Discussão um pouco no ar

Discussão um pouco no ar

Por G.K.Chesterton

Tradução de Carlos Nougué

A discussion somewhat in the air, disponível no livro The Ball and the Criss

(A Esfera e a Cruz), publicado em Londres, 1910.

A nave voadora do professor Lúcifer silvava atravessando as nuvens como dardo de prata; a sua ponta, de límpido aço, refulgia no vazio azul-escuro da tarde. Que a nave se achava a grande distância da terra é dizer pouco; aos dois ocupantes parecia-lhes estar a grande distância das estrelas. O professor mesmo inventara a máquina de voar e quase todos os objetos do seu equipamento. Cada ferramenta, cada aparelho tinha, portanto, a aparência fantástica e atormentada própria dos milagres da ciência. Porque o mundo da ciência e o da evolução são muito mais enganosos, inominados e quiméricos do que o mundo da poesia e o da religião — nestes últimos, imagens e idéias permanecem eternamente as mesmas, ao passo que a idéia toda de evolução funde os seres uns com os outros, como sucede nos pesadelos.

Todos os instrumentos do professor Lúcifer eram os antigos instrumentos humanos levados à loucura, desenvolvidos em formas desconhecidas, esquecidos da própria origem, esquecidos do próprio nome. Aquela coisa que parecia uma chave enorme com três rodas era, em verdade, um revólver, patenteado e muito mortífero. Aquele objeto que parecia feito de dois saca-rolhas tortuosos era, em verdade, a chave. A coisa que teria podido confundir-se com um triciclo de pernas para o ar era o instrumento, de imponderável importância, a que servia de chave o saca-rolha. A todas essas coisas, como já disse, inventara-as o professor; inventara tudo quanto levava a nave voadora, com exceção talvez da sua própria pessoa. O professor nascera demasiado tarde para que a pudesse descobrir realmente, mas acreditava, ao menos, tê-la melhorado muitíssimo.

Ademais, ia naquele momento outro homem a bordo, digamo-lo assim. Tampouco a este, coincidência curiosa, inventara-o o professor, nem o melhorara grande coisa, conquanto o tivesse pescado tirando-o com laço do retiro do seu horto, na Bulgária ocidental, com o único desígnio de melhorá-lo. Era homem de extrema santidade, coberto quase por inteiro de pêlos brancos. Só se lhe podiam ver os olhos, e dir-se-ia que falava com eles. Monge de imenso saber e agudo entendimento, lavrara a sua felicidade, numa casucha de pedra e num pedregoso horto dos Bálcãs, escrevendo, antes de tudo, esmagadoras refutações e comentários de certas heresias, cujos últimos doutores, abrasados uns pelos outros, em geral, tinham perecido mil cento e dezenove anos antes, precisamente. Eram heresias muito plausíveis e meditadas; a circunstância de que o velho monge tivesse sido bastante sagaz para descobrir-lhes a falácia merecia estima e até glória; o que havia unicamente de mau era que no mundo moderno não havia ninguém capaz de lhe compreender os argumentos. Não obstante, o velho monge, um de cujos nomes era Miguel, e o outro um nome impossível de repetir ou de recordar na nossa civilização ocidental, conseguira, como já disse, plena felicidade enquanto vivera na ermida da montanha, em companhia de animais silvestres. E agora que o seu destino o subia mais alto que as montanhas, em companhia de um físico extravagante, também era feliz.

— Não me proponho, meu bom Miguel — disse o professor Lúcifer — a converter-te por meio de argumentos. A imbecilidade das vossas tradições pode ser demonstrada, a fundo, a qualquer pessoa que possua o mais superficial conhecimento do mundo, esse gênero de conhecimento que ensina a não expor-se às correntes de ar e a não entabular amizade com gente sem recursos. É loucura falar de tal ou qual demonstração da filosofia racionalista. Demonstram-no todas as coisas. Dando-nos com gente de todas as classes…

— Com o seu perdão — disse o monge, mansamente, de sob a carga de barbas brancas — receio não ter compreendido. Por acaso me pôs o senhor neste aparelho para que possa dar-me com gente de todas as classes?

