FREUD – O Jogo da Psicanálise I

FREUD – O Jogo da Psicanálise I

Autor: António Campos – Presidente da Sociedade Chesterton Portugal http://sociedadechestertonportugal.blogspot.com/

“As falácias por serem modas não deixam de ser falácias.”  Chesterton

Para melhor avaliarmos as críticas contundentes que Chesterton faz a Freud, é indispensável uma primeira aproximação ao seu pensamento e personalidade. (1)

Sigmund Freud (1856-1939), médico neurologista, foi o fundador da teoria psicanalítica. Foi muito influenciado na faculdade de medicina por um professor darwinista, C. F. Claus e, no que diz respeito à sexualidade, por Schopenhauer e Nietzsche. Iniciou os seus estudos sobre fisiologia sexual com a disseção do sistema reprodutor masculino de enguias, em 1881, mas não obteve resultados científicos relevantes. Diria sobre Nietzsche: “Na minha juventude ele representava a nobreza que eu não conseguia alcançar.”

Apesar da sua responsabilidade na morte do amigo íntimo E. Fleischl-Marxow, que a seu conselho se viria a tornar viciado em cocaína a partir de 1885, o próprio Freud a tomava, diluída em água, e atestava o seu carácter inofensivo. Escreve à sua noiva Martha Bernays em 1885: “Quando nos reencontrarmos, eu serei um homenzarrão selvagem com cocaína no corpo.” Adopta a cocaína e a hipnose para o tratamento de doenças neurológicas e acaba sendo considerado um charlatão pelos seus colegas. Utilizava a cocaína como terapia de uma “doença” a que chamava neurose nasal reflexa e encaminhou vários supostos doentes para serem operados ao nariz, por esta suposta doença, pelo único colega seu amigo, W. Fliess. Uma das cirurgias teve um desenlace fatal, a de Emma Eckstein.

O falecimento do pai, em 1896, conduziu-o à análise dos seus próprios sonhos e ao reviver da sua infância, pois deste modo acreditava poder combater a sua própria neurose. Na obra que escreve, A Interpretação dos Sonhos, uma autoanálise, Freud afirma que a génese dos seus próprios problemas psiquiátricos se encontra numa atracção sexual pela mãe e numa hostilidade para com o pai; desta autoanálise nasceu o famoso Complexo de Édipo.

Na sua teoria geral sobre o comportamento humano identifica duas pulsões ou forças: um princípio do prazer ou eros e um princípio da realidade ou tanatos. Do conflito entre estes dois princípios resultaria o comportamento e as neuroses ou repressões. A posição de Freud relativamente a estes princípios não é neutral. Ele identifica o eros como um princípio vital e o tanatos como um princípio de morte, de negação. O tratamento das neuroses ou a sua evicção residiria no predomínio do eros sobre o tanatos, que é como dizer, o predomínio dos instintos sobre a razão.

Nietzsche não o diria melhor. Libertação sexual, um eufemismo para libertinagem. A ética, que para Nietzsche era apenas efeito do ressentimento dos débeis, era para Freud uma psicologia de repressão.

Estas pulsões agiriam na mente humana, que possuiria três componentes primários:

-O id, local dos instintos e das pulsões primárias, responsável pelos desejos ou pulsões mais primitivas e perversas. É a sede das pulsões: a orientação sexual, libido ou eros e a pulsão de morte ou tanatos.

-O Superego, contraria e limita o id e representa os pensamentos morais e éticos internalizados na criança pela nefasta educação dos pais.

-O Ego, permanece entre ambos e gere o conflito entre o id e o superego. É a ele que Freud chama a consciência e, da boa gestão deste conflito, nasce o equilíbrio. No ego manifesta-se o id, sob forma daquilo a que Freud denomina “a necessidade de satisfazer o prazer e evitar a dor”. A arte e a religião são manifestações de uma libido sempre insatisfeita.

Nesta gestão é crucial a abolição do sentimento de culpa e a anulação da ética judaico-cristã. Neste, como noutros aspectos é mais uma vez evidente a influência de Nietzsche:

“A dor da consciência é indecente!”

Toda a religião fica reduzida a uma neurose obsessiva:

“A tentativa de obter uma forma de proteção contra o sofrimento mediante uma reelaboração ilusória da realidade é empresa de um grupo considerável de pessoas. As religiões humanas têm que ser classificadas no grupo das ilusões massivas deste tipo”, O Porvir de uma Ilusão, 1927.

