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Alquimista do Acre? Parece um caso para o Padre Brown!

Alquimista do Acre? Parece um caso para o Padre Brown!

O padre detetive vai até o exótico Brasil lidar com esse mistério. Uma fanfic chestertoniana.

Opequeno e excêntrico padre de Londres acaba de chegar ao aeroporto de Rio Branco. Padre Brown deixou sua paróquia em rápidas férias pastorais para encontrar seu amigo, o missionário padre Wilson, que vive na floresta amazônica. Com ele, seu amigo ex-gatuno e atual detetive Flambeau aproveitou para vir conhecer a selva amazônica:

— Sabe, padre, ouvi dizer que o Acre é tido por terra exótica mesmo pela maioria dos brasileiros — disse Flambeau.

— Nós frequentemente consideramos exótico o ordinário longe de nós, Flambeau — respondeu o padre — Vemos os irlandeses como alegres salteadores por serem pessoas comuns que vivem longe de nós, e ignoramos muitas de nossas próprias esquisitices. Não creio que essa regra universal seja deixada de lado pelo brasileiro.

— Parece que não é só isso que é uma regra universal, padre — disse Flambeau, pegando um jornal deixado no banco do aeroporto — Me parece que todos gostam de um pouco de mistério. Veja a capa dessa matéria.

Foto da primeira página do jornal pego por Flambeau

— Este aí não é Giordano Bruno? — perguntou o padre.

— O próprio. Se meu português não estiver muito enferrujado, parece que esta estátua aqui foi encontrada no quarto de um jovem desaparecido. Curioso, não?

— Vejo que já estão se familiarizando com a cultura local, não é? — interrompeu a voz irônica do padre Wilson.

— Ah! Padre Wilson! Obrigado por nos receber, velho amigo — cumprimentou Padre Brown — Este é Flambeau, um bom amigo investigador.

— Espere, Flambeau? Esse nome não me é estranho. Não tinha um criminoso…

— É francês. Talvez seja a pronúncia — interrompeu Flambeau, um pouco impaciente para aquilo.

— Deve estar confundindo-o com outra pessoa — disse Padre Brown, acobertando Flambeau — ; pode nos ajudar com as malas?

E deixaram o aeroporto.


No carro do padre Wilson, um tanto quente pelo clima tropical de Rio Branco, os três conversavam:

— Mas me diga, Wilson, o que foi esse desaparecimento tão, digamos… literário? — perguntou Padre Brown. “E lá vamos nós”, pensou Flambeau, sem dizer nada.

— Bem, Brown, um jovem saiu de casa há uma semana e não retornou. Nada disso, segundo li nos jornais, é considerado desaparecimento, de fato. Mas a questão é que ele deixou catorze livros, escritos à mão, todos criptografados. Espalhadas pelas paredes do seu quarto, todas as páginas; bem no centro, a estátua do Giordano Bruno. Você já pode imaginar o estardalhaço que isso gerou, não? Principalmente na internet.

— Qual era, exatamente, o conteúdo dos livros? Já descobriram? — perguntou o padre Brown.

— Não se sabe. O delegado disse que não é tão relevante para a investigação.

— Mas como não? Se isso não for, o que mais seria? — o padre falava com certo tom de indignação.

— Bem, meu amigo — padre Wilson parecia um pouco sem jeito — só estou repassando o que o delegado disse para os jornais. Mas se estiver tão curioso a respeito, eu calho de conhecer o homem. Ele é ministro da eucaristia e me ajuda em algumas comunidades.

— Ah, seria uma oportunidade adorável — disse o padre, com um sorriso satisfeito.

“Ele não perde uma oportunidade, não é?”, pensou Flambeau, enquanto padre Wilson os conduzia até o delegado.


O sacerdote, o investigador e o sacerdote-investigador foram informados na delegacia de que o delegado José, responsável pela investigação, estava visitando a casa do desaparecido. Pároco que era, padre Wilson disse que precisava, e urgentemente, conversar com ele sobre “as santas missões populares” — algo que não era mentira, logo não houve pecado ali — e convenceu o policial a lhe dar o endereço do local.