— Réplica espirituosa, no modo dedutivo e mesquinho da Idade Média — retomou o professor, com calma. — Mas ainda no teu próprio campo vou demonstrar a questão. Subimos aos céus. Na tua religião, e em todas as religiões, que eu saiba (e sei tudo), o céu vale como símbolo de tudo quanto há de sagrado e de misericordioso. Pois bem: agora estás nos céus, e os conheces melhor. Chama-o como quiseres, desfigura-o quanto quiseres: tu sabes que os conheces melhor. Tu sabes agora qual o verdadeiro sentimento de um homem com respeito ao firmamento, quando se encontra sozinho no meio dele, rodeado dele. Tu já conheces a verdade, e a verdade é esta. O firmamento é mau, o céu é mau, as estrelas são más. Este espaço puro, esta pura quantidade aterram o homem mais que os tigres ou que a terrível peste. Tu sabes que, quando falou a nossa ciência, o céu ficou sem fundo. Agora o céu é coisa sem esperança, ainda mais sem esperança que qualquer inferno. Se há algum bem-estar para a vossa miserável progênie de macacos doentios, tem de ser na terra, debaixo de vós, sob as raízes da relva, onde esteve outrora o inferno. As criptas candentes, as lôbregas masmorras do mundo subterrâneo, a que antanho eram condenados os maus, são verdadeiramente horrendas, mas ao menos oferecem melhor abrigo que o firmamento por onde estamos a viajar. Virá o tempo em que ireis todos esconder-vos lá, para livrar-vos do horror das estrelas…

— Espero que me desculpe se o interrompo — disse Miguel, com uma tossezinha — mas sempre notei…

— Prossegue, peço-te. Prossegue — disse o professor Lúcifer, radiante. — Gosto verdadeiramente de trazer à luz as tuas idéias de simplório.

— Pois bem, o caso é que — recomeçou o outro — admirando muito, de um ângulo meramente verbal, a sua retórica e a retórica da sua escola, pelo curto estudo que do senhor mesmo e da sua escola na história humana pude fazer, cheguei a uma… con… conclusão algo estranha, que me é muito custoso expressar, sobretudo em língua estrangeira.

— Vamos lá, vamos lá — disse o professor, animando-o — eu te ajudarei. Que impressão te causaram as minhas idéias?

— Pois bem, a verdade é, reconheço perfeitamente que não o expresso como devido, mas, de certo modo, parece-me que os senhores formulam idéias desse gênero com a maior eloqüência, quando… bem… quando… bem…

— Anda, adiante! — gritou Lúcifer, furioso.

— Bem, vou direto ao assunto. Quando a sua nave voadora está prestes a espatifar-se contra algo, pensava eu que o senhor não esperaria que eu o advertisse disto, mas neste momento estamos indo direto a um choque.

Lúcifer soltou uma blasfêmia, ergueu-se de um salto e pôs todo o peso sobre a manivela que servia de timão da nave. Durante os últimos dez minutos tinham descido velozmente por entre grandes grotas sombrias, qual cavernas de nuvens. Naquele ponto, através da névoa purpúrea, pôde ver-se, relativamente próximo, o que parecia a parte superior de uma enorme e escura esfera ou orbe, isolada no mar de nuvens. Os olhos do professor faiscaram como os de um louco.

— É um mundo novo — gritou, com riso pavoroso. — É um planeta novo, que levará o meu nome. Esta estrela, e não aquela outra, demasiado vulgar, será “Lúcifer, o sol da manhã”. Aqui não haverá loucuras privilegiadas, não haverá deuses. Aqui o homem será tão inocente como as margaridas, tão inocente e tão cruel; o intelecto…

— Parece — disse Miguel timidamente — que há uma coisa fincada no meio.

— Assim é — disse o professor, inclinando-se sobre uma borda da nave, brilhantes os seus óculos como o fogo da sua excitação mental. — Que poderá ser? Naturalmente, não pode ser mais que…

Soltou de súbito então um grito indescritível, e deixou cair os braços, como quem perde o ânimo. O monge empunhou o timão com gesto de cansaço; não parecia muito espantado, porque vinha de uma parte do mundo por demais ignorante, onde não é raro que a gente perdida de espírito solte um grito ao ver a curiosa forma que o professor acabava de perceber no cimo do orbe misterioso, mas empunhou o timão com o tempo preciso para, volvendo-o vigorosamente para a esquerda, impedir que a nave voadora se espatifasse na catedral de São Paulo.

