Duas Dificuldades

G. K. Chesterton * 1874 / + 1936

TWO DIFFICULTIES, Disponível no site: Distributist Review

Tradução: Raul Martins

C.K.Chesterton

Um artigo, semana passada, continha tanto um alarme contra a desesperação perante a crise que ora nos aflige quanto um lembrete daquilo que poderíamos conseguir, tão-só houvesse uma vontade unificada. Não fingimos que haja, atualmente, uma unidade na Inglaterra ou na Europa. Há ademais confusão, cujo perigo é ainda maior; pois faz com que homens tomem ações contra o mal sem saberem o que seja bom. Portanto, faz-se mister que aqueles que perceberam as causas do colapso do sistema industrial, que atinaram com os primórdios daquele colapso e foram capazes, assim, de profetizá-lo, não poupem esforços na empresa de restaurar a segurança e a sanidade; que ignorem conselhos desesperados enquanto buscam propagar conselhos, se não de perfeição, ao menos de bem-estar.

Bem sabemos que o modo de se sanar as enfermidades de nossa civilização é levarmos a cabo uma real concepção de liberdade, restaurar a dignidade do homem e a independência da família, apropriadamente salvaguardada pela distribuição da propriedade. A riqueza e o poder tornaram-se a posse de uns poucos, o Estado tem mutilado a autoridade da família e o artesão tem sido reduzido ao nível de um servo. Duas dificuldades têm de ser vencidas, porém, antes que se possa aplicar a cura. Uma é que a liberdade não pode ser estabelecida por uma minoria impotente na política; outra, que cada vez mais gentes parecem dispostas a sacrificar sua liberdade e a liberdade de suas famílias por alguma sorte nominal de segurança econômica.

Muitos anos se passaram até que o falso sistema em que vivemos se desenvolvesse até o ponto de tornar-se pesado demais no topo e colapsasse. Pode ser que se passem muitos outros anos para tirarmos algum bem do dano. Roma não foi reconstruída num dia. Se por um golpe de sorte se tornasse possível legislar, neste país e no Continente, pela proteção do pequeno artesão, pela posse da propriedade pelo membro da comunidade médio e pelo retorno da responsabilidade da família, pode ser que se concretize, cedo, a possibilidade de ainda outro colapso. Seguir-se-lhe ia, então, uma tentativa de tornar, à força, os homens livres, em circunstâncias mais complexas do que aquelas em que os escravos americanos foram libertos. E a tentativa poderia muito bem falhar. Sobre isso, porém, não precisamos especular. É de todo duvidoso que os países industrializados, por causa dos efeitos do industrialismo, vejam qualquer retorno repentino à normalidade levado a cabo pelo governo. Há mais chances de uma recuperação morosa porém contínua, estendendo-se talvez por gerações, através dos esforços de indivíduos em trabalhos práticos e no empenho de exercerem tanta influência quanto puderem sobre seus vizinhos.

A segunda dificuldade a que nos referimos está, assim, intimamente ligada à primeira, conquanto sugira mais facilmente um curso de ação. Pois se os problemas de agora devem-se ao divórcio das pessoas de sua terra e de seus direitos, o remédio para estes problemas deve aguardar até que se espalhe o entendimento. Um homem desesperadamente enfermo, que só se pode salvar por meio de uma cirurgia, pode ter sido afetado a ponto de sofrer um colapso nervoso, e, pois, não resistir ao choque de uma operação. Sua posição é, em alguma medida, análoga àquela de uma nação que, por ter aceitado um modo de vida artificial, acabou por perder o desejo de se recuperar. Naquele caso, os doutores têm de lidar com o colapso nervoso antes de botarem o homem numa cirurgia. Neste, as mentes dos homens têm de mudar antes que eles possam melhorar seus hábitos.

