George MacDonald e sua obra

George MacDonald e sua obra

Por G. K. Chesterton

Taduzido por William Campos da Cruz

Publicado em 11 de junho de 1901.

(Original disponível em: http://www.agapebook.ru/en/6-3-chest.shtml)

Chesterton escreveu sobre George Macdonald duas vezes: uma em 1901; antes, portanto, de sua conversão (o texto que apresentamos abaixo). E outra, em 1924, já publicado aqui (http://chestertonbrasil.blogspot.com/2011/01/introducao-de-chesterton-ao-livro.html). Nesta segunda vez, ele lhe presta um verdadeiro tributo, ao escrever a introdução à sua biografia, escrita por Greville Macdonald. Nela, Chesterton fala do papel influência permanente que o autor exerceu sobre ele, uma influência tal que não foi ofuscada nem por sua conversão ao catolicismo.

Curiosamente, C. S. Lewis, outro notável escritor, também atribui sua conversão ao cristianismo à leitura das obras de George Macdonald e do próprio Chesterton! (Nota do tradudor)

  

Um a um, os grandes romancistas da era vitoriana têm renascido para a democracia na forma de edições populares, de modo que, agora, qualquer aspirante a limpador de chaminés pode ter o núcleo de uma biblioteca muito boa por apenas alguns xelins. Há um escritor a quem o Sr. Newnes[1] só notou dessa maneira e que é, salvo engano, um dos homens mais notáveis de nosso tempo. O Dr. George MacDonald será redescoberto um dia, como Blake[2] o foi – um outro homem de gênio, embora artisticamente imperfeito. Até lá, porém, ele será, também como Blake, negligenciado, desprezado e explorado industrialmente por pessoas que querem tomar emprestadas algumas ideias. Se ser um grande homem é manter o universo em sua cabeça ou em seu coração, o Dr. MacDonald é grande. Nenhum homem traz consigo uma atmosfera heroica com tanta naturalidade. Certa vez, ele encenava o papel de Generoso, personagem de “O peregrino”[3], e a mera possibilidade de que isso acontecesse já é simbólica, pois não tal coisa seria possível a qualquer outro homem moderno. O ideal de Matthew Arnold[4] numa armadura reluzente ou do professor Huxley[5] movendo uma espada diante da ribalta não nos impressionaria com gravidade genuína. Mas o Dr. MacDonald parecia uma figura elementar, um homem desligado de qualquer época particular, uma personagem de um de seus próprios contos de fadas, um verdadeiro místico a quem o sobrenatural era natural.

Muitos escritores religiosos escreveram alegorias e contos de fadas que deram origem à convicção geral de que nada mostra tão pouca espiritualidade quanto uma alegoria, e nada contém tão pouca imaginação quanto um conto de fada. Mas o Dr. MacDonald está separado destes por um abismo de profunda originalidade de intenção. A diferença é que o conto de fadas comum é uma alegoria da vida real. Os contos da vida real do Dr. MacDonald são alegorias, ou versões disfarçadas, de seus contos de fadas. Não é que ele veste os homens e os incidentes como cavaleiros e dragões, mas ele considera que os cavaleiros e dragões, de fato existentes no mundo eterno, estão aqui vestidos como homens e incidentes. Para ele, não é a coroa, o capacete e a auréola que são a fantasia; é a cartola e o fraque que são, digamos, o disfarce dos conspiradores no palco terrestre. Seus contos alegóricos de gnomos e grifos não encobrem com um véu; eles o rasgam. Num desses estranhos livros meio indecifráveis, como o livro de um profeta, publicado por ele já em idade avançada, o herói é apresentado como uma gloriosa roseira, e diz-se que ela permaneceu no mesmo lugar, como um piano numa sala de visitas. Compreender essa ideia é compreender George MacDonald, desde que nos lembremos de que não é a roseira que é o símbolo, mas o piano.