Uma nuvem plana, negrusca, estendia-se em torno do remate da cúpula da catedral, de modo que a esfera e a cruz pareciam uma bóia ancorada num mar de chumbo. Enquanto a nave deslizava para ela, a planície de nuvem parecia tão seca, concreta e dura como um deserto arenoso. Daí espírito e corpo terem uma sensação aguda e como sobrenatural quando a nave fendeu a nuvem e a penetrou como se fora névoa ordinária, matéria sem resistência. O que se deu é que receberam uma pavorosa sacudidura, pelo fato mesmo de não haver choque. É como se tivessem fendido antigos penhascos feitos de manteiga. Mas aguardavam-nos outras sensações, mais estranhas que a de afundar-se em terreno sólido. Por um momento olhos e narizes se obstruíram com a escuridão e a nuvem opaca; depois, a escuridão clareou numa espécie de névoa parda. E longe, muito longe, por baixo deles, a névoa parda descia até acender-se em fogo. Através da atmosfera densa de Londres puderam ver, em baixo, o brilho das luzes da City; luzes que traçavam quadrados e retângulos de fogo. Névoa e fogo mesclavam-se num vapor ardente; podia-se dizer que a névoa estava sufocando as chamas, ou que as chamas tinham ateado fogo à névoa. Junto à nave (que mal se punha abaixo do nível da esfera) e debaixo dela, a imensurável cúpula brotava e afundava-se no escuro, como uma cachoeira muda. Ou era como um ciclópico animal marinho posto sobre Londres, e a largar desconjuntadamente os seus tentáculos por todos os lados, uma monstruosidade naquele céu sem estrelas. Porque as nuvens pertencentes a Londres se tinham fechado sobre a cabeça dos viajantes, tapando a saída do ar superior. Era como se tivessem perfurado um telhado e penetrado no templo do crepúsculo.

Estavam tão próximos da esfera, que Lúcifer apoiou nela a mão, empurrando a nave para fora, como se impele um barco que desatraca. Em cima, a cruz, envolta já em névoa escura, parecia quimérica, mais terrível de tamanho e forma.

O professor Lúcifer deu duas palmadas na superfície da grossa esfera, como se acariciasse um animal enorme.

— Esta jóia me encanta. É quanto preciso — disse.

— Posso perguntar, com todo o respeito — inquiriu o antigo monge — de que o senhor está falando?

— Como de quê?! — gritou Lúcifer, golpeando outra vez a esfera. — Isto que vês aqui é um símbolo único, meu caro. Tão rotundo. Tão satisfeito. Não é como o ser descarnado que estende ali os braços com sumo cansaço. — E, ensombrecida a face por um esgar, apontava para a cruz. — Precisamente te ia dizendo, Miguel, que posso demonstrar o principal da tese racionalista e o embuste cristão valendo-me de qualquer símbolo que me queiras dar, de qualquer exemplo com que topemos. E aqui há um exemplo que me convém perfeitamente. Como se poderia significar melhor a tua filosofia e a minha do que com a forma dessa cruz e a forma desta esfera? Este globo é razoável; a cruz é irrazoável. É um animal de quatro patas com uma pata mais longa que as outras. O globo é inevitável. A cruz é arbitrária. Sobretudo, o globo constitui unidade em si mesmo; a cruz está, primordialmente e acima de todas as coisas, em discórdia consigo mesma. A cruz é o conflito de duas linhas hostis, de duas direções inconciliáveis. Esse objeto silencioso que se ergue aí é em essência uma colisão, um crucifixo, uma luta em pedra. Esse vosso símbolo sagrado veio em verdade dar nome a uma situação desesperada e rude. Quando falamos de homens que se ignoram e ao mesmo tempo se estorvam mutuamente, dizemos que têm desígnios cruzados. Abaixo com ele! A sua própria forma é uma patente contradição.

