A Era Vitoriana na Literatura

Por Dale Ahlquist

Presidente da American Chesterton Society

Publicado originalmente com o título [Lecture 24] The Victorian Age in Literature, disponível no site Chesterton.org

Traduzido por Davi James Dias

Revisado por Renato O. Romano

Em 1913, a Home University Library [1] publicou a obra The Victorian Age in Literature [A Era Vitoriana na Literatura], de Chesterton. Os editores, porém, ressaltaram que não se tratava de “uma abalizada história da literatura vitoriana”, mas das “visões pessoais” de Chesterton sobre o assunto. Ao que parece, está vedado a quem tem opiniões próprias escrever um livro de história fidedigno. Em outras palavras, um autor não pode ser uma autoridade.

Apesar desse julgamento desfavorável, o livro fez um imenso sucesso, tendo tido inúmeras edições. Um dos críticos, contudo, se bem que apreciasse o livro, exprimiu a sua irritação com “a obsessão de Chesterton por religião”. (Mais uma vez, parece que os autores não podem ter opiniões próprias, ao contrário dos críticos.) A irritação desse crítico fez com que não entendesse o ponto principal do livro, a saber, o de que é impossível compreender os escritores vitorianos sem referir-se às suas tradições e crenças – sobretudo às tradições e crenças a que eles se opunham. Chesterton afirma que a religião “foi o ponto-chave dessa época, como de qualquer outra época”.

A literatura da Inglaterra do século XVIII foi revolucionária, ao contrário de sua política – o oposto do que aconteceu na França. Ao passo que na França os camponeses se revoltaram contra a aristocracia, a única revolução política na Inglaterra, segundo Chesterton, foi a vitória dos ricos sobre os pobres. Rejeitou-se a teologia puritana, mas as práticas puritanas permaneceram, com toda a sua rigidez, exclusivismo e “brilho fosforescente, algo cadavérico”. E, embora a sociedade tentasse preservar sua fachada moral, no fundo dela havia uma filosofia cruel denominada utilitarismo. A esse grande hiato entre a teoria e a prática Chesterton chama “a solução conciliatória vitoriana”.

Não foi por causa de suas ideias científicas que Darwin alcançou a notoriedade, mas porque o utilitarismo era a “filosofia no poder”. Essa filosofia foi responsável pelo “industrialismo ateu” e pelo culto da riqueza. Já então o utilitarismo espalhava rumores sobre a proliferação dos pobres, dava indiretas sobre o infanticídio e murmurava contra “a insensatez de se permitir a sobrevivência dos não adaptados”. Foi nesse contexto que os grandes escritores da Era Vitoriana escreveram. Quase todos eles reagiram ao utilitarismo, se bem que desde variadas perspectivas e com diferentes resultados. Sabiam que um elemento fundamental de sua sociedade se perdera e tentavam apreendê-lo, mas a maioria deles compreendia apenas parcialmente a situação. Ruskin, por exemplo, “queria todas as partes da catedral, exceto o altar”. E os pré-rafaelitas “recorriam à linguagem medieval para blasfemar da religião medieval”. Henry James, por sua vez, buscava o sobrenatural, mas o encontrou apenas sob suas formas trágicas e diabólicas. E Thomas Hardy “era uma espécie de ateu da aldeia, a observar friamente o bobo da aldeia e a escarnecer dele” (uma passagem que deixou Hardy tão abalado que passou a insultar Chesterton pelo resto da vida, até em seu leito de morte – o que talvez seja prova de que Chesterton disse a verdade, ainda que ele próprio tivesse de fazer o papel do bobo para o ateu de Hardy.) Somente John Newman e o chamado Movimento de Oxford [2] é que “pacientemente deslindaram a massa confusa das ideias vitorianas”, até ao ponto de abraçar na íntegra a fé histórica que se perdera.

