (humildade) e as próprias potencialidades (fortaleza), e saber dar graças por umas e por outras, captando o sentido sempre positivo da própria existência (alegria)”[12].

A louca imaginação, por sua vez, apenas nos conduz a insanidade, a loucura e gera sem sombra de dúvidas os mais terríveis desastres na vida da pessoa. Seja pela infelicidade de simples familiares que precisarão internar seu parente no hospício ou pela terrível influencia de ideologias totalitaristas, pois essa é a essência de uma ideologia, ser única e hegemonista. Nietzsche de fato é um pensador de destaque, mas optou pela louca imaginação, preferiu o egoísmo terminando na insanidade e sua obra ao contrário da obra de Chesterton que nos conduz a Alegria, nos conduz a loucura.

“Se Nietzsche não tivesse acabado na imbecilidade, o nitzschianismo é que teria tido tal fim. Pensar isoladamente e com orgulho acaba na idiotia. Todo homem que não sofrer de enfraquecimento de coração acabará por sofrer de enfraquecimento do cérebro”[13].

Por Bruno Otenio

[1] Paráfrase do texto original de G. K. Chesterton de seu Livro Ortodoxia: “O poeta pretende apenas meter a cabeça no Céu, enquanto o lógico se esforça por meter o Céu na cabeça. E é a cabeça que acaba por estourar”. CHESTERTON, G. K. Ortodoxia. Campinas, SP: Ecclesiae, 2013. p. 37.

[2] Fada aqui não significa criaturinhas minúsculas, mas está relacionado especificamente ao Conto Encantado, conto do mundo fantástico.

[3] Livro onde Chesterton demonstra e defende sua Filosofia de vida.

[4] CHESTERTON, G. K. Ortodoxia. Campinas, SP: Ecclesiae, 2013. p. 35.

[5] Mais corretamente: Supra-Homem ou ÜBERMENSCH em alemão.

[6] Friedrich Nietzsche – A Gaia Ciência – Aforismo 125.

[7] Ibidem, idem.

[8] CHESTERTON, G. K. Ortodoxia. Campinas, SP: Ecclesiae, 2013. p. 158.

[9] Ibidem. p. 80.

[10] Adepto do pensamento Niilista.

[11] CHESTERTON, G. K. Ortodoxia. Campinas, SP: Ecclesiae, 2013. pp. 64-66.

[12] Ibidem. p. 24.

[13] Ibidem. p. 70.