No livro com que o Sr. Newnes iniciou a publicação popular da obra do Dr. MacDonald, “O Marquês de Lossie”, isso fica muito claro. Não é uma de suas melhores obras; artisticamente falando, está repleta de defeitos. Mas quase todos os defeitos de seu romance são as virtudes de um conto de fadas. A clareza da questão ética, a guerra límpida da luz contra as trevas, sem lusco-fusco, ceticismo ou timidez; o senso elementar da paisagem e do homem como filho da Natureza, o heroísmo imaculado dos heróis, a patente deformidade dos personagens maléficos; tudo isso, enfim, mostra um espírito alerta ao mundo com o olhar jovem, inocente e terrível de Jack, o Matador de Gigantes.[6] O Dr. MacDonald é um poeta bom demais para ser um romancista do mais alto grau, pois a glória do romancista é olhar para o mundo de centenas de pontos de vista; a glória do poeta é vê-lo desde um único. O Dr. MacDonald vê o mundo banhado num terrível carmesin de amor divino. Ele não é capaz de descrever o cínico melhor do que Shelly[7] poderia ter descrito um merceeiro batista ou Keats[8], um comerciante da cidade. Os vilões da moda no romance do Dr. MacDonald não são as bestas do campo, fúteis, bem-humoradas e previsíveis – tão dignas e calmas quanto as vacas – que tais homens realmente são. Eles são ininteligíveis, criaturas feias, como os dragões de um conto de fadas que devoram donzelas por um capricho sobrenatural. Eles existem para ser combatidos, não estudados.

Mas o ponto interessante sobre “O Marquês de Lossie”[9] é que este contém todo o segredo da obra do Dr. MacDonald: é a história de um jovem pescador escocês que, em sua invencível simplicidade e honra, vai a uma casa da moda em Londres, a fim de resgatar uma elegante dama (que ele sabe ser sua meia-irmã) de um infeliz casamento de conveniência. A história, como eu disse, não é contada com a plenitude da arte do Dr. MacDonald. É difícil apontar uma única cena que esteja perfeitamente proporcionada, e na qual não haja filosofia demais e psicologia de menos, embora toda a história seja tão vívida e tensa como uma história policial. Nós a lemos com um profundo sentimento de que algo grandioso nos excita, e não podemos dizer o que é. Isso só vai ficar claro para nós se acontecer de nos lembrarmos do grande conto de fadas de MacDonald, “A princesa e Curdie”[10]. Trata-se da história de um menino garimpeiro que, sob as instruções misteriosas de uma fada-vovozinha, parte para salvar um rei e uma princesa dos planos de uma cidade monstruosa e má. De repente, percebemos que as duas histórias são a mesma, que uma se passa dentro da outra, e que o romance realista é a concha e o conto de fadas é a pérola. Toda a estranheza, toda a digressão, toda a indelicadeza e toda a lerdeza do incidente simplesmente querem dizer que o herói almeja jogar fora o chapéu preto e o casaco de Mawlcolm MacPhail e declarar-se como Curdie, o campeão das fadas. Toda a emoção da história reside no fato de que sabíamos que ele era assim.

O Dr. MacDonald entra no reino das fadas como um cidadão que volta para casa. Mas, embora seja um místico genuíno e um genuíno celta, ele não reapareceu no movimento do misticismo celta de nossos dias[11], sobretudo por causa de uma ideia singular que dominou tal movimento: a ideia de que o dever de um místico é ser melancólico. Levará um século ou dois, talvez, para que se perceba uma verdade que o Dr. MacDonald, imagino, sempre soube: a melancolia é uma bobagem se comparada à seriedade da alegria. A melancolia é negativa e tem a ver com trivialidades como a morte; a alegria é positiva e tem a resposta para o renovo e para a perpetuação do ser. A melancolia é irresponsável. Ela pode assistir ao universo cair em pedaços; a alegria é responsável e sustenta o universo no vazio do espaço. Essa concepção de vigilância do Poder universal permeia todos os romances de MacDonald com uma insondável gravidade de completa felicidade, a gravidade de uma criança que brinca. Um brilho curioso impregna seus livros: as flores parecem chamas coloridas soltas do coração flamejante do mundo – cada arbusto é uma sarça ardente, ardendo pela mesma razão que a de Moisés. Este sentido de um segredo perfeito quase dolorosamente mantido pelo universo é o que envergonha o fastio dos místicos modernos. Como se alguém que soubesse um segredo pudesse estar enfastiado!

