Chesterbelloc e o Distributismo

Chesterbelloc e o Distributismo

Por Diego Guilherme da Silva

Gilbert Keith Chesterton (1874-1936) era bastante versado na arte das letras. Além de jornalista, romancista, poeta, crítico literário, ensaísta, polemista, apologista, biógrafo, cartunista e filósofo, Chesterton também estudou a fundo o campo das ciências econômicas. Era, portanto, um homem de múltiplos dons, um verdadeiro polímata.

Desiludido com as falsas esperanças propostas pelo capitalismo e pelo socialismo, Chesterton — juntamente com seu amigo Hilaire Belloc (1870-1953) e com o Padre Vincent MacNabb — criou uma teoria filosófica e econômica conhecida como Distributismo,que se propõea ser uma terceira via, um meio-termo necessário entre o egoísmo individualista típico do capitalismo e a tirania coletivista inerente ao socialismo.  Em 1926, o autor de Ortodoxia escreveu a respeito do livro Estado Servil (1912), de Belloc, as seguintes palavras: “Quando o Sr. Belloc escreveu a respeito do Estado Servil, ele estava apresentando uma teoria econômica tão original que quase ninguém ainda percebeu do que se trata”.[1]

O Distributismo foi fundamentado na Encíclica Rerum Novarum[2] (Das Coisas Novas), do Papa Leão XIII, publicada em 1891. Este documento papal marcou profundamente o pensamento da época em que foi redigido e foi inspirando a Doutrina Social da Igreja, que, apesar de existir desde os primórdios do cristianismo, ainda não havia sido sistematizada.

Chesterton e Belloc, ou “ChestertonBelloc”, como o irreverente Bernard Shaw  chamava-os, verão de perto as transformações tecnológicas e industriais que a Inglaterra vivenciou ao final do século XIX e início do século XX: as rápidas mudanças do estilo de vida, a poluição, a avareza, a ganância, o aumento da pobreza e a desestruturação da família, ocasionada pela penúria financeira e pela  exploração de menores de idade por parte das indústrias, sobretudo. Tudo isto chamou muito a atenção de Chesterton, tão zeloso e amoroso com o tema ‘lar’, tão preocupado com a preservação das famílias. Ele não se esqueceu que economia também significa ‘administração doméstica’, ‘administração do lar’. Tinha presente que a economia não é uma ciência exata e fria, reduzida a dados quantitativos, mas sim humana, pois está atrelada diretamente às nossas relações sociais.  Para Chesterton, Belloc e Pe. Macnabb, portanto, a economia deveria ser pautada no respeito à dignidade da pessoa humana e ter sempre em vista o bem comum. Pois, afinal, o princípio e o fim de tudo estão na transcendência.

Para Chesterton, tudo começa na família, no lar. O lar é o fantástico mundo da criança, o primeiro contato dela que ela tem com a realidade. Ele via claramente o perigo da sociedade capitalista: “Um inimigo ainda mais feroz da família é a fábrica. Entre estas coisas mecânicas modernas a instituição natural antiga não está sendo reformada, modificada ou mesmo podada: ela está sendo dilacerada. E ela não está sendo dilacerada no sentido de uma metáfora verdadeira, como a de um ser vivo preso em uma engrenagem medonha de uma máquina. Ela está sendo, literalmente, rasgada ao meio, como quando o marido vai para uma fábrica, a esposa para outra, e a  criança para uma terceira. Cada um deles se torna o servo de um grupo financeiro diferente, que cada vez mais ganha o poder político de um grupo feudal. Mas enquanto o feudalismo recebia a lealdade das famílias, os senhores do novo estado servil recebem apenas a lealdade de indivíduos, ou seja, de homens solitários e até mesmo de crianças perdidas.”[3]

É que sistema capitalista afronta e embrutece o homem,  tornando-o escravo do materialismo, ao passo que o socialismo, igualmente materialista, porém com o seu falso messianismo, propõe a felicidade ao homem aqui mesmo na Terra, e tudo isso apenas com uma simples mudança de sistema econômico e com a dissolução da propriedade privada. Em suma: que a propriedade privada passe a ser posse do Estado — que, diga-se de passagem, não é uma entidade sobrenatural. O socialismo, portanto, não é capaz de oferecer soluções éticas e viáveis para o problema da má distribuição da propriedade nem para a questão do bem comum. Chesterton enxergava claramente nos dois sistemas os seus respectivos erros.

Dóceis ao ensinamento do Magistério da Igreja, Chesterton e Belloc deram uma resposta bastante lúcida ao momento conjuntural complexo que Inglaterra atravessava ao elaborarem a teoria distributivista. E rapidamente o distributismo começou a ganhar admiradores. Chesterton e Belloc criaram então a Liga Distributivista. O objetivo da Liga era “restaurar a propriedade”, segundo pronunciou Chesterton no discurso inaugural. O autor de O Homem Eterno foi eleito o primeiro presidente da Liga. Ele escreveu uma série de artigos sobre sua teoria no G.K.’s Weekly, tais artigos foram compilados no livro The Outline of Sanity (1926).