— O que o senhor diz é absolutamente certo — interveio Miguel com serenidade. — Mas gostamos das contradições patentes. O homem é uma contradição patente; é um animal cuja superioridade sobre os outros animais consiste em ter caído. Esta cruz é, como o diz o senhor, uma colisão eterna; também eu o sou. É uma luta em pedra. Cada forma de vida é uma luta em carne. A forma da cruz é irracional, tão cabalmente como a forma do animal humano é irracional. O senhor diz que a cruz é um quadrúpede com uma extremidade mais longa que as demais. Eu digo que o homem é um quadrúpede que usa somente duas pernas.

O professor, meditabundo, franziu um instante a testa, e disse:

— Tudo é relativo, naturalmente, e não vou negar que o elemento de luta e contradição interna, representado pela cruz, ocupe um lugar necessário em certa fase da evolução. Mas certamente a cruz é o ponto mais baixo do desenvolvimento, e a esfera é o mais alto. Além disso, é muito fácil ver onde está o equívoco no plano arquitetônico de Wren.

— E onde está esse equívoco, se me faz o favor? — inquiriu Miguel suavemente.

—A cruz está no alto da esfera — disse simples­mente o professor Lúcifer. — É um erro, sem dúvida alguma. A esfera devia estar no alto da cruz. A cruz não é mais que uma estaca bárbara; a esfera é a perfeição. Além disso, a cruz é a árvore amarga da história do homem; a esfera é o fruto final, carnoso e maduro. O fruto deveria estar no alto da árvore, não ao pé dela.

— Oh! — disse o monge, a testa vincada por uma ruga. — Quer dizer, então, que num esquema simbólico do racionalismo o senhor poria a esfera em cima da cruz?

— Isso resume por completo a minha alegoria — disse o professor.

— Bem, tudo isso é por certo muito interessante — continuou Miguel, bem devagar — porque, a meu juízo, em tal caso, o senhor veria o efeito mais singular, efeito a que geralmente chegaram todos os sistemas poderosos e hábeis que o racionalismo, ou a religião da esfera, produziu para guiamento ou ensinamento da humanidade. O senhor veria, creio eu, ocorrer uma coisa que é sempre a última personificação e a saída lógica desse sistema lógico

— De que estás falando? — perguntou Lúcifer. — Que sucederia?

— Quero dizer que a esfera cairia — disse o monge, olhando com avidez para o vazio.

Lúcifer fez um movimento de cólera e abriu a boca para falar, mas, antes que pudesse articular palavra, Miguel, mui resolutamente, prosseguiu:

— Certa feita conheci um homem como o senhor, Sr. Lúcifer — disse, articulando com lentidão e monotonia desesperadoras. — Opinava também…

— Não existe outro homem como eu — gritou Lúcifer com tal violência, que estremeceu a nave.

— Como ia dizendo — continuou Miguel — esse homem opinava também que o símbolo do cristianismo é um símbolo de barbárie e de sem-razão. A história dele é um tanto divertida. Vem a ser também uma alegoria perfeita do que sucede aos racionalistas como o senhor. Começou, obviamente, negando-se a tolerar um crucifixo em casa, nem sequer pintado nem pendente do pescoço da esposa. Dizia, como o senhor, que é uma forma arbitrária e fantástica, uma monstruosidade, amada por ser paradoxal. Depois se foi tornando cada vez mais violento e excêntrico; queria derrubar as cruzes dos caminhos, porque vivia num país católico romano. Finalmente, num a­cesso de fúria subiu ao campanário da igreja paroquial e arrancou a cruz, brandindo-a no ar, e proferindo atrozes solilóquios, lá no alto, sob as estrelas. Uma tarde, ainda no verão, quando voltava para casa por um caminhozinho ladeado de estacarias, o demônio da sua loucura veio sobre ele com aquela violência e desfiguração tão intensas que transtornam o mundo. Parara por um momento, fumando, diante de uma estacada infinda, quando os seus olhos se abriram. Não fulgia nem uma luz, não se mexia nem uma folha, mas ele viu, como numa mutação súbita do contorno, que a paliçada era um exército inúmero de cruzes ligadas entre si, desde a colina até ao vale. Brandiu o bastão e arremeteu contra elas, como contra um exército. E quilômetro após quilômetro, em todo o caminho até a sua casa, as foi partindo e derrubando. Porque aborrecia a cruz, e porque cada paliçada era um muro de cruzes. Quando chegou a casa, estava completamente louco. Deixou-se cair numa cadeira, e depois se levantou dela porque as tábuas do assoalho repetiam a imagem insuportável. Atirou-se numa cama, o que serviu para lembrá-lo de que a cama, como todas as coisas lavradas pelo homem, correspondia ao desenho maldito. Quebrou os móveis, porque eram feitos de cruzes. Ateou fogo à casa, porque era feita de cruzes. E acabaram por encontrá-lo no rio.

