A Ética do Reino Encantado

A Ética do Reino Encantado

G. K. Chesterton * 1874 / + 1936

Traduzido do inglês por Márcia Xavier de Brito

Em todas as bibliotecas do mundo, não há leitura melhor e mais proveitosa do que os contos de fadas; e há poucos locais em que podemos lê-los melhor do que na série de contos de fadas do Sr. Andrew Lang (1844-1912). Os estudiosos do folclore, como classe, são um contraste singular com este estudo misterioso e fascinante. São pessoas detestavelmente vulgares e dissecam hipogrifos e quimeras com mais frieza e desumanidade do que um zoólogo o faz com salamandras e besouros. Mas o Sr. Lang fez algo mais do que um estudo de velhas fábulas de mulheres; ele as apreciou, e quase se poderia dizer, acreditou nelas.

Lang é mais do que um estudioso da infância do mundo; ele é uma criança. Portanto, fez um trabalho admirável ao coletar todas as estórias da Terra numa longa e única coleção, impoluta pela informação, por notas ou por pesquisas acadêmicas que se desenrolam diante de nós, sem começo nem fim, como se fossem relatadas pela voz de um contador de estórias, velado e inominado, a cujos pés todas as nações devem se prostrar. O “Violet Fairy Book” [Livro Violeta de Contos de Fadas] é um novo acréscimo à série e contém uma coletânea particularmente deliciosa. Apenas os títulos de “The Finest Liar in the World” [O Maior Mentiroso do Mundo] ou de “The Nunda, Eater of People” [Nunda, o Devorador de Pessoas] são o suficiente para despertar uma fome élfica. Mas, embora duvide que qualquer literatura deva ser criticada (exceto por motivos privados ou financeiros), é bastante certo que os contos de fadas não devem ser criticados. O ouvinte deve ouvi-los ou ir dormir.

De todas as formas de literatura, me parece que os contos de fadas apresentam o retrato mais realista da vida. Pode haver muitos erros nos detalhes, mas num mundo tão cheio de coisas estranhas, os detalhes pouco importam. Gigantes de duas cabeças e pés de feijão que sobem até os céus podem não ser verdadeiros, mas, certamente, não são maravilhosos o bastante para serem verdade. Mas, a atmosfera dos contos de fadas é surpreendentemente verdadeira para a vida. Ela lida com o encantamento silencioso que repousa nas substâncias comuns, nas sementes e nas pedras, nas macieiras e no fogo. Ela apresenta isso, sem dúvida, como pedras e macieiras mágicas, e se qualquer pessoa as olhar atentamente no campo, ao entardecer, descobrirá que é incapaz de afirmar que não são mágicas. Tomemos um exemplo bastante prático da verdade dos contos de fadas. Nessas estórias, o sucesso é dependente de uma série de objetos materiais e de observâncias; a vida é uma corrente de talismãs. Se um homem toca três árvores ao passar, está a salvo; se tocar quatro estará arruinado. Se o herói encontrar um moleiro sem barba, não deverá responder a nenhuma de suas perguntas. Se colher uma flor vermelha num determinado campo terá poder sobre os reis mais poderosos de algum reino distante. Agora, esse senso poético de determinação de algum detalhe esparso é mil vezes mais prático e verdadeiro do que a insistência pomposa a respeito de alguma lei moral ou científica que é a base dos romances mais realistas. Nenhum de nós sabe quando fazemos algo irrevogável. Nosso destino muitas vezes é decidido pelo girar de uma roda ou pelo formato de uma árvore. Mais ainda, ele é decidido, várias vezes, por um ônibus ou por um anúncio, e, portanto, pouca razão pode haver para negar que seja um ônibus mágico ou um anúncio mágico.

