Em defesa das Promessas Temerárias

Gilbert Keith Chesterton (*1874/+1936)

Em Defesa das Promessas Temerárias 

Capítulo do livro O Defensor , publicado pela Editora Ecclesiae.

Tradução de Mateus Leme.

scb_12Se um próspero homem moderno, de cartola e fraque, se comprometesse solenemente perante todos os seus funcionários e amigos a contar as folhas de uma em cada três árvores em Holland Walk, pular em um pé só até a City todas as quintas-feiras, repetir setenta e seis vezes do começo ao fim “A Liberdade” de Mill, colher trezentos dentes-de-leão em campos que pertencessem a pessoas com o nome Brown, ficar por trinta e uma horas segurando sua orelha esquerda com a mão direita, cantar os nomes de todas as suas tias em ordem de idade de cima de um ônibus, ou outra promessa igualmente estranha, concluiríamos imediatamente que o homem estaria louco, ou, como às vezes se diz, era “um artista na vida”. Porém estes votos não são mais extraordinários do que aqueles que eram feitos na Idade Média e em outros períodos similares, não apenas por fanáticos, mas pelas maiores figuras da civilização nacional e cívica -- por reis, juízes, poetas e sacerdotes. Um homem jurou prender duas montanhas juntas com uma corrente, e lá ficou a grande corrente, pelo que se conta, durante eras, como um monumento àquele místico disparate. Outro jurou que encontraria o caminho para Jerusalém com os olhos vendados, e morreu procurando. Não é fácil entender que essas duas façanhas, julgadas de um ponto de vista estritamente racional, sejam mais sensatas do que os atos sugeridos antes. Uma montanha é geralmente um objeto estacionário e confiável, que não é preciso acorrentar à noite como um cachorro. E não é muito fácil à primeira vista entender que um homem esteja fazendo uma grande homenagem à Cidade Santa ao partir à sua procura sob condições que tornam extremamente improvável que algum dia chegue lá.

Porém há algo surpreendente a ser notado nisso. Se os homens se comportassem dessa maneira em nosso tempo, como dissemos, considerá-los-íamos como símbolos de “decadência”. Mas aqueles que o fizeram então não eram decadentes; pertenciam em geral às classes mais robustas daquela que é geralmente considerada uma época robusta. Da mesma forma, dir-se-á que se homens essencialmente sãos realizaram tais insanidades, foi sob a caprichosa orientação de um supersticioso sistema religioso. E isto também não se sustenta; pois, nos setores puramente terrestres e mesmo sensuais da vida, como o amor e a luxúria, os príncipes medievais demonstram as mesmas loucas promessas e façanhas, a mesma imaginação deformada e a mesma monstruosa autoimolação. Temos aqui uma contradição, e para explicá-la é necessário considerar toda a natureza dos votos desde o princípio. E, se considerarmos séria e corretamente a natureza dos votos, chegaremos, a menos que eu esteja muito enganado, à conclusão de que é perfeitamente são, e mesmo sensato, jurar acorrentar montanhas, e que, se a insanidade estiver envolvida de alguma forma, é no sentido de que é um pouco insano não o fazer.

O homem que faz um voto assume um compromisso consigo mesmo em algum lugar ou momento distante. O perigo é que não consiga honrar o compromisso. E nos tempos modernos este terror que as pessoas sentem sobre a própria fraqueza e mutabilidade aumentou perigosamente, e é a verdadeira base para a objeção a votos de qualquer natureza. Um homem moderno evita jurar contar as folhas de uma em cada três árvores em Holland Walk, não porque seja algo tolo a se fazer (pois faz muitas outras coisas mais tolas), mas porque tem a profunda convicção de que, antes que chegue à tricentésima septuagésima nona folha da primeira árvore, estará excessivamente farto do assunto e quererá ir para casa tomar o chá. Em outras palavras, tememos que naquela hora ele será, na expressão comum mas odiosamente significativa, outro homem. Ora, é este horrível conto de fadas de um homem mudando-se constantemente em outros homens o que é a alma da Decadência. Que John Paterson queira, com aparente calma, ser um certo General Barker na segunda-feira, Dr. Macgregor na terça, Sir Walter Carstairs na quarta e Sam Slugg na quinta, pode parecer um pesadelo; mas a esse pesadelo damos o nome de cultura moderna. Um grande decadente, que agora está morto, publicou um poema há algum tempo, em que resumiu com grande força todo o espírito do movimento ao declarar que era capaz de colocar-se no pátio da prisão e compreender completamente  os sentimentos de um homem prestes a ser enforcado:

  “Pois aquele que vive mais do que uma vida Mais do que uma morte deve sofrer.”

