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Chesterton, ressuscitá-lo ou não?

 Autoria de Diego Guilherme da Silva* e Letícia Lopes Damasco**

Somente os mortos podem ressuscitar.  No caso de Chesterton sua morte física não o matou da lembrança dos apaixonados pelo senso comum, bom humor e paradoxos deixados pelo imortal inglês. Chesterton escreveu palavras duras, emotivas, sinceras, honestas, profundas. Seus paradoxos geniais ficam na memória como pequenos fragmentos de verdades que podemos beber quando nossa mente caminha por trilhas da aridez.

Homem de grande estatura física, possuía 1,93 e pesava 130 kg,  não por menos deixou de ironizar nos volumosos textos e livros a grandeza de seu pensamento lançado de seu grandioso cérebro.  Caminhante heróico entre as ruas frias de uma Londres Vitoriana em que a efervescência do ceticismo, materialismo, evolucionismo, e uma sorte de ‘ismo’ configuravam uma nova forma de pensar que tanto Chesterton combateu com argumentos argutos e racionais, absorvidos de uma religiosidade intrínseca à Verdade.

Nascido em Kensington, distrito central de Londres, em 29 de maio de 1874, Gilbert Keith Chesterton, ou G.K.C., ou simplesmente Chesterton, foi o segundo filho de três irmãos, fruto do casamento de  Edward Chesterton e de Marie Louise Grosjean. Seu irmão Cecil Chesterton, com quem Chesterton passava horas e horas debatendo, era de temperamento forte e também seguiu a carreira jornalística como seu irmão sendo editor do The New Witness. Desde pequeno Chesterton passava horas absorto em seus pensamentos. Era assustadora sua capacidade de concentração, mesmo quando estava em um pub conseguia concentrar para escrever. Certa vez, com grandes dificuldades econômicas, ele chegou para um dos seus editores e disse que tinha um livro para publicar. Esperando os rascunhos o editor perguntou a Chesterton que livro seria, já que não trazia nada. Ele apenas apontou para a cabeça e disse que em breve traria.

Autor de mais de 80 livros, vários poemas, aproximadamente 200 contos, 4000 artigos, escreveu para os jornais Daily News, o Illustrated London News, e para seu próprio jornal, G’s Weekly. Autor de Ortodoxia (1908), fascinante biografia espiritual do autor que a escreveu antes de sua conversão ao catolicismo, que aconteceu em 1922, Chesterton surpreende com sua resposta ao desafio que G.S. Street, lhe propôs quando da publicação de The Heretics (1905), livro traduzido para o português pelo professor Antônio E. Angueth de Araújo e Márcia  Xavier de Brito, publicado pela editora Ecclesiae, no qual Chesterton denuncia toda a perda do senso comum e desconstrução da cultura cristã ocidental que as novas ideologias provocaram. 

“Com um puxão demorado e constante, tentamos tirar a mitra da cabeça do pontífice; e a cabeça dele veio junto com a mitra.”, escreveu. Street lhe desafiou e, sem demora, Chesterton aceitou o desafio, fruto disso foi Ortodoxia, um dos mais importantes livros do autor. Ele ainda ironizou na escolha do título do livro-resposta.

Casou-se com Frances Blogg, em 1901. Infelizmente não tiveram filhos. Ambas as famílias não viam com bons olhos o casamento. Não tanto pela pessoa de Chesterton, a quem tinham estima e confiança, mas ao fato dele conseguir sustentar uma família com o pouco que recebia dos seus trabalhos literários. Chesterton, em uma carta a sua mãe, Marie Louise, se referiu assim a Francês: “…é, como certeza, o tipo de mulher que te agrada, que se pode chamar, segundo creio, ‘mulher das mulheres’, com bom humor, pouca lógica e muita simpatia, e não está contaminada por nenhum excesso ofensivo de saúde física.” Tinha consciência de que ” o casamento cristão não é algo que nos é sugerido pelas condições sociais do nosso entorno; é algo que nos é sugerido por Deus.”¹

Sua dedicação aos trabalhos jornalísticos e literários lhe rende muitos amigos. Dentre os mais íntimos Hillare Belloc, a quem Bernard Shaw, um dos seus adversários apelidou de “monstro Chesterbelloc”. Também era estimado por outros grandes autores como: T.S. Eliot,  que  o chamou de gaudium de veritati; Étiene Gilson, C.S.Lewis, Paul Claudel, e até J.R.R.Tolken estimava suas obras.  Foi convidado a dar palestras em diversos países, Chesterton viajou pela Europa, Estados Unidos, Palestina. Em sua viagem a Roma, ocorrida em 1929, Chesterton ficou tão impressionado com a recepção que o Papa Pio XI lhe fez que nada fez nos dias posteriores. Quando faleceu, em 1936, o Papa Pio XI enviou um telegrama lamentando pela morte de “um devoto filho da Santa Igreja, defensor rico de dons da fé católica”.

Muitos fatos poderiam ser relatados sobre essa figura gigantesca que caminha com sua capa espanhola preta e seu charuto. Leitor apaixonado pelas obras do aquinate Chesterton lhe dedicou um livro (Santo Tomas de Aquino: biografia (1933)) sobre sua pessoa e obra. Apenas pediu a sua secretária uns livros sobre a vida de Aquino que estavam em sua biblioteca e compôs uma obra que Etienne Gilson assim se expressou: “Chesterton desespera qualquer pessoa. Estudei Santo Tomás a vida inteira e nunca teria sido capaz de escrever um livro como este.” “Tenho inveja de Chesterton e estou desgostoso comigo mesmo”, escreveu²

Apesar de desconhecido e pouco traduzido para o português, muitas obras de Chesterton podem ser encontradas em espanhol e todas em inglês estão em domínio publico. Algumas iniciativas isoladas têm surgido no Brasil como o site ChestertonBrasil.org e a edição da revista The Chesterton Review em português, mas ainda é incipiente aos méritos desde gigante da literatura.

Chesterton não está morto. Não é necessário ressuscitá-lo, pois está vivo na mente daqueles que o conhece. Precisamos é torná-lo conhecido e suas obras por si estará nas mãos de milhares de leitores brasileiros. 

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 ¹ Chesterton: um escrito para todos los tiempos, autoria de Luis Ignácio Seco, publicado pela editora La Palabra, 1998. Pág. 104-106.

² trecho retirado do livro Chesterton e o Universo, de autoria de Scott Randall Paine, publicado pela editora UNB, 2008. 

*Diego Guilherme da Silva

Editor do site Sociedade Chesterton Brasil. Bibliotecário e morando atualmente no Rio de Janeiro. 

**Letícia Lopes Damasco

Mestranda em Letras/Estudos Literários: Estudos Clássicos (UFMG). Graduada em Letras/Português-Grego (UFF)

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