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Introdução ao livro Chesterton e o Universo

Por Scott Randall Paine

PAINE, Scott Randall. Chesterton e o Universo. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2008.
Introdução do livro Chesterton e o Universo disponível aqui
  

O nome de Chesterton é pouco conhecido no Brasil. É uma pena. Trata-se de uma mente extraordinária que torna-se mais importante à medida que o tempo passa. Difícil dizer qual foi o seu papel na interpretação do mundo que se estabelecia no fim do século XIX, o mundo moderno. Esta foi a tarefa que Scott Randall Paine se propôs em “Chesterton e o Universo”.

Paine rejeita classificá-lo como um simples escritor cristão, ou mesmo filósofo; para ele, o papel que melhor caberia a Chesterton é o de retórico. Não no sentido depreciativo da palavra, mas na melhor acepção proposta por Aristóteles, aquele capaz de comunicar a verdade da melhor maneira possível. Paine sustenta que precisamos cada vez mais de Chesterton porque somos incapazes de ler Platão, Aristóteles e Tomás de Aquino. O mundo moderno tirou esta nossa capacidade. O principal papel desempenhado por Chesterton foi o de compreender a mensagem desses gigantes e conseguir comunicá-las de uma forma que une simplicidade com beleza. Chesterton foi acima de tudo um comunicador.

Chesterton foi quem melhor soube procurar e entender o senso comum, a sabedoria das coisas ordinárias sobre as extraordinárias. Para ele, tudo começava com a constatação da existência do mundo. Não só sua existência, mas sua beleza. O grande mal da filosofia moderna, que muito se aproximou das religiões orientais, foi recusar aceitar o princípio da existência do mundo. Para ele, só era possível filosofar a partir do universo, só se entenderia as partes vendo o todo. De tanto procurar este senso comum, acabou encontrando o que rejeitara na juventude, o cristianismo.

A Tradição Ocidental

A tradição ocidental, que começou a ser perdida pelo humanismo, centrava-se na gratidão e homenagem ao mundo. Quando começou a colocar em questionamento a existência deste mundo, a filosofia perdeu sua sanidade. O amor à sabedoria implica em retomar a sanidade tradicional do ocidente. O homem deve retornar a pensar como homem e não como cérebro.

O mundo não está errado como sustentam muitos, é o homem que está errado ao percebê-lo. Perdemos a capacidade de ver o mundo como ele realmente é porque ganhamos uma lassidão de apreciação. O homem deixou de prestar homenagens ao mundo e refugiou-se em si mesmo.

Chesterton partiu de duas convicções;

1.o mundo é real e nosso primeiro mestre

2.o pecado é real e nosso primeiro tentador

Quando nascemos, temos este maravilhamento pelo mundo. Com o tempo vamos perdendo-o. Buscamos verdades que já tínhamos na infância. As verdades não são feitos novos mas realizações recuperadas, pois nascem da infância. É o homem adulto que tem sua cabeça nas nuvens.

Os movimentos idealistas modernos se aproximaram dos orientalismos e questionam os fundamentos que nunca deveriam ser questionados. Questionam o mundo.

Chesterton foi um retórico porque colocou a verdade na melhor luz possível.

“A aspiração retórica de Chesterton era dirigir-se ao mais comum dos homens versando sobre os mais grandiosos temas.”

A Grande Recusa da Filosofia Moderna

Paine faz um apanhado do que estava acontecendo no mundo na virada do século XIX para XX: 

a.Freud – estudo do inconsciente;

b.Husserl – consciência pura, existência;

c.Plank e Einstein – energia em quantum;

d.Lenin – sistema partidário;

e.fim do impressionismo nas artes;

f.preocupação com o primitivo – homem selvagem;

Chesterton percebeu que o enfoque passou a ser nos detalhes, o universal foi colocado de lado e houve uma progressiva exclusão do ponto de vista comum. É o espetáculo do pequeno, a apoteose do insignificante. Para ele, tornou-se necessário re-descobrir a totalidade da vida. O camponês é importante por viver uma vida completa, o homem das cidades não sabe o porque das coisas e torna-se presa fácil para déspotas e demagogos, o senso comum se perdeu.

A filosofia moderna contribuiu muito para isso à medida que colocou em questão os princípios primeiros. Descartes, Kant e Husserl foram os principais responsáveis para colocar em questão a capacidade do homem de pensar e cada um apresentou um novo programa para a humanidade que em síntese pretendia:

1.purgação intelectual, livrar-se dos erros;

2.um novo princípio isolado;

3.método de procedimentos preciso para conduzir a uma filosofia rigorosamente “científica”.

Para eles, o homem não poderia aceitar a primeira saudação do universo com ingenuidade, o mundo passou a ser questionado. O mundo exterior poderia estar enganado e não ser verdadeiro. Chesterton argumentava justamente o contrário, o homem que estava errado ao deixar de observar o mundo como ele de fato é.

A Primeira Saudação do Universo

Neste capítulo, Paine faz o resumo das principais idéias apresentadas por Chesterton em Ortodoxia, o livro em que melhor expôs seu pensamento sobre o universo.