Há outra questão artística em que o Dr. MacDonald deu uma contribuição profundamente original, e numa direção nunca seguida. Trata-se de sua percepção do grotesco no mundo espiritual. Ele escreveu poemas infantis cheios de um tipo de anarquia noturna, como os sonhos absurdos. A coruja diz:

I can see the wind; now who can do that?

I can see the dreams that he has in his hat.

Who else can watch the Lady Moon sit

On her nest the sea, all night, but the Owl?

[Posso ver o vento. Quem mais o pode ver?

Posso ver os sonhos que sua cachola pode ter.

Quem, senão a coruja, pode ver a Lua pousar

toda noite em seu ninho sobre o mar?]

Esse casamento extravagante de ideais não tem um sacerdote que o possa celebrar, exceto a livre imaginação. Mas a originalidade do Dr. MacDonald reside nisto: enquanto outros autores modernos escreveram histórias de nonsense, ele é o único que tem escrito o que se pode chamar de “nonsense celestial”. O mundo de “Alice no País das Maravilhas” é de uma loucura puramente intelectual: há ocasiões que, de fato, devem ocorrer a qualquer homem de imaginação: momentos em que de repente alguém se sente desprotegido e aterrorizado num mundo de loucura matemática, quando se sente que a desrazão é mais fria e mais cruel que a razão e quando se percebe a profunda verdade de que nada no mundo é tão desolador quanto a leveza ilimitada. Mas o mundo de extravagâncias do Dr. MacDonald, onde a lua choca os navios e as ostras se abrem para cantar, é penetrado pelo calor do “amor do mundo”, a irmandade cósmica das crianças. Até os monstros são bichinhos de estimação neste enorme berçário.

Como eu disse, o Dr. MacDonald será descoberto nalgum tempo por vir. Há homens e movimentos cujo momento em que passaram estão no ponto mais distante de nós, como um ponto de uma roda que acaba de tocar ao chão. Estamos vivendo agora entre poetas incapazes de conceber o poder universal contido em sentimentos maiores que os deles mesmos. Não podem imaginar, nas palavras grandiloquentes de Dante, “o amor que dirige o sol e as estrelas”, pois o amor sobre o qual escrevem seria incapaz de dobrar um cardo; mas o grande pensamento que o Dr. MacDonald diz, mas deixa não dito, num nó de otimismo fatalista nunca deixará completamente de nos assombrar e nos atacar.

Numa centena de momentos ímpares, em ruas tortuosas, nos campos sob o crepúsculo, nas salas de visitas à luz de velas, virá sobre nós a noção confusa, e ainda assim reconfortante, de que nós e todas as nossas filosofias nacionalistas estão no coração de um conto de fadas e desempenha nele um papel excepcionalmente bobo.

[1] Sir George Newnes, notável editor inglês. Informações: http://en.wikipedia.org/wiki/George_Newnes

[2] Poeta inglês William Blake. Mais informações: http://en.wikipedia.org/wiki/William_blake

[3] The Pilgrims Progress, de John Bunyan. Há diversas edições em língua portuguesa. Uma edição comentada foi publicada pela editora Fiel: http://www.editorafiel.com.br/detalhes.php?id=2034

[4] Poeta e crítico cultural inglês: http://en.wikipedia.org/wiki/Matthew_Arnold

[5] Provavelmente o escritor Leonard Huxley, pai de Aldous Huxley. Informações: http://en.wikipedia.org/wiki/Leonard_Huxley_(writer)

[6] Conto de fadas britânico: http://en.wikipedia.org/wiki/Jack_the_Giant_Killer

[7] Referência ao poeta britânico Percy Bysshe Shelley. Mais informações: http://en.wikipedia.org/wiki/Percy_Bysshe_Shelley

[8] Poeta inglês John Keats. Mais informações: http://en.wikipedia.org/wiki/John_Keats

[9] Texto na íntegra: http://www2.hn.psu.edu/faculty/jmanis/gmacdonald/The-Marquis-of-Lossie6x9.pdf

[10] Texto integral disponível em: http://www2.hn.psu.edu/faculty/jmanis/gmacdonald/The-Princess-and-Curdie6x9.pdf

[11] Lembre-se, Chesterton está escrevendo em 1901.

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