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Apreciar Milton

Apreciar Milton

G. K. Chesterton

 * 1874 / + 1936
Traduzido do inglês por Márcia Xavier de Brito 

De todos os poetas, John Milton (1608-1674) é o mais difícil de elogiar com verdadeira delicadeza e sinceridade de exposição. De todos os poetas, Milton é o mais fácil de enaltecer com fraseologia simples e reverência convencional. Há uma coisa em John Milton que, geralmente, deve ser observada — a de que é um gosto maduro, um gosto que cresce aos poucos. William Shakespeare (1564-1616) é, realmente, para todas as épocas, para todas as “sete idades do homem”. Gostava de Shakespeare quando era arrastado a contragosto para a escola e gosto dele agora, quando posso muito bem ser descrito como um recurvado velho bobo de chinelos. Não quero dizer que quando criança gostava simplesmente das estórias românticas; era-me cara a sua poesia, em especial, quando totalmente ininteligível. O ritmo claro e vibrante parecia falar francamente mesmo quando não a compreendia. As imensas figuras heráldicas vermelhas e douradas eram óbvias, embora não as pudesse compreender. Membros de minha família que colecionam coincidências asseguraram-me de que era muito pequeno quando corria pela rua, dava com o nariz no chão e, no mesmo momento, dizia os seguintes versos: “Não prossigas assim, de olhos caídos, / A procurar teu nobre pai na poeira” (“Hamlet”, Ato I, Cena II). E versos como: “Para o luar de novo visitares” (“Hamlet”, Ato I, Cena IV) ou como “um Hércules, / nas árvores trepando das Hespérides” (“Trabalhos de Amor Perdidos”, Ato IV, Cena III), não só eram boa poesia, como boas imagens infantis assim como a “vaca que saltou sobre a lua” ou os vários arenques defumados crescem no bosque [1].Mas Milton, em sua melhor forma, não significa absolutamente nada para a infância. Isso não quer dizer que as crianças não possam gostar de Milton; crianças podem gostar do livro de endereços do correio. Faz parte do reino dos céus desfrutar de coisas sem compreendê-las, mas afirmo que as crianças não podem apreciar o miltonismo de Milton, aquilo que ninguém, a não ser o próprio Milton, faz. Um menino não aprecia o estilo maravilhoso e contido, que, como um cavalo de guerra muito bem domado faz até cabriolas e dá meias-voltas, mais por restrição que por ímpeto. Um menino não sente o enlevo desses grandes versos, como a grande águia ao deixar o ninho: “Decidido a galgar com vôo inteiro / Muito por cima da montanha Aônia” (“Paraíso Perdido”, Livro I, versos 14-15).

Creio que grande parte do problema que as inteligências comuns têm ao apreciar Milton (ou, melhor, do problema de Milton em agradar as inteligências comuns, pois lembrem-se, por favor, que a mentalidade popular é muito mais importante que Milton) está no erro de Milton sempre ser descrito como um escritor simples e clássico. Na verdade, foi um escritor altamente complexo e, de certa maneira, demasiado moderno. O que é perfeitamente clássico pode ser compreendido por qualquer pessoa. Nenhuma diarista diria que a estória de Ulisses voltando em farrapos para a mulher que lhe fora fiel não é comovente. Nenhum criador de cães seria indiferente à morte de Argos [2]. Nenhum homem do povo diria, conscientemente, que a Vênus de Milo não era uma bela mulher.

É a arte distorcida e de segunda linha que realmente perde, de repente, a aprovação das pessoas. A diarista não conseguiria enxergar a peculiar compaixão do sr. Robert Elsmere [3], que queria ser, ao mesmo tempo, sacerdote e agnóstico. O criador de cães seria, com razão, indiferente à retórica dos vários modernos apaixonados por animais que não conseguem tomar conta de um cão por um dia. E o homem do povo não admitirá que as mulheres de Aubrey Beardsley (1872-1898) [4] são belas mulheres, porque não são. O gosto do homem do povo é clássico.

E se Milton fosse realmente tão direto quanto Homero ou os mármores de Elgin [5], seria, na prática, absurdamente popular. O verdadeiro motivo de não poder ter tido uma glória tão vasta quanto sua profundidade e excelência foi trazer em si algo do individualista moderno, algo do cismático social. Tinha aquela ambição estranha e má do artista moderno, queria “pensar por si mesmo”. Mas Dante Alighieri (1265-1321) e Charles Dickens (1812-1870) queriam pensar pelos outros também.

Milton fica entre a sociedade demasiado social em que Dante viveu e a sociedade demasiado social que Dickens sempre desejou e, ocasionalmente, experimentou naquele isolamento melindroso que pertence à arte de nossa época e que pertencia à religião de seu tempo. Milton é o individualista do século XVII. Milton é o perfeito calvinista: o homem inteiramente só com seu Deus. Milton é, também, o perfeito artista: o homem inteiramente só com sua arte. Talvez nenhum homem jamais tenha tido tal poder sobre a própria arte desde a criação das belas-artes. Contudo, ainda há algo que faz com que nos ocupemos, ao pé do fogo, dos “The Pickwick Papers”, e quem sabe, também, ao pé do fogo do “Purgatório”.

Notas da Tradutora:
[1] As duas imagens infantis citadas por G. K. Chesterton aparecem nos tradicionais versos infantis ingleses da “Mamãe Ganso”. Com relação a imagem um tanto estranha de “arenques defumados no bosque”, vale lembrar que era prática arrastar arenques defumados amarrados em linhas pelos bosques para treinar os cães de caça.

[2] Cão fiel de Ulisses na Odisseia que espera o retorno do dono por vinte anos. Argos, já fraco e velho, assim que reconhece Ulisses disfarçado, só tem forças para abanar a cauda e logo morre.
[3] Personagem principal do romance “Robert Elsmere” da Sra. Mary Augusta Humphry Ward (1851-1920), filha do educador Tom Arnold (1823-1900) e sobrinha do poeta Matthew Arnold (1822-1888). Publicado em 1888, o romance foi um best-seller da era vitoriana, com mais de um milhão de cópias vendidas, e retratava a crise de fé de um clérigo anglicano que passa a questionar a ortodoxia após a leitura de filósofos alemães como Friedrich Schelling (1775-1854) e decide construir uma espécie de “liberalismo construtivo”, apartando as questões morais da fé.
[4] Aubrey Beardsley (1872-1898) foi um importante ilustrador inglês cujo estilo muito influenciou a “art nouveau”. Um bom exemplo de sua arte são as ilustrações que fez para a versão impressa da peça “Salomé” de Oscar Wilde (1854-1900).
[5] Grande coleção de mármores gregos levada para a Inglaterra por, Thomas Bruce (1776-1841), o Lorde Elgin, em 1806. As esculturas encontram-se até hoje no Museu Britânico em Londres.
O presente ensaio foi publicado originalmente em 1908 do periódico “Daily News”. O texto foi traduzido apartir da seguinte edição: CHESTERTON, G. K. “The Taste for Milton”. In: “A Handful of Authors: Essays on Books & Writers”. (Edited by Dorothy Collins). New York: Sheed and Ward, 1953. pp. 75-77.

Este artigo é protegido pelas leis de Direitos Autorais, sua reprodução é proibida sem a autorização do Centro interdisciplinar de Ética e Economia Personalista (CIEEP). A publicação do artigo no site Chesterton Brasil foi gentilmente permitida pelo CIEEP.

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