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Inge versus Barnes

Inge versus Barnes

Gilbert Keith Chesterton

Traduzido por Antonio Emilio Angueth de Araujo

Capítulo do livro The Thing (A Coisa), publicado em 1929

Publicação autorizada pelo blog do Angueth

Nenhum de nós, espero, jamais desejou ser injusto com o deão Inge:[1] embora em tais lutas às vezes cai a proteção da espada.[2] E uma cruel injustiça está sendo feita, na sugestão amplamente ventilada de que ele concorda com o Dr. Barnes. Tais coisas não deveriam ser ditas levianamente de qualquer cavalheiro. De acordo com a atual lenda, pelo menos, o Soturno Deão, mesmo quando decide abençoar, acaba amaldiçoando. Mas se há um único ser humano a quem se possa imaginar que ele queira abençoar, este é seu aliado, o bispo Barnes de Birmingham.[3] Mesmo assim, a aliança serve somente para amenizar a maldição, não para assegurar a benção. Se pudéssemos usar termos populares a respeito de tais dignatários eclesiásticos, seriamos tentados a dizer que o deão considerou necessário desancar o bispo. Uma interessante resenha do deão sobre o recente livro de sermões do bispo contém, claro, certo número de elogios assaz convencionais e certo número de grosserias, poderíamos dizer implicâncias, com várias outras pessoas incluindo grande parte da cristandade. Mas nas duas questões notáveis e surpreendentes em que o bispo Barnes foi condenado pelos católicos, ele é quase tão fortemente condenado pelo Deão da Catedral de São Paulo. O deão Inge é muito inteligente e culto para fingir ter muita paciência com o contra-senso de testar a Transubstanciação por experimentos químicos ou psíquicos. Ele tenta revelar para seu colega da “Broad Church”[4], tão gentilmente quanto possível, que este caiu no ridículo. Mesmo levando em conta tais delicadezas entre parceiros, a verdade não poderia ter sido dita mais simplesmente e melhor. Ele sumariamente indicou ao bispo a responsável definição da doutrina encontrada no livro de Padre Rickaby sobre metafísica; e secamente observa que ela é muito mais sutil e plausível do que parece se dar conta o bispo. Ele também acrescenta, com uma amarga e muito atraente franqueza, que é muito desastroso desafiar os católicos sobre se a Missa lhes faz qualquer bem espiritual, pois eles certamente se uniriam na resposta afirmativa. Depois destas admissões francas e interessantes, é uma questão de mera rotina, e quase de respeitabilidade, que o deão devesse concordar com o bispo de que todo esse sacramentalismo é grandemente deplorável; que pessoas inteligentes que ele conhece que dizem encontrar Cristo na Missa e não no Serviço Matinal devem ser “idólatras naturais” e que é “óbvio” que o Santíssimo Sacramento tem uma afinidade com as religiões inferiores. Também com as classes inferiores. Isso, imagino, é o que o deão realmente considera tão desagradável.

A questão é, contudo, que o deão definitivamente desdenha o bispo em relação à única grande questão em que os jornais lhe têm dado grande repercussão. E ele faz exatamente o mesmo, num grau menor, numa questão secundária e menor que tem similar repercussão. Falo, é claro, da questão da evolução. O deão, evidentemente, acredita na evolução, como o faz muitas pessoas, católicas, protestantes e agnósticas. Mas embora acredite em evolução, ele não acredita na evolução do bispo Barnes. Ele comenta com admirável clareza e decisão sobre a tolice de identificar progresso com evolução; ou mesmo mera complicação com progresso. Nada poderia ser melhor do que as breves e picantes frases em que ele demonstra totalmente aquela idealização da teoria científica, que é de fato simples ignorância a seu respeito. Em palavras simples, o bispo Barnes, apesar de toda sua pompa, sabe tão pouco de evolução quanto de Transubstanciação. O Deão da Catedral de São Paulo não revelou toda esta verdade em palavras simples, é claro; mas ele conseguiu fazê-lo muito simplesmente. Sua franqueza neste caso tem também de ser contrabalançada com expressões gerais de concordância com o bispo, e com expressões mais fortes de discordância com todos os demais, especialmente com os inimigos do bispo. O deão alude desdenhosamente ao mundo ortodoxo, como se este mundo necessariamente repudiasse certas teorias biológicas; ou como se importasse muito se ele o fizesse. A diferença entre a Broad Church e a Igreja Católica não é que aquela considere a evolução verdadeira e esta considere-a falsa. É que aquela considera a evolução uma explicação e esta sabe que ela não é uma explicação. Assim, aquela a considera de importância capital; e esta algo sem importância. Sendo incapaz de perceber este princípio, o deão tem de voltar-se para o antigo jargão vitoriano; e dizer que uma nova descoberta científica passa por três estágios: o de ser considerada um absurdo; o de ser considerada anti-Escrituras; e o de ser descoberta muito antiga e familiar. Ele poderia ter acrescentado que há ainda um quarto estágio; o de ser descoberta muito falsa.