Chegando à casa, os sacerdotes e Flambeau ignoram solenemente o cordão de isolamento. Lá dentro, topam no delegado José que estava a tomar algumas notas dentro do quarto do rapaz foragido. Surpreso com a presença do padre Wilson, diz:

— Sua benção, padre. O que traz o senhor até aqui? — na voz, uma nota de desconfiança.

— Mas, oras, será que um pastor não pode pastorear suas ovelhas durante o trabalho? — respondeu Wilson, com um sorriso.

— Fico feliz com o cuidado, mas… quem são esses outros dois?

— Ah, dois amigos que vieram nos visitar. Reforços para as missões. Por falar nisso, de noite temos reunião do conselho paroquial.

Enquanto Padre Wilson distraía seu paroquiano, eis que Brown já se havia esgueirado, junto com Flambeau, para dar atenção à criptografia do rapaz pelas paredes. Todo compenetrado, olhos apertados:

— Flambeau, esses caracteres me são estranhamente familiares… Parecem algum código maçônico.

— Estão dizendo no Twitter que ele usou o “código dos escoteiros mirins”, dos quadrinhos do Tio Patinhas — respondeu Flambeau, mostrando o celular.

— Estão dizendo onde? — perguntou o padre

— No Twitter.

— Twitter? É algum noticiário brasileiro?

— Onde o senhor esteve nos últimos 10 anos? — disse Flambeau, sem acreditar.

— É difícil combater o mundo e acompanhá-lo ao mesmo tempo, sabia?

— Você devia ter algumas aulas com o Papa — respondeu Flambeau.

— Você com certeza já sabe, mas o Papa não vê televisão há décadas — rebateu o Padre Brown.

— Em todo o caso, sabemos ler essas mensagens — disse Flambeau, sem querer aflorar o papismo de Brown.

— Então, se eu conseguisse apenas uma pequena amostra dos livros… — disse, enquanto cravava em Flambeau os olhos brilhosos por detrás das lentes de seu óculos.

Flambeau sabia do que se tratava. Habilidoso, deslizou pelo quarto (pois o delegado ainda estava distraído conversando burocracias paroquiais com o padre Wilson) e meteu nos bolsos de seu sobretudo três grandes bolos de papel criptografado presos por clipes e grampos — provavelmente, três livros do rapaz.

Enquanto isso, padre Brown resolveu usar Wilson de tradutor simultâneo:

— Wilson, sem querer ser rude, mas você pode fazer algumas perguntas? O que o delegado sabe sobre o caso? Diga-lhe que me interesso pelo ocultismo — novamente, não era mentira.


— Então o rapaz era um jovem universitário de 24 anos, que cursa psicologia. Disse para seus pais que estava em um grande projeto, e precisava de dinheiro, mas não quis dizer mais sobre. Segundo a família, passou os últimos anos deixando o quarto absolutamente trancado — Flambeau repassava as informações enquanto Brown lia em sua mesa a escrita criptografada. Estavam na casa paroquial de Wilson.

— Eu não entendo como eles podem ignorar a relevância dos escritos para a investigação — disse Brown.

— O que está escrito aí?

— Apenas bobagens sobre a chave do conhecimento absoluto, a lei da troca equivalente, e o suposto templo das sombras, que refugia os que buscam o poder. Ou algo assim.

— E qual a relevância disso, padre? — Flambeau não entendia qual era o ponto.

— Do texto em si, nenhuma. Mas a dedicação desse jovem, por anos, com esse monte de bobagens… isso não pode ser desprezado. Esse trabalho tem sido a vida do jovem. O que será que ele buscava?

— Bom, no Facebook estão suspeitando que tudo isso é um grande golpe de marketing.

— Facebook?

— Não é possível que você não tenha entendido!

— Minha pouca familiaridade com a internet não vem ao caso agora, Flambeau. O que eles estão comentando? Seria um golpe de marketing?

— Alguns seguidores do rapaz nas redes sociais achavam curiosa a semelhança dele com o mártir da ciência.

— “Mártir da ciência”? Não deve estar falando de Giordano Bruno, imagino — padre Brown parecia indignado.