A grande verdade e o valor da visão de vida dos contos de fadas não podem ser mais bem expressos do que afirmar que tal visão surge, principalmente, pela total ausência do sobrenatural nos contos de fadas. Neles, não há um departamento do miraculoso, nada é concebido como ultrajante e excepcional, não há nada que lembre bolas de cristal e tábuas Ouija. Não há nenhum traço ou resquício do moderno “mundo espiritual”, o que sugere que esse mundo não é espiritual. Nos contos de fadas, os prodígios, regulares e inevitáveis, são parte da própria tessitura da vida natural. Num lugar tão estranho quanto nessa terra, é tão natural encontrar grifos, bruxas e cães de três cabeças quanto encontrar gansos e bois. Essa terra é concebida como um lugar de inumeráveis maravilhas. A porta de um chalé se abre, entra um touro e pergunta, numa linguagem extremamente formal, se pode ficar noivo da filha do dono da estalagem. Um incidente como esse poderia parecer, para uma pessoa de verdade, algo, de certa forma, muito além da experiência normal e da etiqueta. Mas, para o dono da estalagem, embora ele veja como algo assombroso, não o vê como sobrenatural. Isso não é, para ele, a prova de um fenômeno paranormal, ou de inspiração bíblica, ou do fato dele estar ficando louco. Simplesmente é uma prova de que, não importa quão velho fique; ele sempre será mais jovem do que esse mundo maravilhoso. Pareceria melhor, talvez, se disséssemos que uma idade mais sábia poderia aprender esse fato simples. O herói do conto de fadas fica impressionado, sem dúvida, quando uma abóbora se transforma numa carruagem ou o castelo voa pelos ares. Mas não fica impressionado pela razão vil e estúpida de que pensara que o mundo fosse trivial. Para ele, a vida é um ilimitado mar de monstros. Muitas vezes fica surpreso, mas, se posso empregar a expressão, ele ficaria mais surpreso se não se surpreendesse.

É um grande erro imaginar que os contos de fadas são imorais ou amorais. Eles não registram as vulgaridades de cada código moral particular, mas, a esse respeito, se parecem com todas as obras de arte. Não é verdade que a arte seja amoral: os homens são levados a ter uma visão mesquinha da arte simplesmente porque já têm uma visão muito curta da moralidade. Em outras palavras, a arte é amoral porque uma grande parte da moralidade é imoral. Os contos de fadas, embora cheirem, do começo ao fim, a furtos, violência e traição, continuam tão morais quanto os contos da Srta. Maria Edgeworth (1767-1849). Neles, vemos as grandes linhas das leis elementares e dos ideais como em nenhum outro lugar. Aprendemos, primeiramente, e acima de tudo, que todas as portas se escancaram para a coragem e a esperança. Aprendemos que o mundo é unido por laços misteriosos de confiança, de solidez e de previsão, e que mesmo os dragões verdes são fiéis às promessas. Aprendemos que nada é desperdiçado nos moinhos do mundo, de que a jóia lançada ao mar, a bondade para com um pássaro ferido, uma palavra vã a um andarilho esfarrapado, têm, em si, um valor terrível e estão ligadas ao destino dos homens. Nada é mais típico e recorrente na ética dos contos de fadas do que a grande idéia de que nada pode ser perdido. Três navios são engolidos por uma baleia, mas sete anos depois são expelidos, com tripulação e tudo, quando um talismã é tocado ou uma palavra é proferida. Um bebê é morto e enterrado, mas de suas cinzas surge uma árvore, e cada uma das folhas chama pelo pai. Um segredo é sussurrado num buraco no chão, e dele cresce um arbusto, e do arbusto é feita uma flauta, mas a flauta só tocará as palavras do segredo. Num conto romeno extraordinariamente belo incluído nesse volume, “The Boys with the Golden Stars” [Os Meninos das Estrelas Douradas], duas crianças são assassinadas, se transformam em árvores falantes, as árvores são cortadas e transformadas em camas que falam; as camas são queimadas e se transformam em fogueiras falantes, e assim passam por todas as mudanças naturais até que se transformam novamente em bebês. Isso não seria o princípio chamado de imortalidade pela Teologia, e pela ciência, de conservação de energia? Ambas as idéias estão fundamentadas numa grande concepção, de que o mundo é governado por uma sublime parcimônia; de que não há lixeira na casa de Deus.

