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SAÚDE, PREVENÇÃO E DOENÇA – POR G. K. CHESTERTON

“Não tenho conhecimento de nenhuma outra máxima cujos efeitos práticos sejam piores que os daquela que diz que ‘A prevenção é melhor do que a cura.’ Naturalmente, ela é verdadeira apenas no abstrato. Se pudéssemos prever todos os males possíveis muito antes que viessem a acontecer, e se fôssemos capazes de modificá-los ou evitá-los sem esforço e sem prejudicar nada ou ninguém, obviamente deveríamos ficar contentes em poder fazê-lo. Mas isso é simplesmente impossível. Todas as nossas antecipações com relação às coisas incertas tendem, necessariamente, a desorganizar as coisas certas. É possível, por exemplo, que em algum momento eu prenda o meu dedo na porta. Os professores e cientistas modernos, juntamente com os modernos filósofos da saúde, da sociologia, da eugenia e todo o resto, tomam essa possibilidade e me dão seus conselhos a respeito.

Eles estão divididos em dois grupos intelectuais: aqueles que querem que eu me prive das portas e aqueles que querem que eu me prive dos meus dedos. Tirar todas as portas da minha casa, incluindo a da frente, certamente impediria que uma delas me prendesse o dedo, mas eu não creio que isso aumentaria, de fato, o meu conforto. Cortar fora todos os meus dedos com um machado seguramente evitaria que, mais tarde, eu pudesse vir a ter um deles preso em uma porta, mas, nesse caso, não posso de maneira alguma afirmar que a prevenção é melhor do que a cura. O que realmente importa com relação à prevenção é saber se ela cria ou não uma atmosfera mórbida ao tentar antecipar-se ao mal. Torna-se ela miserável por estar sempre sonhando com a miséria? Pois estar sempre saudável sob as ordens dos médicos nada mais é do que ser um imortal inválido. Ser mantido sempre bem é, no fim das contas, o mesmo que estar sempre mal. Pois o essencial do inválido não é o perigo, que é o orgulho do herói, nem a dor, que é o orgulho do mártir; é, sim, a limitação, o fato de estar preso a uma vida anormal.

A prevenção não é melhor do que a cura. A cura é saudável, pois se realiza num momento em que falta saúde. A prevenção é doentia, uma vez que se efetua num momento em que há saúde. Não há vantagem alguma em estar sempre com os olhos fechados por medo de ficar cego; esperar por algum sinal de cegueira para, só então, ir a um oculista não seria pior. Da mesma forma, envenenar toda a grama do meu jardim para evitar que um búfalo a coma não faz sentido algum; seria muito melhor que eu esperasse por ele e, então, calma e humildemente, o curasse – muito provavelmente com uma arma de caça.

Por essa razão eu sempre fui, por instinto, contrário a todas as formas de ciência ou ética que professem ser particularmente prescientes ou preventivas. Alguns belos idealistas ficam ansiosos por matar bebês quando pensam que eles podem crescer e se tornar maus. Mas o que eu lhes digo é o seguinte: ‘Não, meus doces idealistas; esperemos até que os bebês cresçam e se tornem maus – e então (se tivermos sorte), talvez eles possam matar vocês.’

G. K. Chesterton, DN, 30 de maio de 1908.

Este post tem um comentário

  1. João Henrique Almeida Barroso

    Texto simplesmente incrível!

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