Lúcifer olhava-o mordendo um lábio.

— É verdadeira essa história? —perguntou.

— Oh, não! — disse Miguel vivamente. — É uma parábola. É a parábola de todos os racionalistas como o senhor. Os senhores começam quebrando a cruz, e acabam destruindo o mundo habitável. Quando os deixamos, estão os senhores a dizer que ninguém deve ir à igreja contra a vontade. Quando os encontramos de novo, estão a dizer que ninguém tem a menor vontade de ir a ela. Quando os deixamos, estão os senhores a dizer que não existe um lugar chamado Éden. Quando os encontramos novamente, estão a dizer que não existe um lugar chamado Irlanda. Começam os senhores por odiar o racional, e acabam por odiar tudo, porque tudo é irracional, e…

Lúcifer saltou para ele com um grito de animal selvagem.

— Ah! — vociferou. — Cada louco com a sua mania. Tu tens a loucura da cruz. Pois ela que te salve!

E com força hercúlea atirou, de costas, o monge fora da nave por sobre a parte mais alta da esfera de pedra. Miguel, com não menos pronta agilidade, agarrou um dos braços da cruz e livrou-se da queda. No mesmo instante Lúcifer baixou uma alavanca, e a nave partiu levando-o a ele só.

— Ah-ah! — uivou. — Que tal esse apoio, meu velho?

— Como apoio — replicou Miguel, asperamente — é, sem sombra de dúvida, muito mais útil que a esfera. Posso saber se o senhor tem a intenção de me deixar aqui?

— Sim, sim. Eu subo, subo — gritou o professor, com incontível excitação. — Altiora peto. A minha rota é para cima.

— Quantas vezes o senhor me disse, professor, que no espaço não há realmente mais alto nem mais baixo? — disse o monge. — Eu subirei tanto como o senhor.

— Certo — disse Lúcifer, olhando por cima da borda da nave. — Posso saber o que pretendes?

O monge apontou para baixo, para Ludgate Hill.

— Disponho-me — disse— a subir a uma estrela.

Os que olham a questão mui superficialmente consideram que o paradoxo é coisa unicamente de gracejadores ou do jornalismo ligeiro. Paradoxo desta índole contém o dito de um galã em certa comédia decadente: “A vida é demasiado importante para levá-la a sério.” Os que olham a questão com mais profundidade ou delicadeza vêem que o paradoxo pertence especialmente a todas as religiões. Paradoxo desta índole está presente em sentenças como: “Os mansos possuirão a terra.” Mas aqueles que vêem e sentem o ponto fundamental da questão sabem que o paradoxo não pertence somente à religião, mas a todas as crises vitais e violentas na prática da existência humana. Claramente perceberá um paradoxo deste gênero todo o que se encontre sus­penso no meio do espaço, seguro por um braço da cruz de São Paulo.

O padre Miguel, apesar da idade, apesar do ascetismo (ou por causa dele, pelo que entendo), era um ancião muito robusto e disposto. E, enquanto pendia de uma barra sobre o vertiginoso vazio do ar, comprovou, graças à mortal inibição inerente ao juízo de quem se acha em perigo, a perdurável e desesperada contradição que implica a simples idéia de coragem. Era um ancião robusto e disposto, e por isso é que não perdeu a serenidade. Sentiu o que sente qualquer homem em tão duro transe de terror: que o risco mais grave é o terror mesmo; a sua defesa possível consistiria somente na frieza à beira do descuido, descuido equivalente quase a uma bravata suicida. A única contingência de salvação consistia em não desejar salvar-se com demasiado desespero. Talvez encontrasse onde apoiar o pé ao descer a tremenda fachada, contanto que não o preocupasse se tais apoios existiam ou não. Se fosse temerário, podia salvar-se; se fosse prudente, permaneceria onde estava, até desprender-se da cruz como uma pedra. E esta antinomia, presente sem cessar no seu espírito, envolvia uma contradição tão ampla e espantosa como a imensa contradição da cruz. Lembrava-se de ter ouvido muitas vezes estas palavras: “Quem perde a sua vida a salvará.” Lembrava-se, com uma espécie delástima, de que por elas sempre entendera que quem perdesse a vida corporal salvaria a vida espiritual. Agora sabia uma verdade sabida de todos os lutadores, caçadores e alpinistas. Sabia que até a sua vida animal só poderia salvar-se graças a uma forte disposição para perdê-la.

