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A Igreja Católica e conversão – Prefácio


Pe. Demétrio Gomes

Como descreve G. K. Chesterton em sua Ortodoxia, o cristianismo é uma realidade paradoxal. Os paradoxos do cristianismo podemos encontrá-los não apenas na doutrina contida no Evangelho, mas também no próprio desenvolvimento histórico da Igreja. Pensemos, por exemplo, na figura do grão de trigo, usada por Nosso Senhor em sua pregação: “Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo, caído na terra, não morrer, fica só; se morrer, produz muito fruto” (J0 12, 14). Essa imagem catequética do grão de trigo, que realizou-se de forma eminente com a morte e ressurreição do Senhor, concretizou-se também nos primeiros séculos de expansão da Igreja. Como afirmava Tertuliano no século II com a célebre expressão “sanguis martyrum, semen christianorum”, a Igreja despontou sobremaneira ao ser regada com o sangue dos apóstolos e mártires, e assim aconteceria ao longo dos seus séculos de existência nesta terra. Com efeito, a história demonstra com abundantes dados que foram justamente nos momentos de maiores crises e perseguições – sejam de ordem física ou moral – que a Igreja produziu os mais saborosos frutos da vida cristã.

E não precisaríamos ir muito longe no tempo para percebê-lo. Um olhar lançado sobre a história recente seria suficiente para podermos tocar na realização deste paradoxo da mensagem cristã. O crescente processo de secularização, tão característico dos últimos tempos, tem marcado no mundo um contínuo translado de Deus para a margem da vida pública. A Igreja tem sido obrigada a encerrar-se na intimidade de seus muros, os cristãos são convidados a se recolherem nas sacristias, e a fé reduzida à mera subjetividade interior. Tal processo também encontra ressonância no interior mesmo da Igreja, e reflete-se em diversos sintomas estreitamente relacionados entre si, tais como a perda de sentido do sagrado, o antropocentrismo religioso, o relativismo moral, e outros sinais que tendem a diluir a Igreja nas realidades intramundanas. Porém, é precisamente em tempos difíceis como esses, diante das circunstâncias humanas menos favoráveis, que a Igreja Católica tem nos legado um rol extraordinário de novos cristãos. Desses que, à semelhança das pérolas produzidas no interior de uma ostra, são forjados nos momentos de maior adversidade. São os frutos que brotam da morte mística da Igreja. Entre esses frutos, contemplamos um despontar de uma plêiade de grandes conversos, que, contrariando o fluxo da corrente histórica, fizeram despontar, de onde se menos esperava, a força sempre atual do Evangelho.

Num mundo cada vez mais avesso à fé cristã, de manifesta aversio a Deo et conversio ad creaturas – por utilizar a clássica definição de pecado atribuída a Santo Agostinho –, a beleza tão antiga e sempre nova do catolicismo continua capaz de arrebatar aqueles que procuram a verdade com sinceridade de coração, conduzindo-os ao movimento oposto, de volta a Deus. Como aponta Chesterton, nos lugares onde a tradição é hostil ao catolicismo, ele continua infiltrando-se por seus próprios méritos, em razão da força da verdade.

Sem entrar no mérito do juízo doutrinal de suas obras, inegavelmente, nomes como os de John Henry Newman, Edith Stein, Dietrich von Hildebrand, John Ronald Reuel Tolkien, Ronald Knox, Hugh Benson, Paul Claudel, o casal Jacques e Raissa Maritain, Manuel García Morente, e tantos outros, por mencionar apenas os últimos séculos, somam-se ao nosso autor como exemplos de que, se por um lado a Igreja diminui em número e presença institucional nos espaços públicos, por outro, ela continua a florescer esplendidamente em qualidade intelectual, moral e espiritual. E é aqui – não nos dados estatísticos – que se mede sua verdadeira força.

A conversão ao catolicismo de nomes com a envergadura intelectual de autores como Gilbert Keith Chesterton é um fenômeno que deveria reclamar maior atenção não só daqueles que sinceramente estão à busca da verdade, mas também das pessoas que, tendo percorrido os mais variados caminhos, já se encontram na Igreja Católica. O conhecimento do itinerário de conversão desses grandes homens pode ajudar a questionar-nos acerca das razões de nossa esperança (cf. 1 Pe 3,15), e a fundamentar com maior solidez os alicerces de nossa fé. Um converso, consciente do caminho por ele percorrido, dificilmente abandona a fé nos momentos de crise, e por isso tem tanto a ensinar-nos nesses tempos nos quais a fé e os compromissos se tornaram realidades tão voláteis e transitórias, que variam conforme a conveniência.

