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As lições do Padre Brown

As lições do Padre Brown

Chesterton é uma montanha de sabedoria. E a obra do Padre Brown possui uma sabedoria toda peculiar. As aventuras do “padreco” mostram um protagonista aparentemente tolo e distraído, mas ao solucionar os crimes mais escabrosos, temos um verdadeiro estudo sobre a alma humana, suas paixões desordenadas e as loucuras do mundo moderno.

Há um enorme aprendizado que se pode tirar das mais de 50 histórias do Padre Brown, mas separamos aqui algumas das principais.

Todo criminoso pode ser salvo

Por maior que seja no ofício investigativo, Padre Brown é um sacerdote. Sua vocação é essa, e a todo momento ele pensa e age como um. Por isso, mais importante do que punir judicialmente os criminosos, o padre quer que eles se arrependam e confessem seus pecados. Algumas vezes até deixando um pouco de lado a lei dos homens.

O melhor exemplo disso é Flambeau. Aparece no início como criminoso, e um grande criminoso, uma espécie de antagonista. Depois se torna, ele mesmo, um detetive. Depois ainda terá idas e vindas com o padre, sendo seu “braço direito”. Tudo isso para terminar como… bem, sem mais spoilers.

A ciência é limitada

Em várias dessas histórias, fica nítido aquilo que Chesterton defendeu em Ortodoxia:

“O verdadeiro problema com este nosso mundo não é que se trata de um mundo sem razão, nem tampouco de um mundo razoável. O tipo mais comum de problema é que se trata de um mundo quase razoável, mas não totalmente.”

O cientificismo (essa ideologia tão combatida por Chesterton) acredita que tudo pode ser mensurado, experimentado, provado pela ciência. Sherlock Holmes, com seu método científico rigoroso e lógica implacável nas investigações é o modelo de herói cientificista.

Mas a realidade não cabe inteira em um método. E isso é uma verdade deixada de lado na modernidade.

Nos crimes que Padre Brown investiga, vemos casos onde a lógica pura e a ciência são capazes de tudo, menos acertar. Em A Sabedoria do Padre Brown, até mesmo o moderno detector de mentiras falha onde triunfa a sabedoria do médico das almas.

No fim, o que importa é conhecer a alma humana.

O descrente é muito crédulo

Conhece a famosa citação de Chesterton: “Quando se deixa de acreditar em Deus, passa-se a acreditar em qualquer coisa”? Pois então, na verdade ela foi colocada na boca do sacerdote detetive em A Incredulidade do Padre Brown.

Nesse que é o terceiro volume da saga vemos o maior número de casos aparentemente sem explicações. Assassinatos por fantasmas, ou espíritos malignos, ou maldições, etc. Curiosamente, é justo o padre quem está menos inclinado a acreditar nas soluções sobrenaturais para os acontecimentos.

O motivo é bem simples, como ele mesmo diz: “Se quero um milagre, sei onde procurá-lo”.  Mais do que crer no sobrenatural, Padre Brown possui um credo. E esse credo é razoável, o que faz com que ele desenvolva um saudável ceticismo (que às vezes falta ao cético) nas coisas que merecem desconfiança.

O culpado é você

Quando Padre Brown revela o segredo para seu sucesso em solucionar os crimes mais absurdos e improváveis, diz categoricamente:

“Veja bem, fui que matei essas pessoas.”

O sacerdote, tão acostumado a ouvir confissões das mais sinistras, conhece os cantos escuros da alma humana.

Padre Brown é capaz de fazer o trajeto de todos esses pecados no próprio coração. É um homem que também se confessa, e que examina constantemente a própria consciência. Logo, sabe que é capaz de cometer esses crimes. E por isso, sabe como age o coração dos criminosos – e se coloca no lugar deles, coisa que Sherlock Holmes não seria capaz.

“Você pode achar um crime horrível porque não seria capaz de cometê-lo. Eu o acho horrível porque eu seria.”

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