Alguém considerará improvável que um ser humano a balançar-se desesperadamente no meio do céu pensasse em certas contradições filosóficas. Mas é perigoso dogmatizar acerca de situações tão extremas. Amiúde elas produzem certa atividade, inútil e sem alegria, do intelecto puro, divorciado o pensamento não só da esperança mas também do desejo. E, se é impossível dogmatizar acerca de tales estados, é ainda mais impossível descrevê-los. Ao espasmo de sensatez e clareza seguiu-se, no espírito de Miguel, um espasmo de terror elementar; o terror do animal que levamos dentro, do animal que vê no universo inteiro um inimigo; e que, saindo vitorioso, se olvida da piedade, como se olvida da esperança se sai derrotado. Daqueles dez minutos de terror não é possível falar com palavras humanas. De novo, porém, começou a apontar na odiosa escuridão um estranho alvor, cinzento e polido como de prata. Desta resignação ou certeza derradeira ainda é menos possível escrever; é coisa ainda mais descomunal que o próprio inferno; é talvez o último dos segredos de Deus. Na mais dura crise de uma agonia insuportável, cai súbito sobre o homem a calma de um contentamento insensato. Não é esperança, sempre entrecortada, romântica, e referida ao porvir; é cabal, e presente. Não é fé, porque a fé, pela sua própria natureza, é impetuosa, e parece unir à fraqueza da dúvida a segurança e a audácia do desafio; é simples satisfação. Não é conhecimento, porque o intelecto parece não tomar parte especial nisso. Nem é (como os idiotas modernos diriam que é) um novo embotamento ou uma paralisia da faculdade de sofrer. Absolutamente não é negativo; é tão positivo como uma boa nova. E, em certo sentido, é verdadeiramente uma boa nova. É quase como se houvesse certa igualdade entre as coisas, um equilíbrio entre as contingências possíveis que não nos é permitido conhecer se não tivermos aprendido a ser indiferentes tanto aos males como aos bens, mas que às vezes se mostra a nós um instante, a modo de derradeiro auxílio na nossa derradeira agonia.

Certamente, Miguel não teria podido dar-se racionalmente conta dessa vasta satisfação sem conteúdo que lhe calava o ser e o enchia até a borda. Sentiu, com uma espécie de lucidez minguada, que a cruz estava ali, que a esfera estava ali, que o zimbório estava ali, que ele ia deixar-se escorregar, e que não pensava nem minimamente em se morreria ou não. Essa disposição misteriosa durou o bastante para impulsá-lo a umaespantosa descida e forçá-lo a prosseguir. Mas antes que tivesse alcançado a galeria exterior mais alta, o terror abateu-se sobre ele seis vezes, como borrasca tenebrosa e tonante. Enquanto buscava chegar a pontoseguro, quase sentiu (como num possível paroxismo de embriaguez) que tinha duas cabeças: uma tranqüila, despreocupada e eficaz; outra que via o perigo como num mapa, e era prudente, cuidadosa e inútil. Imaginara que teria de deixar-se cair verticalmente por toda a fachada do edifício abaixo. Quando caiu na galeria mais alta, sentiu-se ainda tão longe do globo terrestre como se tivesse saltado somente do sol à lua. Deteve-se um pouco, arquejante, na galeria em baixo da esfera, e, batendo atoleimadamente com os calcanhares, andou alguns passos. E andando estava quando um raio lhe fulminou a alma. Um homem, maciço, vulgar, de rosto indiferente e insulso como de burocrata, com uma espécie de uniforme prosaico guarnecido de uma fileira de botões, fechou-lhe a passagem. Miguel não pôde sequer perguntar-se se aquele latagão, de bigode negro e botões de níquel, chegara também numa nave voadora. Sentiu somente que o seu espírito flutuava numa felicidade sem limite por causa daquele homem. Pensava quão belo seria viver naquela galeria para sempre, só com ele. Pensava quanto se deleitaria com os matizes desconhecidos da alma daquele homem, e em escutá-lo, com interesse incalculável, acerca dos matizes desconhecidos da alma de todos os seus tios e tias. Um momento antes estivera para morrer sozinho. Agora vivia com outro homem num mesmo mundo; inesgotável delícia. Na galeria em baixo da esfera, o padre Miguel encontrara o homem mais nobre, mais divino, mais amável dentre todos os homens, melhor que todos os santos, maior que todos os heróis: Sexta-feira1.

