Carta do Cardeal Albino Luciani a G. K. Chesterton

Por Cardeal A. Luciani

Traduzido por Sândalo Cordeiro 

Em 1976, o então Patriarca de Veneza, Cardeal A. Luciani, futuro papa João Paulo I, publicou uma série de cartas “imaginárias”, de sua autoria, endereçadas a ilustres personagens históricos, fictícios e, até mesmo a Jesus, compiladas em “Ilustrísimos señores”, 1976. Dentre elas, uma dedicada a Gilbert Chesterton: [N.T.]

Em que tipo de mundo…

Caro Chesterton, na tela da televisão italiana apareceu no mês passado Padre Brown, imprevisível padre-policial, criatura tipicamente tua. Pena que não apareceram também o Professor Lúcifer e o monge Miguel. Eu teria prazer em vê-los, como você os descreveu em “A esfera e a Cruz”, viajantes em um avião, sentados um ao lado do outro, Quaresma ao lado do Carnaval. Quando o avião está sobre a Catedral de Londres, o Professor lança uma blasfêmia endereçada à Cruz. – Estou pensando se esta blasfêmia te agrada-lhe diz o monge. – Escute essa história: eu conheci um homem como você; ele também odiava o crucifixo; o baniu de sua casa, do pescoço de sua mulher, até mesmo das pinturas; dizia que era ruim, símbolo de barbárie, contrário à alegria e à vida. E se tornou mais furioso ainda: um dia subiu no campanário de uma igreja, lhe quebrou a cruz e a jogou do alto. Chegou ao ponto em que esse ódio se transformou primeiro em delírio e depois em loucura furiosa. Em uma noite de verão estava quieto, fumando um cachimbo, diante de uma compridíssima paliçada; não brilhava uma luz, não se movia uma folha, mas ele acreditava ver a longa paliçada transformada em um exército de cruzes, ligadas umas às outras sobre a colina, descendo ao vale. Agora, balançando sua bengala, a ergueu contra a paliçada, como se contra uma fileira de inimigos; porquanto era longo o caminho, quebrou, arrebentou, arrancou todas as estacas que encontrava. Odiava a cruz e toda estaca era para ele uma cruz. Tendo chegado em casa, continuou a ver cruzes em todo canto, destruiu os móveis, ateou fogo e no dia seguinte o encontraram morto no rio. Nesse ponto, o Professor Lúcifer olha o velho monge mordendo os lábios e diz: “Eu sei que essa história é inventada!”. “Sim, responde Miguel, a inventei agora; mas ela exprime bem o que você e seus amigos incrédulos estão fazendo. Vocês começam quebrando a cruz e terminam destruindo o mundo habitável”. A conclusão do monge, que é pois a tua, caro Chesterton, é justa. Se se remove Deus, o que resta, o que se torna o homem? Em que tipo de mundo nos permitiremos viver? Mas é o mundo do progresso, ouço dizer, o mundo do bem-estar! Sim; Mas esse famoso progresso não é tudo isso que se espera: ele porta consigo também os mísseis, as armas bacteriológicas e atômicas, o atual processo de poluição, todas as coisas que, se nada for feito a tempo, ameaçam levar a humanidade inteira a uma catástrofe. Em outras palavras o progresso com homens que se amem, considerando-se irmãos e filhos do único Deus Pai, pode ser algo maravilhoso. O progresso com homens que não reconhecem em Deus um único Pai torna-se um perigo contínuo: sem um paralelo processo moral, interior e pessoal ele – o progresso – desenvolve, de fato, as mais selvagens inclinações do homem, faz dele uma máquina possuída por máquinas, um número manipulador de números, um bárbaro em delírio – diria Papini – que em vez do bastão pode servir-se da imensa força da natureza e da mecânica para satisfazer os seus instintos predatórios, destruidores e orgíacos. Eu sei: muitos pensam ao contrário de você e de mim. Pensam que a Religião seja um sonho consolador: a teriam inventado os oprimidos, imaginando um outro mundo inexistente, onde encontrar mais tarde o que hoje lhes roubam os opressores. A teriam organizado, tudo em proveito próprio, os opressores, para terem ainda sob os pés os oprimidos e adormecer neles aquele instinto de classe, que, sem a Religião, levaria à luta. Inútil recordar que a própria religião cristã favoreceu o despertar da consciência proletária, exaltando os pobres e anunciando uma justiça futura. Sim – respondem – o Cristianismo desperta a consciência dos pobres, mas depois a paralisa, pregando a paciência e substituindo a luta classista pela confiança em Deus e a reforma gradual da sociedade! Muitos pensam até mesmo que Deus e a Religião, canalizando esperança e esforços para um paraíso futuro e distante, alienam o homem, o desviam de empenhar-se por um paraíso próximo, realizável aqui na Terra. Inútil recordar-lhes que, segundo o recente Concílio, um cristão, justamente porque é cristão, deve sentir-se mais do que nunca empenhado em favorecer um progresso que é bom para todos, e uma promoção social que seja de todos. Por fim, dizem, vocês pensaram o progresso para um mundo transitório, na espera de um paraíso definitivo, que não virá. Nós queremos o paraíso aqui, fruto de todas as nossas lutas. Já entrevemos o surgimento dele, enquanto o vosso Deus é chamado “morto” por teólogos da secularização. Nós estamos com Heine, que escreveu: “Ouve o sino? De joelhos! Levam-se os últimos sacramentos a Deus que morre!”