Os conversos também são poderosos antídotos contra a terrível tendência que possuímos de nos acostumar com o extraordinário, de perder a capacidade de admiração ante o real e de ceder à tentação da inércia e da mediocridade. Eles percebem a novidade da fé, quando para nós tudo é monotonia, admiram-se diante daquilo que nos acostumamos, deslocam-nos e abrem um caminho com seu testemunho, apontando-nos sólidos motivos para crer, e nos ajudam a não ver as coisas de sempre como sempre as vemos.

A Igreja Católica e conversão é uma obra relativamente curta, escrita por Chesterton em 1927, portanto, cinco anos após sua conversão ao catolicismo. Nesta obra o autor aborda o itinerário intelectual que o conduziu à fé católica, explicando o modo como sua razão e circunstâncias de sua vida o aproximaram da Igreja de Roma. Alguns dos temas aqui abordados reaparecerão em publicações posteriores, tais como The Thing (1929), The Well and the Shallows (1935) – seu último livro que Chesterton viu publicado –, e a sua Autobiografia (1936), publicada postumamente.

Como “todos os caminhos levam à Roma”, a conversão é um processo personalíssimo, no qual entram em jogo as vicissitudes históricas de cada indivíduo e a primazia da misteriosa ação da graça de Deus no mais profundo da alma. No próprio processo de conversão de Chesterton concorreram, sem dúvida, diversas situações muito particulares, tais como a influência de sua esposa Frances Blogg (que o ajudou sobretudo na sua conversão do agnosticismo ao anglicanismo) e dos amigos – todos eles conversos do anglicanismo – Pe. Ronald Knox, Pe. John O’Connor (em quem Chesterton encontrou inspiração para construir o personagem do Pe. Brown) e Maurice Baring, a morte do seu irmão mais jovem Cecil (1918), bem como sua sensibilidade de consciência frente ao pecado e a noção católica da absolvição (quando lhe perguntavam por que se tornou católico, Chesterton costumava responder laconicamente: “To get rid of my sins”). Embora Chesterton reconhecesse que a conversão se refere, portanto, a um fenômeno único e irrepetível – “a Igreja é uma casa com cem portões; e ninguém entra nela pelo mesmo ângulo exato em que outra pessoa entrou” –, considerou também que muitos conversos podem passar por um processo semelhante ao que ele descreve nesta obra que o leitor tem em mãos, processo este que contempla três estágios.

O primeiro passo em direção à Igreja Católica implica um esforço por olhar para ela com justiça. Neste estágio de “condescendência para com a Igreja”, o indivíduo percebe que, mesmo sem chegar a considerar a Igreja Católica como verdadeira, verifica que as críticas dos seus acusadores, sejam quais forem os seus motivos, são surpreendentemente imprecisas, não se sustentam. O grande problema para um converso, portanto, não está na propaganda anticatólica comum, vinda de fora, mas no contratestemunho que pode advir do interior da própria Igreja: “No que diz respeito ao convertido, devemos lembrar que uma palavra impensada vinda de dentro faz mais estrago que cem mil palavras impensadas vindas de fora. […] Há muitos convertidos que chegaram a um ponto em que nenhuma palavra de nenhum protestante ou pagão pode fazê-lo recuar. Apenas a palavra de um Católico pode afastá-lo do Catolicismo”.

O segundo estágio da conversão é aquele que Chesterton chama de “descobrir da Igreja Católica”, segundo ele, a parte mais fácil do caminho. Esta etapa está marcada pelo encantamento experimentado quando se começa a conhecer, já sem os preconceitos provenientes da crítica rasa, os ensinamentos da doutrina católica: “o convertido começa a se dar conta não só das falsidades mas da verdade, e fica tremendamente empolgado por descobrir ali bem mais do que ele esperava”, passa por uma tentativa inconsciente de conversão.

O último estágio é para Chesterton o mais “terrível”. É o estágio da fuga. Nele o indivíduo tenta não se converter, “já não tem medo de descobrir a Igreja, mas teme que a Igreja o descubra”, pois entre conhecer a verdade e deixar-se ser transformado por ela “existe um abismo que contém todas as forças insondáveis do universo”. Como não recordar aqui dos conflitos narrados por  Santo Agostinho em suas Confissões, travados para abraçar definitivamente a fé católica?

Além de constituir um testemunho pessoal que ilumina o caminho dos que buscam com sinceridade a verdade, e um antídoto para os católicos contra a tentação da inércia e da mediocridade, estas páginas do “príncipe dos paradoxos” ajudam os filhos da Igreja a repensar os caminhos de evangelização. Como confirmam as fracassadas experiências – velhas e atuais –, não é à força de adaptá-la aos moldes do mundo que Igreja se tornará mais atraente aos homens de cada tempo. Estes, consciente ou inconscientemente, desejam encontrar nela o que não encontrarão em nenhum outro lugar. Para a Igreja continuar a manifestar ao longo dos séculos o poder de atração do Evangelho, ela não precisa de concessões contemporâneas ou propagandas artificiais. Basta com que ela seja o que é e sempre foi: um sinal de contradição!