Nele, ele defendia a necessidade de pensar a partir dos primeiros princípios e não sobre eles. O cristianismo é o senso comum porque apenas ele se interessa pelo mundo do jeito que é. O pensamento humano tinha dois problemas básicos:

a.tentar deduzir os princípios do pensamento – conduz à loucura;

b.duvidar da existência de qualquer princípio – conduz ao ceticismo;

O louco seria aquele que perdeu tudo, exceto a razão. Ele é banal e sente tédio de tudo. Os homens normais é que acham extraordinário seu comportamento. Para que o homem permaneça são ele precisa do misticismo, precisa preocupar-se mais com a verdade do que com a consistência. O místico é humilhado pela imensidão do cosmos e jamais sonharia em compreendê-lo. O louco busca explicar o universo.

O cético segue o caminho contrário, recusa-se a dar o primeiro passo na razão, não aceita certezas absolutas. Ele não compreende que religião e razão são métodos de comprovação que não podem ser comprovadas, não aceita nenhuma delas. O problema do cético é que sem o absoluto não existe nada porque lutar, seu suicídio mental provoca o pacifismo político.

Chesterton argumentava que as coisas ordinárias, comuns, são na verdade as extraordinárias; por isso, as coisas importantes deveriam ser deixadas para os homens comuns tais como a reprodução, a educação dos jovens e as leis do estado.

Paine apresenta a teoria que Chesterton desenvolveu em Ortodoxia sobre a ética dos contos de fada, justamente os capazes de reproduzirem os fatos mais simples da vida. Para ele, o país das fadas é um local absolutamente lógico. Cinderela é a mais jovem porque suas meio irmãs são mais velhas, um cavalo alado mais um cavalo alado são dois cavalos alados. No país das fadas, dois e dois sempre é quatro.

O conto de fadas leva o homem ao espando, justamente o que perdeu ao crescer, a capacidade de se espantar com o mundo, uma capacidade que tinha na infância. Para encantar um jovem, é preciso contar que abriu um armário e encontrou um monstro; para um bebê, basta contar que abriu o armário. O mundo como ele é fascina nossos primeiros anos, temos a noção que este mundo é extraordinário nas suas coisas mais simples.

Quando se lê uma obra realista e fechamos o livro, encontramos o desconforto de voltar ao mundo que estávamos. Quando se lê um conto de fada e se fecha o livro, o mundo vibra diante de novas possibilidades.

A principal mensagem do conto de fadas é que o homem obedece a algo que simplesmente não compreende. Cinderela deve voltar à meia noite. Ela nem perde tempo perguntando o por quê. Todas as coisas estonteantes dependem de uma pequena coisa retida, de uma única coisa proibida.

É preciso amar o mundo sem saber direito porque para poder mudá-lo. O otimista sabe porque ama o mundo e nunca vai mudá-lo porque gosta dele do jeito que é. O pessimista é imobilizado pelo determinismo, para ele não adianta mudá-lo. O suicídio é o pecado, o mal final absoluto porque é a recusa de se ser leal à vida.

Paine ainda trata de outras idéia de ortodoxia tais como:

-o equilíbrio não está na conciliação, mas no auge dos extremos;

-a realidade criada é formada por opostos;

-o mundo é quase razoável e este é seu problema para o entendimento;

-é difícil para um homem defender qualquer coisa que esteja completamente convencido;

-o mundo existe, mas existe um outro ainda melhor que nos serve de ideal. Este mundo deve ser fixo, composto e de constante vigilância;

-conservadorismo não é recusar-se a mudar, mas mudar constantemente para manter as coisas valiosas;

-a liberdade que interessa é a liberdade de se comprometer;

-os truísmos modernos parecem plausíveis até que expliquem as razões por trás deles;

-temos que ter os olhos abertos para o mundo, só então poderemos olhar para nosso interior

-devemos amar não por ser igual a nós, mas por ser diferente. O amor não unifica os homens, mas os diversifica para serem amados. Só se ama algo quando se está disposto a lutar por ela. Amar sem querer lutar é luxúria;

-os argumentos contra a fé são conta o senso comum;

-o homem é diferente de todos os animais;

-só conseguimos compreender tudo com o auxílio do que não compreendemos;

Postura da Mente Ocidental

Chesterton via a filosofia, poesia e religião com ligadas pois tinham objetivo em si mesmas, transcendiam a utilidade imediata. Elas não são instrumentos, mas fim em si mesmas. O erro fundamental é recusar-se a começar com o mundo como um todo.

A poesia começa com o prazer e termina em admiração, justamente quando surge a filosofia que começa com a admiração e termina no maravilhamento, na religião. A poesia é a resposta para um mundo poético e nos leva à indagações filosóficas.

Conclusão

Chesterton é importante porque não somos mais capazes de ler Platão, Aristóteles e Aquino. Perdemos a visão do mundo em seu sentido universal, fomos enterrados sobre camadas de insignificância. Sua obra é na verdade uma preparação para a verdadeira filosofia, uma antítese à filosofia moderna que recusou-se a começar pelos pontos de partidas evidentes, como a existência deste mundo e de um criador.

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