No entanto, é Charles Dickens e Robert Louis Stevenson que merecem os maiores elogios de Chesterton. Dickens, na opinião do autor de A Era Vitoriana na Literatura, foi o mais humano dos escritores vitorianos, o que mais verdadeiramente se compadeceu dos infelizes e oprimidos. E Stevenson, mais do que qualquer outro, foi o responsável pelo fim da “solução conciliatória vitoriana”, ao apontar-lhe os defeitos, ao “ansiar pelas coisas negligenciadas” e ao escrever aquela história que tão vividamente resumiu o problema: O Médico e o Monstro [3]. A moral dessa história, que muitos não entenderam, não é a de que o homem pode se dividir em duas criaturas, uma má, outra boa, mas a de que isso não pode acontecer. O mal não se importa com o bem, mas o bem, sim, se importa com o mal: “O homem não pode fugir a Deus”. A consciência moral do homem, plantada nele por Deus, irá reduzi-lo a pedaços caso ele dê livre curso ao reino do mal.

O que Stevenson pôs à mostra foi a perda do sacramental. Desenvolviam-se ao mesmo tempo duas filosofias igualmente deficientes e que se detestavam mutuamente, o materialismo e o espiritualismo. A alma e a matéria, porém, são inseparáveis. Um fantasma não é um homem. Um cadáver não é um homem. Somente uma religião sacramental reúne as duas, alma e matéria, em seu correto e perfeito equilíbrio.

Não se pode mesmo compreender a Era Vitoriana sem se referir à desintegração da ordem social católica. As várias heresias que pulverizaram o catolicismo não foram apenas heresias religiosas, mas também culturais, políticas e artísticas. A velha ordem não foi jamais substituída por uma nova ordem, mas somente por contínuas reações contra a velha ordem. Segundo Chesterton, os representantes do protestantismo que vieram mais tarde conservaram o protestantismo, mas puseram de lado o cristianismo. A Era Vitoriana começou com a filosofia ateísta do utilitarismo; acabou na “filosofia da decadência”, que desafiava a Deus, com os homens a praticar ações torpes não porque não sabiam que agiam mal, mas exatamente porque tinham consciência de que agiam mal: “Os decadentistas perderam completamente a luz e a razão de sua existência.”.

Não causa espécie que a análise feita por Chesterton sobre Oscar Wilde e os decadentistas se aplique muito bem à atual subcultura homossexual, que tenta fazer parte da cultura dominante; tenta, mas nunca o consegue perfeitamente, pois se tem “a impressão de que ela não chega lá, ou então vai longe demais”. Em outras palavras, não é normal. Erra o alvo porque traz um defeito fundamental. Embora apele “com exagerada força à nossa compaixão”, ela “oscila à beira de um precipício de sentimentalismo”.

A revolução vitoriana na literatura conduziu à independência, à excentricidade e, afinal, à anarquia. Embora os escritores se opusessem ao utilitarismo, muitos dos luminares intelectuais da época cederam a um agnosticismo que os envolveu numa sombria atmosfera de dúvida. Darwin fez com que os vitorianos se tornassem “desmiolados” não apenas em relação a Deus, mas também em relação ao homem. As novas ideias não tinham conteúdo, e nada poderia impedir que “as crescentes massas de agnósticos aderissem aos extremos desesperançados e desumanos do pensamento destrutivo”.

É uma profecia assustadora e terrivelmente exata. Vimos já esses “extremos desesperançados e desumanos do pensamento destrutivo”. Sentimo-los na pele. Testemunhamos uma maior destruição da humanidade do que em toda a história do mundo. Mas fomos alertados antes do acontecido: em 1913, em um livro fino de crítica literária, G.K. Chesterton escreveu eloquentemente sobre a “cultura da morte” que estava por vir.

Notas do Tradutor:

1- Home University Library: Semelhantemente a Everyman’s Library, foi uma famosa série de livros que tinha por fim divulgar nos lares, a preços acessíveis, o melhor do que se aprendia e discutia nas universidades inglesas.

2- Oxford Movement: “O Movimento de Oxford é uma corrente de pensadores anglicanos que se dispuseram a estudar as origens do Cristianismo e, em grande parte, se converteram à Igreja Católica no período de 1833 a 1845. Entre todos sobressai John Henry Newman (1801-1890), que, convertido em 1845, se tornou Cardeal da S. Igreja.” Para saber mais, conferir: http://www.pr.gonet.biz/kb_read.php?num=586&head=0.

3- O título original do livro é “Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde”, porém no Brasil a obra ficou mais conhecida pelo título de “O Médico e o Monstro”.

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