Considerando todas as coisas
Lançamento da Editora Ecclesiae (2013). Tradução de Mateus Leme.

Considerando todas as coisas

Por Dale Ahlquist

Tradução Davi James

Revisor Renato Romano

Tradução do original All Things Considered [Lecture 11], disponível no site Chesterton.org

 

“Não consigo entender aqueles que levam a literatura a sério; mas sou capaz de amá-los, e de fato os amo. É por amor que os advirto a se afastar deste livro.”

Lançamento da Editora Ecclesiae (2013). Tradução de Mateus Leme.
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É assim que Chesterton apresenta a sua coleção de ensaios, reunidos em 1908, com o título Considerando todas as coisas. Foi o primeiro de muitos livros compostos de artigos que haviam sido publicados nas colunas do jornal Illustrated London News. Chesterton escreveu 1.535 colunas para o ILN, de 1905 a 1936. Além dos 34 ensaios do referido livro, mais de 300 outros foram reunidos em livros como The Uses of Diversity, Fancies vs. Fads, Generally Speaking, All is Grist, Come to Think of It, All I Survey, Avowal and Denials, As I was Saying, e The Glass Walking-Stick. Não há razão para pensar que os outros 300 artigos reunidos em tais livros representem necessariamente as melhores contribuições de Chesterton para o Illustrated London News. Qualquer pessoa que tenha vasculhado a edição das colunas originais (já quase completa) do ILN, publicada pela Ignatius Press, pode confirmá-lo. Toda a coleção é uma mina de ouro com imensos tesouros esperando para ser descobertos.

Contudo, há algo especial em relação a esta primeira coleção: Considerando todas as coisas. Tanto no título quanto no conteúdo, trata-se da quinta-essência de Chesterton. Aqui, o mestre do ensaio examina tudo, da poesia ao patriotismo, do anonimato à imparcialidade, dos demagogos aos mistagogos, da ciência à religião, da transcrição fonética ao ato de correr atrás do próprio chapéu.

Assim como em outros lugares, Chesterton, na introdução, se diz espantado pelo fato de o seu jornalismo efêmero ter sido impresso em algo tão permanente como um livro. Afinal, o ponto principal desses escritos é mirar as ideias contemporâneas, que passam como passam as modas. Ele é incapaz de pensar que o livro possa durar vinte minutos mais do que as filosofias que ataca. Mas a razão por que os ensaios ainda mantêm a sua força é que as más ideias que eles contestam reaparecem de tempos em tempos, como a moda das lapelas largas e das ceroulas.

E a maioria das más ideias, como as modas más, atacam a dignidade do Homem. Chesterton defende o Homem como a única criatura que pode ser dignificada – porque é também a única criatura que pode ser absurda. “O Homem é uma exceção, independentemente do que mais ele seja… O Homem é sempre alguma coisa pior, ou melhor, do que um animal.” No sexo, nenhum animal pode ser cavalheiresco – e nenhum animal pode ser obsceno. E “animal algum jamais inventou algo tão ruim quanto a embriaguez – ou tão bom quanto a bebida.”

O Homem é um paradoxo: “superior a tudo que o cerca, e, contudo, à sua mercê.” Uma pessoa que tenta tirar uma mosca de um copo de leite ou um pedaço de rolha de um copo de vinho “vê-se irritada”. E “pessoas de visão bastante moderna [são] movidas na aflição a usar termos teológicos aos quais não dão nenhuma importância doutrinal, apenas porque uma gaveta ficou apertada e não é possível reabri-la”. Mas os problemas dessas pessoas, diz Chesterton, repousam em suposições falsas, tais como a de que as gavetas sempre deveriam abrir-se com facilidade. Nós nos enganamos porque temos ideias erradas. Poderemos rir da nossa tolice quando, de repente, passarmos a ver as coisas claramente.

Chesterton afirma que uma piada é “a verdade, embora não seja o fato”. Por exemplo, as muitas piadas sobre esposas rabugentas e maridos dominados por elas constituem um exagero, mas são “um exagero de uma verdade; ao passo que todo o falatório de hoje sobre as mulheres oprimidas são exageros de uma mentira”. Diz ele que, se lermos os intelectuais, veremos as esposas retratadas como se fossem uma propriedade de seus senhores, como uma banheira ou um leito. “Mas, se lermos as comédias escritas na democracia, veremos senhores se esconderem debaixo da cama para escapar à ira da sua ‘propriedade’. Isso não é o fato, mas está muito mais próximo da verdade.” O tema dessa piada, segundo Chesterton, é que, mesmo que o homem seja o chefe da casa, ele sabe que é apenas um figurante.

Analogamente, toda e qualquer piada é “uma questão teológica grave”, pois toda piada diz respeito à Queda do Homem. Não podemos sequer apreciar uma piada, se não tivermos uma filosofia clara que possa reconhecer o que está correto e o que está torto. Além disso, uma boa filosofia não sucumbirá à facilidade de uma piada. Daí a advertência, no início do livro, àqueles que levam a literatura a sério. Eles talvez descubram que suas ideias não se sustentam tão bem sob o peso do espírito chestertoniano; ao passo que “o teste de uma boa religião é podermos fazer piadas sobre ela”. A maior parte das ideias fugazes, que ao mundo parecem tão novas e dignas de atenção, atacam as coisas permanentes, como a religião, que parece tão antiga e ultrapassada. Mas a verdade não é uma tendência, e Chesterton jamais se curva aos fatídicos ventos das novas filosofias, não importa quão forte o seu sopro. Não importa quão popular seja hoje ou amanhã uma idéia; o que importa é se ela está certa ou errada. “O certo é certo, mesmo que ninguém o faça. O errado é errado, mesmo que todos se enganem sobre ele.” Pensemos. Existe o certo e existe o errado. O mundo moderno rejeitou essa ideia escandalosamente simples. O certo e o errado foram substituídos por um egoísmo vago e escorregadio. O preto e o branco foram substituídos por diversos matizes de cinza. A convicção foi substituída pela imparcialidade, e o agnóstico é considerado um pensador mais equilibrado do que o crente. Mas, como diz Chesterton, “supõe-se que o agnóstico é imparcial, quando na verdade é simplesmente ignorante.”

Se o livro Considerando todas as coisas pudesse ser resumido numa única citação, seria esta: “É sinal característico das formas religiosas declarar algo que se desconhece. E é sinal característico das formas do mundo declarar algo que é conhecido, e que se conhece que é falso.”

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