E o final de tudo isso é aquela enlouquecedora e horrorosa perda do sentido de realidade que se abate sobre os decadentes, e comparada com a qual a própria dor física teria o frescor de uma coisa jovem. Aquele inferno que a imaginação deve conceber como o mais infernal é o de estar eternamente interpretando uma peça sem sequer a mais estreita e suja coxia onde ser humano. E esta é a condição do decadente, do esteta, do amante-livre. Estar perpetuamente atravessando perigos que sabemos que não nos podem atingir, fazendo juramentos que sabemos que não nos podem comprometer, desafiando inimigos que sabemos que não nos podem conquistar -- esta é a sorridente tirania da decadência que chamamos liberdade.

Voltemo-nos, por outro lado, para aquele que faz promessas. O homem que fez um voto, não importa o quão disparatado, expressou de forma saudável e natural a grandeza de um grande momento. Prometeu, por exemplo, prender duas montanhas com uma corrente, talvez como símbolo de algum grande alívio, ou amor, ou aspiração. Por mais breve que seja o momento de sua resolução, foi, como todos os grandes momentos, um momento de imortalidade, e o desejo de poder dizer exegi monumentum aere perennius era o único sentimento que satisfaria sua mente. O esteta moderno perceberia facilmente, é claro, a oportunidade emocional, e prometeria acorrentar duas montanhas. Mas prometeria também com a mesma jovialidade acorrentar a terra à lua. E a débil consciência de que não queria dizer o que disse, de que não estava, na realidade, dizendo nada de grande importância, tiraria dele exatamente aquele sentido de ousada realidade que é o que torna um voto excitante. Pois o que poderia ser mais enlouquecedor do que uma existência em que nossa mãe ou tia reagissem à informação de que iríamos assassinar o rei ou construir um templo em Ben Nevis com a amável compostura de costume?

A revolta contra os votos foi levada em nossos dias até o ponto de uma revolta contra o típico voto do casamento. É muito divertido escutar os oponentes do casamento sobre esse assunto. Parecem imaginar que o ideal de fidelidade foi um jugo misteriosamente imposto à humanidade pelo diabo, ao invés de ser, como é, um jugo consistentemente imposto por todos os apaixonados sobre si mesmos. Inventaram uma frase, que é uma clara contradição em termos em duas palavras -- “amor livre” -- como se um amante alguma vez tenha sido ou possa algum dia ser livre. É da natureza do amor prender-se, e a instituição do casamento simplesmente fez ao homem comum o cumprimento de tomá-lo ao pé da letra. Os sábios modernos oferecem ao amante, com um sorriso desagradável, as maiores liberdades e a mais plena irresponsabilidade; porém não o respeitam como a igreja antiga respeitava; não escrevem seu juramento nos céus, como o registro do seu momento mais elevado. Dão-lhe todas a liberdades, exceto a de vender sua própria liberdade, que é a única que deseja.

Na brilhante peça “O Namorador”, do Sr. Bernard Shaw, temos uma vívida imagem deste estado de coisas. Charteris é um homem perpetuamente em busca de ser um amante livre, o que é o mesmo que tentar ser um solteiro casado ou um negro branco. Perambula em uma ávida busca de uma certa felicidade que só consegue atingir quando tem a coragem de parar de perambular. Os homens eram mais espertos do que isso nos tempos antigos -- por exemplo, nos tempos dos heróis de Shakespeare. Em Shakespeare, quando os homens são realmente celibatários, louvam as indubitáveis vantagens do celibato: liberdade, irresponsabilidade, uma contínua possibilidade de mudança. Mas não são tolos a ponto de continuarem a falar de liberdade quando chegam a uma condição na qual poderiam se tornar felizes ou desgraçados pelo movimento da sobrancelha de outra pessoa. Suckling junta o amor com as dívidas em seu elogio da liberdade:

  “E quem de ambos livre está Ditoso é entre os homens. Vive naquela era de ouro, Em que tudo era de todos; Fuma seu cachimbo, bebe seu vinho, Sem temer mulher ou homem”

[“And he that’s fairly out of both

Of all the world is blest.