O seu ódio religioso era particularmente dirigido ao cristianismo:

“Eu não creio que Cristo fosse um grande mestre. Ele falhou como professor e como divindade. Os seus ensinamentos são ingénuos e destrutivos. Qual dos seus ensinamentos é realista? Amar o nosso próximo como a nós mesmos? Isso é uma tola impossibilidade! Oferecer a outra face?…Para seguir o martírio de Cristo porque os mansos herdarão a terra? Claro que sim, serão nela sepultados! Acham coincidência que Cristo instrua os seus discípulos a serem como crianças para entrarem no Reino de Deus? Isso aconteceu porque o homem nunca aceitou que está só no universo e a religião transforma o mundo inteiro no seu infantário!”

A influência de Nietzsche é evidente:

“Nietzsche tinha um conhecimento mais profundo de si mesmo do que qualquer outro homem que já viveu ou que venha provavelmente a existir.”

A essência do freudismo é precisamente a tentativa de eliminação do sentimento de culpa. Para Freud resulta da tensão entre o desagradável superego e o ego. Não é pertença do homem, não lhe é intrínseco, mas resulta de imposição social. Por isso o homem deve-se livrar dele para dar livre curso às suas fantasias sexuais.

Freud acreditava que todos os seres humanos nascem polimorficamente perversos. O desenvolvimento sexual processar-se-ia em etapas, de acordo com a área em que a libido estivesse mais focalizada: a etapa oral (chupeta), a etapa anal (retenção de fezes), a etapa fálica (manipulação de órgãos genitais), o complexo de Édipo com a focalização incestuosa na mãe.

Freud teve enorme êxito com esta construção da teoria psicanalítica por várias razões:

-Talento literário e imaginação.

-Messianismo: ele acreditava ter a chave secreta para interpretar a vida humana, uma espécie de gnosticismo. Este gnosticismo mereceu-lhe acolhimento junto dos intelectuais. Nada ultrapassa o orgulho narcísico de um intelectual se considerar um eleito, um sábio, separado dos outros homens e conhecedor dos seus segredos, no fundo jogar o papel de um deus.

-Com Marx, Nietzsche, Freud e Einstein, o mundo tinha deixado de ser o que parecia ser, e não se podia confiar na razão, na ética ou na tradição (interpretação da História a partir de uma atitude de suspeita): chegara a altura dos instintos.

-O relativismo moral e o anticlericalismo atingira o seu apogeu. Allan Bloom escreve: “Vi crescer neste país o relativismo de valores num grau que ninguém poderia antecipar.” Nos filmes de Woody Allen tropeça-se constantemente em neuroses de índole sexual que são ultrapassadas apenas com boa vontade.

-A análise do que está oculto ou privado, como o mundo onírico ou o sexo, sempre fascinaram o homem, sempre foram um filão inesgotável de inspiração na arte e na literatura.

Após a popularidade, começaram as dificuldades:

-Os fenomenologistas atacaram a suposta natureza científica da teoria psicanalítica ao revelar o seu fundo apriorístico e artificial- no fundo o psicanalista encontra apenas o que espera encontrar.

-Os comportamentalistas sublinharam que Freud neurotizou a sexualidade ao associá-la a incesto, perversão e transtornos mentais. Enfatizaram a elaboração de uma conclusão generalista a partir de dois factos particulares: a obra clássica “Édipo Rei” de Sófocles e a relação particular de Freud com o pai e com a mãe- uma falha grave no método científico.

-Karl Popper desmascarou a natureza não científica do trabalho de Freud: em vez de achados altamente específicos, que pudessem ser postos à prova por meio da redução ao absurdo ou pela submissão ao teste da não contradição, que conduzissem a um quadro global, Freud preferiu a elaboração de teorias de carácter geral a partir de convicções pessoais e de experiências particulares- isso impossibilita a sua comprovação.

-William Sargant demonstrou, a partir da sua experiência com traumatizados de guerra, que doentes altamente traumatizados são altamente sugestionáveis. A psicanálise pode apenas provocar estados de alta sugestionabilidade, em que os doentes expressam as crenças do próprio psicanalista.

-Freud caracteriza o esquecimento das atividades auto-eróticas durante a infância pelo receio de castração, uma vez que as experiências auto-eróticas sem objeto, se reportam remotamente à mãe como objeto. Mas Freud não explica em que medida as atividades auto-eróticas são mais reprimidas do que aquelas que se acompanham de fantasias incestuosas.  Nem tão pouco porque não substituiu a ideia perniciosa de que alguém foi abusado pela mãe, pela ideia mais inócua de que apenas a desejou.

-Voloshinov e G K Chesterton foram as únicas pessoas que salientaram o erro clamoroso de imputar a uma criança o horror do incesto, que é, na verdade, património de uma civilização.

“Uma moda consiste em conceber tudo acerca do nascimento como estando relacionado com o sexo, como outros poderiam achar que tudo consiste em apanhar minhocas…estas modas vão-se muito rapidamente, e nem é preciso picar as bolas de sabão porque elas rebentam por si.