Essa é uma característica muito própria dos contos de fadas, a idéia da indestrutibilidade de uma essência ou de um ato. Outra característica igualmente comum e ainda mais essencial é a grande idéia que repousa no coração da estória “A Bela e a Fera” e numa centena de contos semelhantes: a idéia de que ao amar uma coisa, ela se torna bela. Os contos de fadas nos advertem, acima de tudo, para ficarmos alertas com os disfarces que as coisas possam ter, e para olhar para todo o exterior feio e repelente com esperança e divina desconfiança. Das trevas de uma época mais antiga do que a mais antiga das crônicas nos chegam estórias como “Cinderela” e “A Bela e a Fera”, um sermão contra o esnobismo que poderia ter sido pregado por William Thackeray (1818-1863).

Mas todos esses sólidos fragmentos de moralidade primitiva são secundários diante do grande espírito moral que é o próprio cerne dos contos de fadas. Tal espírito é o princípio que aparece e reaparece em milhares de estórias folclóricas, de que nada pode causar mal ao homem a menos que ele o tema. Em nenhum outro período da história da civilização, talvez, tenhamos tido tanta necessidade de evocar a ética da antiga luta entre João contra o gigante, do pequeno contra o gigantesco. Aqueles que em nossos dias expressam uma simpatia peculiar pelos fracos na luta contra os fortes, muitas vezes são acusados de excessiva aquiescência com um humanitarismo hiper-sensível, desconhecido das eras mais vigorosas do mundo. Isso é uma ilusão. A simpatia pelos fracos contra os fortes é proclamada desde a mais antiga aurora: é o próprio âmago das estórias mais selvagens com as quais temos de lidar em Antropologia. Pois, o conto de fadas é tão somente a estória do próprio homem, que é, ao mesmo tempo, a mais fraca e a mais forte das criaturas. O homem é o terceiro irmão da estória cósmica, conquistando, onde os arrogantes irmãos mais velhos, o mamute e o ictiossauro, foram à ruína. Ele é o Brer Rabbit [irmão coelho] do universo, de pé, com perspicácia e fraqueza triunfantes, por sobre o amontoado de todas as falhas de força. Um novo culto de força e coragem surgiu em nossos dias, um culto da força que consiste em ceder diante de tudo o que é forte, um culto da bravura que consiste em fugir de tudo o que é corajoso. Caso essa filosofia de força tivesse existido antes, o conto de fadas do homem jamais teria começado. O homem teria tido medo de todos os mares, caso fossem mais fortes do que os navios; teria tido medo de cada campo, caso fossem maiores do que seu arado. A força do homem originou-se do total desprezo pela força: quanto maior o dragão, mais apto a lutar, mesmo se as mandíbulas fossem como os céus e os olhos, como o sol e as estrelas.

Este artigo é protegido pelas leis de Direitos Autorais, sua reprodução é proibida sem a autorização do Centro interdisciplinar de Ética e Economia Personalista (CIEEP). A publicação do artigo no site Sociedade Chesterton Brasil foi gentilmente permitida pelo CIEEP. 

Este artigo foi publicado, pela primeira vez na edição de 12 de outubro de 1901 da revista “The Speaker”. O ensaio é uma resenha do “Violet Fairy Book” de Andrew Lang, publicado em Londres pela editora Longmans Green, em 1901.

Em língua portuguesa o artigo foi publicado originalmente, numa versão acrescida de notas da tradutora, no seguinte periódico: “The Chesterton Review (Edição Especial em Português)”, Volume I, Número 1, 2009: 6-9.

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