Nas confusas cores e músicas do seu novo paraíso, Miguel ouviu apenas, e de modo débil e distante, certas observações que aquele homem tão belo e tão sólido lhe parecia estar fazendo; observações acerca de algo que estava fora de hora e que era contrário aos regulamentos. Pareceu também perguntar como Miguel subira até ali. Evidentemente, o belo homem acreditava, como Miguel, que a terra é uma estrela engastada no firmamento.

Ao cabo, Miguel saciou-se da mera sensação musical produzida pela voz do homem dos botões. Começou a escutar o que dizia, e ainda tentou responder a uma pergunta que, ao que parecia, lhe fizera já várias vezes, e que agora repetia com excessiva ênfase. Miguel percebeu que a imagem de Deus com botões de níquel lhe perguntava como chegara ali. Respondeu que tinha ido na nave de Lúcifer. Ouvida a resposta, a imagem de Deus sofreu uma mudança notável. De dirigir-se a Miguel asperamente, como se tratasse com um malfeitor, passou súbito a falar-lhe com certa solicitude e amabilidade calorosa, como a uma criança. Pareceu especialmente cuidadoso em afastá-lo da balaustrada. Conduziu-o, tomando-o pelo braço, à porta que dava ao interior do edifício, lisonjeando-o o tempo todo. Disse-lhe tanto dos prazeres suntuosos e das diversas vantagens que o esperavam abaixo, que Miguel (apesar de ser escasso o seu conhecimento do mundo) o julgou inverossímil. Miguel todavia o seguiu, ainda que só por cortesia, descendo uma interminável escada de caracol. Em certa altura se abria uma por­ta. Miguel passou-a, e o estranho homem dos botões atirou-se sobre ele e manteve-o imóvel onde estava. Mas Miguel não desejava senão deter-se e admirar. Passara a porta como se entrasse em outro infinito, sob a abóbada de um firmamento feito pelo homem. O ouro, o verde e a púrpura do poente não estavam em nuvens uniformes, mas em forma de querubins e serafins, em terríveis formas humanas, com asas de chama. Os astros não estavam em cima, mas muito em baixo, como estrelas caídas, em constelações ainda não dispersas; a abóbada mesma estava cheia de escuridão. E muito abaixo, ainda mais abaixo que as luzes, se viam, imóveis ou rampantes, grandes e negras massas de gente. A voz de um órgão terrível pareceu estremecer o ar em toda a cavidade; e com ela subiu até Miguel o som de uma voz mais terrível: a pavorosa e perdurável voz do homem a clamar aos seus deuses desde o começo até o fim do mundo. Miguel sentiu algo assim como se ele fosse um deus, e como se todos os clamores lhe estivessem destinados.

— Não, as coisas belas não estão aqui — disse carinhosamente o semideus dos botões. — As coisas belas es­tão abaixo. Venha comigo. Há uma coisa que vai surpreendê-lo muito; uma coisa que precisa ver.