He lives as in the golden age,

When all things made were common;

He takes his pipe, he takes his glass,

He fears no man or woman.”]

Esta é uma posição perfeitamente possível, racional e varonil. Porém o que têm os apaixonados a ver com ridículas afetações de não temer mulher ou homem? Eles sabem que ao movimento de uma mão toda a engrenagem cósmica até a estrela mais remota pode tornar-se um instrumento musical ou um instrumento de tortura. Ouvem uma canção mais antiga do que a de Suckling, e que sobreviveu a uma centena de filosofias: “Quem é esta que olha pela janela, bela como o sol, clara como a lua, temível como um exército em ordem de batalha?”

Como dissemos, é exatamente esta porta dos fundos, esta noção de termos uma rota de fuga atrás de nós que é, para as nossas mentes, o espírito esterilizador no prazer moderno. Em todo lugar há o esforço persistente e insano de obter prazer sem pagar por isso. Assim, na política, os jingoístas modernos praticamente dizem: “Tenhamos os prazeres dos conquistadores sem as dores dos soldados: vamos sentar-nos em sofás e ser uma raça corajosa”. Assim, na religião e na moral, os místicos decadentes dizem: “tenhamos a fragrância da santa pureza sem o sofrimento do autodomínio; cantemos hinos alternadamente à Virgem e a Príapo”. Assim, no amor os amantes livres dizem: “Tenhamos o esplendor de nos oferecermos sem o perigo de nos entregarmos; vejamos se não é possível cometer suicídio um número ilimitado de vezes”.

Enfaticamente, não vai funcionar. Há momentos emocionantes, sem dúvida, para o espectador, o amador e o esteta; porém há uma emoção que é conhecida apenas pelo soldado que luta por sua própria bandeira, pelo asceta que passa fome para sua própria iluminação, pelo apaixonado que finalmente toma a sua decisão. E é esta transfigurante autodisciplina que torna o voto algo verdadeiramente sensato. Deve ter sido satisfatório, mesmo para a gigantesca fome da alma de um amante ou poeta, saber que, em consequência de um instante decisivo, aquela estranha corrente ficaria pendurada por séculos nos Alpes entre o silêncio das estrelas e a neve. À toda nossa volta está a cidade dos pequenos pecados, abundante em saídas dos fundos e rotas de fuga, mas certamente, mais cedo ou mais tarde, chamas violentas se erguerão do porto anunciando que o reino dos covardes acabou e um homem está queimando seus navios.

1. Região mais antiga do centro de Londres, hoje um importante distrito empresarial. (N do T)

2. Obra do filósofo John Stuart Mill, publicada em 1859, que defende os princípios do utilitarismo. (N do T)

3. Citação da “Balada da Prisão de Reading”, de Oscar Wilde. O texto original é “For he who lives more lives than one/ More deaths than one must die.” (N do T)

4. “Erigi um monumento mais duradouro do que o bronze”, verso de um poema do livro III das Odes de Horácio. (N do T)

5. Maior montanha das ilhas britânicas, localizada na Escócia, com altitude de 1344m. (N do T)

6. Referência ao poema “Love and Debt - alike troublesome” [“Amor e Dívida - dois problemas”], de John Suckling (1609-1642), poeta inglês renomado por um tom alegre e descuidado. No poema em questão, critica em conjunto o amor e as dívidas, pois ambos geram compromissos, e canta os louvores de uma vida sem maiores responsabilidades. (N do T)

7. Citação do Cântico dos Canticos, 6,10: “Quem é esta que surge como a aurora, bela como a lua, brilhante como o sol, temível como um exército em ordem de batalha?” (N do T)

8. Termo que designa um patriotismo exagerado e beligerante, o equivalente britânico do “chauvinismo” francês. (N do T)