Nada de bom se poderá atingir ao minimizarmos, e certamente não por ignorarmos esta condição, no mais uma das principais responsáveis pelo embasbacamento de assim chamados líderes e pelo sucesso de mestres subversivos. Aqueles, portanto, desejosos de encontrar um caminho para a vitória, têm de ser pacientes tanto quanto determinados, devem pregar, talvez, um pouco mais ativamente do que se engajam, pessoalmente, em trabalhos normais.

Injustiças têm de ser removidas, maus sistemas alterados e valores humanos tornados efetivos, uma vez mais e em suas ordens apropriadas. Mas essas coisas não podem ser feitas enquanto os homens e mulheres da nação permanecerem ignorantes, apáticos e mesmo antagônicos àquilo que deveriam prezar. Não se pode combater o comunismo com certeza de sua derrota até que as próprias pessoas reconheçam, de instinto, por que o comunismo é errado. Não se pode impedir que o socialismo espalhe-se até que se aclarem de todo seus erros. Não temos como substituir o capitalismo facilmente se a maioria em nosso redor não enxerga os principais porquês de o capitalismo ter falhado.

A fim de mudarmos as condições em que fomos colocados e em que, provavelmente, seremos colocados, será necessário, portanto, mudarmos as cabeças das pessoas; convencê-las de que a liberdade vale a pena, de que o homem tem uma dignidade para preservar, de que o trabalho com as mãos é honroso e de bom uso para a mente, de que um homem deveria ter uma casa real e protegê-la. A tarefa, ai de nós!, não é fácil. Exige que se argumente, que se escreva; exige sacrifícios pessoais, aborrecimentos ínfimos, pequenos sinais, sem dúvida, de estarmos a progredir. Se nós mesmos, porém, não virmos os resultados, outros verão. E permanece a ser considerada a possibilidade de que o abalo causado por desastres recentes pode ter tornado as pessoas mais receptivas a idéias corretas, ou lhes tenha aclarado na mente aqueles princípios que, conquanto não de todo abandonados, haviam sido parcialmente esquecidos, e aos quais as pessoas se mostraram instintivamente prontas a reagir em tempos de crises.

Tantos quantos possam fazê-lo haverão de retornar, agora, para a terra ou para o artesanato, tentarão sustentar a si mesmos e a suas famílias sem dependerem de mestres poderosos e que só sabem olhar para finanças, assegurarão alguma pequena propriedade e submeter-se-ão em fidelidade na medida em que a deverem e na ordem correta. Estes são os pioneiros que devemos assistir, encorajar, imitar. E podem fazer ainda mais, ao tornar sabido para todos que lhes quiserem dar ouvidos as razões que os impeliram a trabalhar independentemente no sistema prevalecente. Pode ser que outros, ainda presos ao sistema, desejem uma eventual liberdade de ação, enquanto mantêm a mais importante obra de propaganda. De quando em quando, eles podem imaginar estar sob a liderança da sra. Partington,1notarão, porém, se o colapso desta civilização for mais lento do que parecem pensar os apavorados políticos, que enormes resultados podem seguir-se a realizações ou tentativas individuais. Se, por todo o país, pequenos grupo de pessoas determinadas lograrem êxito, não por agitação mas por preceitos e exemplos, em formar um melhor sistema dentro deste a colapsar, a mudança da anormalidade para a normalidade pode dar-se sem maiores perturbações. Estes grupos, porém, terão de ser determinados sem negligenciar estratégias, e com poderosos exemplos. Simplesmente esperarmos, inativos, pela falência final, ou agirmos cega ou imprudentemente, seria adiar a recuperação até termos sido forçados a suportar as piores formas de servidão ou anarquia.

---------------------

Sra. Partington, personagem anedótica criada pelo humorista americano Benjamin Penhallow Shillaber, e famosa por ter tentado limpar, no rodo, uma onda d’água. Chesterton faz-lhe alusão para dizer, noutras palavras, que as gentes engajadas nas mudanças propostas poderiam sentir-se a lutar inutilmente contra algo inevitável.