— A Igreja não o mandou para a fogueira por causa de sua pesquisa astronômica?

— A Inquisição o julgou, sim, mas por ser um herege, e aliás muito pouco científico. Além disso, a Pena Capital era algo que apenas o poder secular podia executar. Suas grandes “teorias científicas” envolviam, por exemplo, a reencarnação de almas humanas em plantas e animais. Mas seu problema foi a heresia. Você sabia que ele morou em Genebra e foi excomungado pelos calvinistas e na Alemanha também foi enxotado pelos luteranos?

— Parece ser uma pessoa muito querida! Quantos amigos!

— Talvez nosso jovem no fundo só queira isso — padre Brown pareceu falar sozinho, por um instante.

— Do que está falando, padre?

— Sabe, Flambeau — disse, ficando de pé — talvez no início fosse tudo um pouco de vaidade, ou marketing pessoal, como dizem hoje. Mas sabe que frequentemente começamos a acreditar naquilo que pregamos. “Quem não vive o que prega termina pregando o que vive”, diz a sabedoria cristã.

— Então você sugere que ele realmente acredite ter poderes alquímicos?

— Segundo o delegado, parece que o escultor da estátua defendeu que ele seria a reencarnação de Giordano Bruno. No Brasil, tanto quanto na Inglaterra, esse tipo de coisa atrai uma certa popularidade, não? E quando vivemos uma fantasia que nos traz fama daí é um pulo para começarmos a desejar que ela fosse verdade. E é muito fácil a razão justificar o que a vontade quer, ensina Santo Tomás.

— Mas, padre, sendo assim, por que ele sumiu? Por que não começar um culto? Hoje se faz muito com um canal no Youtube — perguntou Flambeau.

— Canal onde?

— APENAS PROSSIGA.

— Bem, eu acredito que o jovem, seduzido como estava pela fantasia, pode ter tentado um ritual. Quem sabe uma iniciação. Talvez tenha tentado buscar a chave do conhecimento absoluto ou algo do tipo. E não a encontrou. Porque é tudo um grande delírio. Sem saber o que fazer, sem saber lidar com a realidade que o contrariou, foi buscar refúgio.

— Onde?

— No templo das sombras, ora bolas. O “lugar de refúgio daqueles que buscam o poder”, como ele escreveu.


— Encontraram o rapaz, vocês viram?! — padre Wilson, esbaforido, interrompeu o jantar e já foi ligando a tevê no jornal local.

A matéria dizia que o rapaz, surtado, havia buscado refúgio no DCE da Universidade, e fora acolhido e acobertado por colegas do Centro Acadêmico de Psicologia.

“Ele é a reencarnação de Giordano Bruno e veio inaugurar uma nova era, acabando com os paradigmas da nossa sociedade obscurantista”, disse a diretora do Centro Acadêmico, protestando contra a condução policial do rapaz.

— Mas que loucura — exclamou padre Wilson

— Quando não adoramos a Deus — disse padre Brown — , adoramos a qualquer outra coisa. Ao expulsarmos Deus de nossas universidades, transformamos aquilo numa fábrica de ídolos.

— Mas o ídolo da faculdade não deveria ser a Razão? Aparentemente aqueles universitários acreditam no delírio do seu amigo — disse Flambeau.

— Um abismo atrai outro abismo, Flambeau — respondeu Padre Brown — você começa adorando a Razão e termina adorando o próprio umbigo. E quando isso se torna institucional, bem… até a universidade vira um templo de trevas.

— Bem, mas chega desse caso. Que Deus ajude esse pobre rapaz. — disse padre Wilson.

— E qual a programação para amanhã, meu amigo? — perguntou padre Brown.

— Amanhã vamos fazer uma excursão para a floresta amazônica. É um bioma muito rico, estão dizendo.

— Bioma?

— Acho que há algumas diferenças pastorais entre nossos bispos, padre.

www.sociedadechestertonbrasil.org


Infelizmente só dois dos cinco volumes de histórias do Padre Brown foram publicados no Brasil, e hoje dificilmente se encontra esses livros.

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