Caro Chesterton, você e eu nos colocamos de joelhos sem hesitar, mas diante de um Deus mais atual do que nunca. Só Ele, em verdade, pode dar uma resposta satisfatória a esses três problemas, que são para todos os mais importantes: Quem sou eu? De onde venho? Para onde vou? Quanto ao paraíso, que se gozará sobre a terra e somente sobre a terra e em um futuro próximo, ao fim das famosas “lutas”, gostaria que fosse ouvido um que é bem melhor do que eu e, sem ofuscar os seus méritos, do que você também: Dostoiévski. Você se lembra do dostoievskiano Ivan Karamazov. É um ateu, enquanto amigo do diabo. Bem, ele protesta, com toda a sua veemência de ateu contra um paraíso obtido graças aos esforços, as fadigas, os sofrimentos, o martírio de inumeráveis gerações. Os nossos sucessores felizes graças à infelicidade de seus antecessores! Esses antecessores que “lutam” sem receberem sua retribuição de alegria, sem, freqüentemente, sequer o conforto de vislumbrar o paraíso livre do inferno que atravessam! Inumeráveis multidões de homens atormentados, de sacrificados que são, simplesmente, o solo utilizado para cultivar as futuras árvores da vida! É impossível!, disse Ivan, seria uma injustiça cruel e monstruosa. E tem razão. O senso de justiça que existe em todo homem, de qualquer fé, exige que o bem feito, o mal sofrido, sejam premiados; que a fome de vida inerente a todos seja saciada. Onde e como, senão em uma outra vida? E por quem senão por Deus? E por qual Deus, senão por aquele de quem Francisco de Sales escrevia: “Não tenha medo de Deus, que não quer lhe prejudicar, mas amá-lo muito, porque deseja lhe fazer muito bem”? Aquele que muitos combatem não é o verdadeiro Deus, mas a falsa idéia que se faz de Deus: um Deus que protege os ricos, que somente pede e reivindica, que seja invejoso no nosso progresso em bem-estar, que do alto espia continuamente os nossos pecados para ter o prazer de nos castigar!

Caro Chesterton, você sabe, Deus não é assim: mas justo e bom ao mesmo tempo; pai também dos filhos pródigos, que quer não mesquinhos e miseráveis, mas grandes, livres, criadores do próprio destino. O nosso Deus é tão pouco rival do homem que o desejou como seu amigo, chamando-o a participar da própria natureza divina e da própria eterna felicidade. E não é verdade que Ele espera de nós exageradamente: contenta-se, ao contrário, com pouco, porque sabe bem que não temos muito.

Caro Chesterton, eu sou convicto com você: esse Deus se fará conhecer e amar sempre mais, por todos, inclusive aqueles que hoje o rejeitam não porque são maus (são talvez melhores do que nós dois!), mas porque o vêem de um ponto de vista equivocado! Eles continuam a não crer Nele? E Ele responde: Sou Eu que acredito em vocês!

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