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As superstições do protestante

Gilbert Keith Chesterton

Traduzido por Antonio Emilio Angueth de Araujo

Capítulo do livro The Thing (A Coisa), publicado em 1929

Publicação autorizada pelo Blog do Angueth

Aquele delicioso jogo de adivinhação, que tem há muito tempo causado uma alegria inocente em tantas famílias católicas, o jogo de adivinhar em qual linha de um artigo sobre, por exemplo, paisagem ou Elegia Latina, flagraremos o deão da Catedral de São Paulo[1] apresentando o antídoto ao Anti-Cristo; ou a trama papal revelada – este que é o mais familiar de nossos jogos católicos de salão me entreteve como um tipo de substituto das palavras cruzadas, quando achei que tinha encontrado um feliz exemplo. Escrevi acima sobre “famílias católicas”, mas quase escrevi, por força de associações, “lareiras católicas”. Imagino que o deão realmente pensa que, mesmo com este clima, matemos os fogos domésticos acesos, como o fogo de Vesta, em permanente expectativa de reascender os fogos de Smithfield. Seja como for, esse tipo de jogo de adivinhação ou palavra cruzada é raramente decepcionante. O deão já deve então ter tentado centenas de formas de chegar a seu adorado assunto; e mesmo ocultá-lo, como um canhão disfarçado, até que ele lance o bombardeio numa perfeita explosão de mau humor. Então as palavras cruzadas não são mais um quebra-cabeça, embora as palavras sejam suficientemente apropriadas; especialmente aquelas devotadas o grande processo histórico de desfazer a Cruz.

No caso desse artigo particular, foi somente próximo ao seu final que o assunto real saltou sobre o leitor numa emboscada. Acho que era um artigo geral sobre superstição; e, sendo um artigo jornalístico de um tipo moderno, era claramente devotado a discutir superstição sem defini-la. Num artigo inteligente desse tipo, pareceu suficiente ao escritor sugerir que superstição é algo que ele não gosta. Algumas coisas são também do tipo que eu não gosto. Mas tal escritor não é razoável nem quando está certo. Um homem deve ter uma objeção algo mais filosófica a histórias de má sorte do que chamá-las de credulidade; tanto quanto um homem deve ter uma objeção mais filosófica à Missa do que chamá-la de magia. Dificilmente seria uma refutação aos espiritualistas provar que eles acreditam em espíritos; ou uma refutação aos deístas provar que eles acreditam numa divindade. Credo, crença e credulidade são palavras de mesma origem e podem ser, de muitas formas, jogadas para lá e para cá. Mas quando um homem supõe a absurdidade em algo que todos os outros acreditam, desejamos, em primeiro lugar, saber em que ele acredita; em que princípio ele acredita; e, acima de tudo, em que princípio ele não acredita. Não há traço de algo parecido com isso na peça de jornalismo metafísico do deão. Se ele tivesse parado para definir seus termos, ou, em outras palavras, para nos dizer de que falava, tal análise abstrata teria preenchido algum espaço no artigo. Talvez não sobrasse espaço para todo o alarido contra o Papa.

O deão da Catedral de São Paulo pôs a mão na massa num parágrafo na segunda metade de seu artigo, em que ele revela aos seus leitores todos os horrores de uma citação de Newman; uma passagem muito chocante e vergonhosa em que o apóstata degradado diz que está feliz com sua religião e em estar cercado pelas coisas de sua religião; que aprecia ter objetos que tenham sido abençoados pelos santos e bem-aventurados, que há um sentido em ser protegido por orações, sacramentais, etc.; e que a felicidade de tal tipo satisfaz a alma. O deão, tendo nos dado este apavorante relance da condição espiritual do cardeal, fechou a cortina com um grunhido e diz que isso é paganismo. Que diferença da ortodoxia cristã de Plotino!

É exatamente esse pequeno relance que me interessa; não tanto um relance da alma do cardeal, mas da mente do deão. Pereceu-me repentinamente que vejo, numa forma muito mais simples que anteriormente, a real questão entre ele e nós. E a coisa curiosa sobre a questão é esta: que o que ele pensa sobre nós é exatamente o que pensamos sobre ele. O que eu, por exemplo, sinto mais intensamente, na consideração de um caso como o do deão e sua citação do cardeal, é que o deão é um homem ilustre, inteligente e culto, sempre interessante, algumas vezes justo, ou pelo menos justificado ou justificável; mas que ele é antes de tudo defensor de uma superstição, como esta seria compreendida por alguém que a pudesse definir. O que a faz ainda mais divertida é que ela é, num sentido assaz especial, uma superstição pagã. Mas o que a faz intensamente interessante, pelo menos para mim, é que o deão é devotado ao que pode ser chamado, por excelência, de uma supersticiosa superstição. Quero dizer que ela é, num sentido especial, uma superstição LOCAL.