Há, contudo, uma consideração que se deve fazer.

É típico destas manias que elas não conseguem convencer a mente, mas elas turvam-na. Sobretudo escurecem-na. Todas estas descobertas tremendas e temporárias têm o fascínio singular de que não são apenas degradantes, mas também deprimentes. Nenhuma leva em conta as verdadeiras e sérias conclusões deste mundo. Mas cada uma pode provocar feridas profundas e desastrosas na mente do homem comum…em vez de encontrarmos perdão para os nossos pecados, pecados que cometemos por nossa própria culpa, obtemos a mais fantástica lenga-lenga mental, envolvida no manto da ciência, que nos explica que os nossos pecados não são pecados, e o que quer que seja que tenhamos feito, não foi por nossa culpa. O mal perpetuado por esta falácia tem duas consequências: nós tornamo-nos menos responsáveis pelas nossas acções pecaminosas e aguardamos um perdão que nunca chega. É o casamento de Freud com Darwin, uma pseudo-ciência com outra.” (Chesterton, The Century Magazine, 1923.)

Mais recentemente, George Steiner afirmaria: “A teoria de meu pai como rival sexual e de um certo complexo de Édipo universal parece-me um melodrama irresponsável.”

Freud que procurava fornecer uma confirmação científica para as afirmações formuladas por Nietzsche, percebeu o perigo da insustentabilidade científica do seu trabalho e o perigo de ruína.

Escreve a Jung: “Temos que fazer da teoria sexual um dogma, uma fortaleza inexpugnável.”

Chesterton não o poupa por abandonar os argumentos: “Os ignorantes chamam-lhe Freude, os eruditos chamam-lhe Fróide; eu chamo-lhe Fraude”. Assim, redondinho, sem eufemismos!

Em conclusão:

Freud forneceu um pensamento de tipo ideológico ou filosófico, não uma teoria científica.

Porque extrapolou da sua experiência pessoal para todos os neuróticos, depois para todos os doentes mentais e, finalmente, para todos os indivíduos.

Porque as suas observações não são repetíveis sob as mesmas condições, nem universais; não são verificáveis, não obedecem ao princípio da não contradição.

Porque o seu método padece de indução e de conceitos a priori.

Porque a sua formulação de id, ego e superego encontra semelhanças gritantes com os conceitos cabalísticos e gnósticos de soma, psyque e pneuma.

Porque a sua elaboração parte de um objetivo apriorístico, não obtido através da ciência: a de fornecer um suporte fisiológico ao conceito cínico de sexualidade, compromisso e culpa, formulado anteriormente por Nietzsche.

Uma criança cujo pai bate na mãe seguramente desenvolve sobre ele um conceito muito diferente daquela outra criança cujo pai partilha carinho e amor com a sua mãe. Repulsa pelo pai que bate na mãe é como a repulsa pelo intruso que nos assalta a casa; não é como a simpatia com alguém que convidamos para jantar.

Abordemos Freud com os olhos de um ateu, numa perspectiva sem Cristo:

Aquilo que Freud nos propõe é o abandono de um relato religioso de séculos, feito de tradição oral e escrita, alguma datada, como o rolo de Isaías de Qumran, de experiências particulares e coletivas de comunicação com a divindade, por parte de um povo, o judeu, de onde era originário, que se conta entre os povos mais instruídos e ecléticos da Terra, com uma formação que se assemelha à formação militar, uma disciplina religiosa escrupulosa guardada incólume por séculos, por milhões de homens instruídos. Muitos descreveram ter visto e até falado com Deus, mas nunca nenhum descreveu um encontro com o Id…

E o que nos dá em troca?

Uma fantasia saída da sua cabeça, a que nem remotamente se poderá chamar ciência.

Em desespero de causa apela para que a aceitemos como dogma. Nem Epicuro tinha ido tão além. Recusa ver o desejo sexual como parte de algo mais vasto a que se chama amor.

Ignora ostensivamente que a primazia dos instintos sobre a razão nega o compromisso e induz sofrimento no outro.

O seu conceito de sexualidade é cínico, frio, impessoal, utilitarista, hedonista, mecânico, bestial, sem consideração pelo outro, sem amor. O sexo aumentou tanto que se tornou um vício e a finalidade mais importante, senão única, da vida. O amor diminuiu tanto que ficou entregue a homens fracos, ignorantes e tíbios.

Para um céptico honesto ainda é mais difícil vislumbrar o vulto imerso do id do que o brilho da face de Cristo. Só ao diabo pode lembrar, chamar a cada criança o assassino de seu pai.

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