Evidentemente, o homem dos botões não sentia como um deus, razão por que Miguel não tentou explicar-lhe seus próprios sentimentos, e o seguiu docilmente pelo caminho de coleante escada abaixo. Não tinha noção de onde ou em que nível se achava. Ainda estava cheio do frio esplendor do espaço e do que um escritor francês chamou ­brilhantemente “a vertigem do infinito”, quando se abriu outra porta, e com surpresa indescritível se achou no nível familiar, numa rua repleta de rostos humanos, com casas e até lampiões mais altos que a sua cabeça. Sentiu-se súbito feliz, e de chofre indescritivelmente pequeno. Afigurou-se-lhe que tornara a ser criança; baixou os olhos para a calçada, seriamente, qual fazem os pequenos, como se fosse coisa aproveitável para algo divertido. Sentiu em toda a sua vivacidade o prazer de que se privam os orgulhosos: o prazer que não somente acompanha a humilhação, mas que é quase humilhação. Os homens que se livraram da morte por um triz conhecem-no; também os homens cujo amor por uma mulher é correspondido inesperada­mente, e aqueles a que são perdoadas as faltas. Cada coisa em que punha os olhos o alegrava, não esteticamente, mas com o jovial e simples apetite de uma criança comendo doces. Comprazia-se na quadratura das coisas; agradavam-lhe as esquinas, límpidas como se as tivessem acabado de cortar com uma faca. O quadro luminoso das vitrinas das lojas o excitava, como a um pequeno as luzes do palco de uma pantomima que promete. E, como visse uma loja que avançava ostentosamente até a calçada um magote de caixas com potes de conservas, pareceu-lhe tal uma alusão a alegres e magníficos chás servidos numa infinidade de ruas do mundo. Talvez fosse o mais feliz dos filhos dos homens. Porque no insofrível instante que passou pênsil, e prestes a cair, da cúpula de São Paulo, o universo inteiro fora destruído e tornara a criar-se.

De repente, no tumulto das ruas escuras, ressoou oestrépito de vidros partidos. A multidão, com sua misteriosa prontidão de pacóvios, precipitou-se na direção devida, uma agência lúgubre, vizinha à loja dos potes de conserva. O vidro da porta jazia em pedaços no chão. E a polícia já apanhara um moço muito alto, de cabelo preto e liso, olhos negros brilhantes, e um sobretudo cinza, e que com um porrete acabara de quebrar a lua da vitrina.

— Tornaria a fazê-lo — dizia o moço, com o semblante pálido de furor. — Qualquer pessoa teria feito o mesmo. Viram o que fiz? Juro que voltaria a fazer o mesmo.

Então ele, ao toparem-lhe os olhos com o hábito monacal de Miguel, saudou-o com reverência de católico.

— Padre, o senhor viu o que dizem? — exclamou, tremendo. — O senhor viu o que se atrevem a dizer? No princípio não o entendia. E, quando já havia lido a metade, quebrei o vidro.

Miguel não o compreendia. Toda a paz do mundo se lhe refugiara dolorosamente no coração. Os homens não viam nada do mundo novo e pueril que ele vira de repente. Seguiam entregues às antigas disputas, desconcertantes, triviais, inúteis, falando muito uns e outros, sendo tão pouco o que se precisa dizer. Uma inspiração violenta lhe veio repentinamente: sobressaltá-los, no lugar onde estavam, com o amor de Deus. Não sairiam dali até que penetrassem o sabor e o prodígio da suaexistência. Não se iriam daquele lugar senão para retornar a casa, abraçados como irmãos e aclamando a liberdade recuperada. Da cruz que Miguel acabara de deixar provinha a sombra da sua piedade quimérica; e as três primeiras palavras que disse, com a voz de uma trombeta de prata, deixaram as pessoas como petrificadas. Se tivesse, na sua iluminação, falado durante uma hora, talvez pudesse ter fundado uma religião em Ludgate Hill. Mas a pesada mão do seu guia caiu-lhe de súbito sobre um ombro.

— Este pobre homem está desorientado —disse, risonho, ao gentio. — Encontrei-o vagando pela catedral. Diz que veio num navio pelos ares. Há algum policial que se encarregue dele?

Havia um policial para isso. Outros dois se ocuparam do moço alto, com sobretudo cinza; e um quarto se entendia com o dono da loja, que mostrava certa propensão à turbulência. Levaram o moço alto à autoridade competente, aonde o seguiremos no próximo capítulo. E ao homem mais feliz do mundo, meteram-no num sanatório.

—–

1. Sexta-feira é a personagem principal de O Homem que Foi Sexta-feira, romance do mesmo Chesterton. (N. do T.)

Deixe uma resposta