Pois esse é o fato muito simples que ambos, o deão Inge e o bispo Barnes, omitiram; e que parece ser tão completamente desconhecido pelo racionalismo lúcido de um quanto pelo secularismo mais rude do outro. O arcebispo de Canterbury não está apenas certo em sugerir que velhos cavalheiros como ele tiveram a evolução como uma coisa familiar durante toda a vida; mas ele poderia ter adicionado que eles estavam muito mais certos sobre ela na parte inicial de suas vidas do que estarão no final delas. Aqueles dentre eles que realmente leram as mais recentes investigações e especulações européias sabem que aquele darwinismo está cada dia mais se tornando muito menos um dogma e muito mais uma dúvida. Aqueles que não leram as especulações e dúvidas simplesmente continuam repetindo o dogma. Enquanto o Dr. Barnes estava pregando sermões cuidadosamente fundamentados na biologia de 50 anos atrás, o Sr. Belloc estava provando conclusivamente perante todo o mundo que o Sr. H.G. Wells e o Sr. Arthur Keith desconheciam a biologia de 5 anos atrás. Em resumo, é muito justo, como dissemos, insistir na diferença entre o deão Inge e o Dr. Barnes; que é análoga à diferença entre Huxley e Haeckel. Todo mundo estaria melhor e mais feliz se o deão Inge fosse conhecido como professor Inge; e se o Dr. Barnes não fosse somente um professor, mas um professor prussiano. Então ele poderia ser alardeado juntamente com outros bárbaros que atacam a cristandade, sem ter o privilégio eclesial de realmente perseguir cristãos. Mas há pagãos e pagãos e há perseguidores e perseguidores. O deão é um pagão romano do Senado. O bispo é um pagão teutão dos pântanos e brejos. O deão desgosta da tradição cristã com o mesmo espírito de Diocleciano e Juliano. O bispo desgosta dela com o espírito mais simples de um pirata dinamarquês fitando o rígido mistério da Igreja Romana britânica. Mesmo a causa comum e a máxima geral de CHRISTIANI AD LEONES nem sempre, imagino, reconciliou romanos e godos. Essas comparações históricas podem parecer irreais; e de fato, num certo sentido ambos estão muito ligados aos seus respectivos períodos históricos. Eles são ambos muito vitorianos; mas mesmo aqui há uma diferença e uma superioridade. A superioridade do deão é que ele sabe disso e o diz. Ele é homem o suficiente para gabar-se de ser vitoriano e não ligar de ser chamado de reacionário. Enquanto que o bispo parece realmente cultivar a verdadeiramente extraordinária noção de que suas noções são novas e atualizadas.

É claro que eles têm uma filosofia em comum; e seria uma simplificação barata chamá-la de materialismo. De fato, seríamos quase tão superficiais em falar de materialismo quanto eles de falarem de mágica. A verdade é que o estranho fanatismo, que leva o bispo a bradar contra e atacar todo sacramentalismo como se fosse mágica, é em sua essência interior o próprio reverso do materialismo. Realmente, não é nem um pouco tão saudável quanto o materialismo. A raiz desse preconceito não é tanto uma crença na matéria, mas um tipo de horror à matéria. O homem com essa filosofia está sempre pedindo para que a adoração seja totalmente espiritual, ou mesmo totalmente intelectual; porque ele sente realmente um desgosto com a idéia de coisas espirituais tendo um corpo e uma forma sólida. É provável que a suposição de que Deus possa se tornar pão e vinho lhe cause um tremor místico; embora eu nunca tenha entendido porque dizer que Deus poderia se tornar carne e sangue não deveria lhe causar o mesmo tremor. Mas esses pensadores sendo ou não lógicos em sua filosofia, penso que isso é a sua filosofia. Ela tem uma longuíssima história e um antigo nome. Não é materialismo, mas maniqueísmo.