O deão Inge é uma pessoa supersticiosa porque está adorando uma relíquia; uma relíquia no sentido de uma coisa remanescente. Ele está idolatricamente adorando o fragmento de algo; simplesmente porque aquele algo casualmente sobreviveu num lugar chamado Inglaterra; numa forma assaz surrada chamada protestantismo cristão. É como se um patriota local venerasse a estátua de Nossa Senhora de Walsingham somente porque ela estivesse em Walsingham e sem nem mesmo lembrar que ela está no Paraíso. É ainda mais como se ele venerasse um fragmento lascado do dedo da estátua e esquecesse de onde ele tinha vindo e ignorasse completamente a Nossa Senhora. Não penso que seja supersticioso respeitar a lasca em relação à estátua, ou a estátua em relação ao santo, ou o santo em relação ao esquema da teologia e filosofia. Mas penso ser supersticioso venerar, ou mesmo aceitar, o fragmento porque ele casualmente está lá. E o deão Inge aceita o fragmento chamado protestantismo porque ele casualmente está lá.

Consideremos, por um momento, toda a questão, como fazem os filósofos; envoltos num ar universal acima de todas as superstições locais como a do deão. É óbvio que há três ou quatro filosofias ou cosmovisões possíveis aos homens razoáveis; e, em grande parte, elas estão incorporadas nas grandes religiões ou no amplo campo da irreligião. Há o ateu, o materialista ou monista ou qualquer nome que ele se dê, que acredita que tudo é, em última análise, material, e tudo que é material é mecânico. Esta é enfaticamente uma cosmovisão; não muito brilhante ou animadora, mas é uma em que é possível encaixar muitos fatos da existência. Então há o homem normal com sua religião natural, que aceita a idéia geral de que o mundo tem um projeto e portanto um projetista; mas sente que o Arquiteto do universo é inescrutável e remoto, tão remoto em relação ao homem quanto o é em relação ao micróbio. Esse tipo de teísmo é perfeitamente são; e é realmente a antiga base da sólida e algo estagnada sanidade do Islã. Há ainda o homem que sente o peso da vida tão amargamente que deseja renunciar a todo desejo e toda divisão e restituir um tipo de unidade e paz espiritual da qual nossos eus individuais nunca deveriam ter se separado. Esse é o temperamento ao qual o budismo, e muitos místicos e metafísicos, responde. Então há um quarto tipo de homem, algumas vezes chamado místico, que talvez devesse ser chamado mais propriamente de poeta; na prática ele pode muito freqüentemente ser chamado de pagão. Sua posição é esta: este é um mundo crepuscular e não sabemos quando ele termina. Se não sabemos o suficiente para abraçarmos o monoteísmo, muito menos o sabemos para abraçarmos o monismo. Pode haver um mundo além; mas podemos apenas perceber algumas pistas dele; podemos nos deparar com uma ninfa na floresta; podemos ver fadas nas montanhas. Não sabemos o suficiente sobre o natural para NEGAR o preternatural. Esse foi, nos tempos antigos, o mais saudável aspecto do paganismo. Esse é, nos tempos modernos, a parte racional do espiritualismo. Todas essas são possíveis como visões gerais da vida; e há uma quarta que é, pelo menos, igualmente possível, embora certamente mais positiva.

Toda a questão dessa última posição pode ser expressa no verso de um belo poema de M. Cammaerts sobre jacintos; LE CIEL EST TOMBE PAR TERRE. O Céu desceu ao mundo da matéria; o poder espiritual supremo está agora operando através da máquina da matéria, ocupando-se milagrosamente com os corpos e almas dos homens. Ele abençoa todos os cinco sentidos; tal como os sentidos do bebê são abençoados pelo batismo católico. Ele abençoa até mesmo os presentes e as lembranças, como relíquias e rosários. Ele opera através da água e do óleo, ou do pão e do vinho. Ora, esse tipo de materialismo místico pode agradar ou não o deão, ou qualquer outra pessoa. Mas não posso de forma alguma entender porque o deão, ou qualquer outra pessoa, não VÊ que a Encarnação é tão parte dessa idéia quanto a Missa; e que a Missa é tão parte dessa idéia quando a Encarnação. Um puritano pode considerar blasfêmia que Deus possa se tornar uma hóstia. Um muçulmano pode considerar blasfêmia que Deus possa se transformar num trabalhador na Galiléia. E ele está perfeitamente certo, de seu ponto de vista; e dado seu princípio primário. Mas se o muçulmano tem um princípio, o protestante tem apenas um preconceito. Isto é, ele tem somente um fragmento; uma relíquia, uma superstição. Caso seja profano que o miraculoso deva descer ao plano da matéria, então o catolicismo é certamente profano; e o protestantismo é profano; e o cristianismo é profano. De todos os credos e conceitos humanos, nesse sentido, o cristianismo é o mais completamente profano. Mas porque um homem deveria aceitar um Criador que era um carpinteiro e então se preocupar com a água benta, porque ele deveria aceitar uma tradição protestante local de que Deus nasceu em algum lugar particular mencionado na Bíblia, meramente porque a Bíblia foi deixada em algum lugar na Inglaterra, e então dizer que não se pode acreditar que uma benção possa permanecer nos ossos de um santo, porque ele deve aceitar a primeira e mais estupenda parte da história do Céu descendo sobre a Terra e então furiosamente negar algumas poucas e pequenas deduções a partir disso – esta é a coisa que eu não entendo; nunca pude entender; cheguei à conclusão de que nunca poderei entender. Posso apenas e tão somente atribuí-la à superstição.

[1] Ver RAÍZES DA SANIDADE. (N. do T.)

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