Podemos ver claramente a influência das ideias distributivistas na obra O Senhor dos Anéis (escrita entre 1937 e 1949), de J.R.R. Tolkien; segundo Matthew P. Akers: “Tolkien inclui soluções distributivistas para os problemas associados com o desenvolvimento econômico em sua trilogia. O Condado, lar dos Hobbits, sofre muitos dos problemas de nossa sociedade moderna, em particular uma crise econômica, a destruição de seu meio ambiente e a tentação do imperialismo. Examinemos, pois, como os Hobbtis do Condado aplicam os princípios distributivistas a esses problemas para ver como poderíamos tratar desses mesmos obstáculos em nossa sociedade”.[4] Infelizmente o filme dirigido por Peter Jackson não reproduz muito bem essas passagens da obra.

O Distributismo, basicamente, possui como base três fundamentos presentes na Doutrina Social da Igreja (DSI): a Propriedade Privada, o Princípio da Solidariedade e o Princípio da Subsidiariedade. Expliquemos cada um deles:

O primeiro e mais importante princípio do distributimo é o da  Propriedade Privada. Para Chesterton, a propriedade privada era sagrada. No universo de uma propriedade, pois a propriedade é “um território circunscrito em que ele [o homem] é rei”. Chesterton defendia que “a propriedade privada deve ser distribuída com suficiente e decente igualdade”. Pois, como nos é lembrado por Leão XIII, a propriedade “é de direito natural para o homem: o exercício deste direito é coisa não só permitida, sobretudo a quem vive em sociedade, mas ainda absolutamente necessária” (12), afinal “não é das leis humanas, mas da natureza, que emana o direito de propriedade individual” (28). Todos os homens possuem, portanto, direito a uma propriedade. Isto é imprescindível para a sua dignidade como pessoa, afinal Deus deu a Terra para que o homem a dominasse e não para que os homens dominassem uns aos outros — isto seria, aliás, o oposto simétrico do que a cosmovisão cristã propõe.

O segundo fundamento é o Princípio da Solidariedade, que sugere, segundo Pedro Jiménez, em seu artigo Sobre el distributismo[5],  que aqui “não nos referimos a solidariedade vã e falsa, mas sim a uma muito profunda, que seria melhor chamada de caridade”. E complementa dizendo que “o Estado deve trabalhar de maneira subsidiária para o bem comum de cada comunidade. Não importa se perde eficiência em muitas coisas, o importante é trabalhar para e pelo bem comum, ou seja:  tomar aquelas medidas que promovam a virtude entre as pessoas e dessa maneira a sua felicidade”.[5]

Por fim, o terceiro pilar da teoria é o Princípio da Subsidiariedade, que propõe, também segundo Pedro Jiménez, “que o que possa ser feito por uma entidade pequena, uma entidade grande não o faça. A entidade menor é o indivíduo; assim sendo, aquelas coisas que podem ser realizadas pelo indivíduo, que as grandes empresas não as façam. O princípio de subsidiariedade deveria reger tanto a esfera econômica quanto a política. Este princípio é básico e fundamental para o funcionamento de um sistema distributivista”.

Por ora, acreditamos que este esboço pode servir para quem quer aprofundar as ideias elencadas ao longo deste artigo, cuja meta foi realizar apenas uma apresentação sucinta do tema e transmitir ao leitor uma visão panorâmica acerca do Distributismo. Fica o convite para que conheçamos mais profundamente o estudo e a aplicação da Doutrina Social da Igreja. Fica, igualmente, o convite de Chesterton para conhecermos mais a respeito do Distributismo. Mas, como a própria teoria propõe, é preciso abraçar o que é simples, modesto e pequeno; nada de titanismos, portanto. Por isso mesmo o ideal é começar aos poucos, como os hobbits imaginados por J. R. R. Tolkien em O Senhor dos Anéis.


[1] Chesterton G. K. Capítulo Why I am a Catholic, disponível na obra Twelve Modern Apostles and Their Creeds (1926). Traduzido por Antonio Emilio Angueth de Araujo. Leia mais: http://chestertonbrasil.blogspot.com/search/label/Por%20que%20sou%20cat%C3%B3lico#ixzz1nJZy3H79

[2] LEÃO XII. Carta Encíclica Rerum Novarum. Sobre a Condição dos Operários. Publicada em 1891. Confira aqui: http://www.vatican.va/holy_father/leo_xiii/encyclicals/documents/hf_l-xiii_enc_15051891_rerum-novarum_po.html CARTA ENCÍCLICA

[3] CHESTERTON, G.K. The Superstition of Divorce. Capítulo A história da família. Tradução: Carlos Ramalhete. Confira aqui: http://chestertonbrasil.blogspot.com/2012/02/v-historia-da-familia.html#ixzz1nJh3Lg2a 

[4] Matthew P. Akers.  Publicado na revista Distributims Review. El Distributismo en la Comarca. Tradução : Alfonso Díaz Vera. http://distributistreview.com/mag/2011/03/el-distributismo-en-la-comarca/

[5] Pedro Jiménez de León. Sobre el Distributismo, artigo publicado na Distributism Review. Confira aqui: – http://distributistreview.com/mag/2010/06/sobre-el-distributismo/