O deão verdadeiramente expressou uma verdade inconsciente quando disse que os sacramentalistas são “idólatras naturais”. Ele recua diante disso não somente porque é idolátrico, mas porque é natural. Ele não suporta pensar quão natural é o anseio pelo sobrenatural. Ele não tolera a idéia do sobrenatural realmente trabalhar através dos elementos da natureza. Inconscientemente, sem dúvida, mas muito teimosamente, esse tipo de intelectual sente realmente que sua alma pode pertencer a Deus, mas seu corpo somente ao demônio ou à besta. Esse horror maniqueísta da matéria é a única razão INTELIGENTE para qualquer rejeição abrangente das maravilhas sobrenaturais e sacramentais. O resto é jargão, repetição e argumentação em círculo; todo o insustentável dogmatismo sobre a ciência impedir os homens de acreditar em milagres; como se a CIÊNCIA pudesse impedir os homens de acreditar em algo que a ciência não professa investigar. Ciência é o estudo de admitidas leis da existência; ela não pode provar uma negativa universal sobre se aquelas leis podem ser suspensas por algo admitidamente acima delas. É como se disséssemos que um advogado conhece tão bem a onstituição americana que sabe que não pode nunca haver uma revolução nos EUA. Ou como se um homem dissesse que é um estudante tão íntimo do texto de Hamlet que está autorizado a negar que um ator possa deixar cair o crânio e sair correndo quando o teatro pegar fogo. A constituição segue certo curso, contanto que esteja lá para segui-lo; a peça segue certo curso, contanto que seja encenada; a ordem visível da natureza segue certo curso se não há nada por trás que possa impedi-la. Mas esse fato não joga nenhuma luz sobre se HÁ algo por trás para impedi-la. Esta é uma questão de filosofia e metafísica e não de ciência material. E por respeito à inteligência de ambos reverendos cavalheiros, e especialmente em respeito à alta inteligência do Deão da Catedral de São Paulo, prefiro pensar que eles se opõem ao que chamam de mágica como filósofos consistentes e não como cientistas inconsistentes. Prefiro pensar que eles estão pensando como os grandes gnósticos, budistas e outros místicos da obscura mas digna tradição histórica; ao invés de estarem cometendo erros lógicos elementares no interesse da ciência popular mais rasteira. Posso até entender ou imaginar o tremor de repulsão que os domina na presença do divino materialismo da Missa. Mas ainda penso que eles seriam mais consistentes e completos se declarassem abertamente seguirão seu princípio até o fim; e dissessem, como os mussulmanos dizem sobre o Natal, “Longe Dele ter um filho”,[5] ou os aterrorizados discípulos que clamavam, “Longe de Ti esteja isso”[6], quando Deus estava subindo para ser crucificado.

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[1] Ver RAÍZES DA SANIDADE. (N. do T.)

[2] Chesterton refere-se aqui à esgrima, em que as espadas tem uma proteção na ponta, para impedir o ferimento do oponente. (N. do T.)

[3] Ernest William Barnes, eminente matemático inglês, Fellow da Real Sociedade de Londres e também bispo da Igreja da Inglaterra. Embora grande matemático, foi uma figura pública controvertida. Pacifista, foi contra a participação da Inglaterra na II Grande Guerra. Mantinha também idéias favoráveis à eugenia. (N. do T.)

 [4] Um dos três segmentos da Igreja da Inglaterra. A Broad Church é o segmento ecumênico. (N. do T.)

 [5] Q 4:171 (N. do T.)

 [6] 1 Sam 20, 9. (N. do T.)

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