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Introdução de Chesterton ao livro “George Macdonald and His Wife”

Por G. K. Chesterton

Traduzido por William Campos da Cruz
Introdução de Chesterton ao livro “George Macdonald and His Wife”, de Greville M. MacDonald, 1924.)
Disponível no site da American Chesterton Society 

Certas revistas têm simpósios (eu os chamaria simposia, se me fosse permitido chamar duas coleções do South Kensington de “musea”) em que se pergunta às pessoas o nome de “livros que as influenciaram”, na mesma linha de “Hinos que as ajudaram”. Não é um processo realista, como regra, pois nossas mentes são, na maioria das vezes, uma biblioteca não catalogada; e, para um homem ser fotografado com um dos livros em suas mãos, geralmente, na melhor das hipóteses, este foi escolhido aleatoriamente, e, na pior, ele está fazendo pose para impressionar. Mas, em certo sentido especial, posso realmente testemunhar que um livro fez diferença em toda a minha existência, que me ajudou a ver as coisas duma certa maneira desde o princípio; uma visão das coisas que mesmo uma real revolução, como uma conversão de confissão religiosa, substancialmente apenas coroou e confirmou. De todas as histórias que li, incluindo até todos os romances do mesmo autor, esta continua sendo a mais real, mais realista, no exato sentido da frase – mais parecida com a vida. Ela se chama “A princesa e o Goblin”, e seu autor é George MacDonald, o homem de que trata este livro.

Quando digo que é semelhante à vida, o que quero dizer é o seguinte: ele descreve uma princesinha que mora num castelo nas montanhas que é perpetuamente escavado, por assim dizer, por demônios subterrâneos que às vezes vêm à superfície através da adega. Ela sobe as escadas do castelo até o quarto da governanta ou aos outros quartos; agora, no entanto, e mais uma vez, as escadas não levam para o destino usual, mas a um novo quarto que ela nunca tinha visto antes e que em geral não pode encontrar de novo. Aqui uma boa Tetravó, que é um tipo de fada madrinha, está perpetuamente fiando e falando palavras de sabedoria e incentivo. Quando eu li como criança, senti que a coisa toda era um acontecimento dentro de uma casa humana real, não essencialmente diferente da casa em que eu mesmo vivia e que também tinha escadas, e quartos e adega. Era aí que o conto de fadas diferia de muitos outros contos; acima de tudo, era aí que a filosofia diferia de muitas outras filosofias. Sempre senti certa insuficiência no ideal de Progresso, mesmo da melhor espécie, que é o progresso do Peregrino. Dificilmente este sugere quão próximo a nós estão as melhores e as piores coisas desde o princípio; especialmente talvez mesmo no princípio. E embora, como toda pessoa sensata, eu valorize e respeite o conto de fadas ordinário do terceiro filho do moleiro que partiu para procurar sua sorte (uma forma que o próprio MacDonald seguiu na continuação chamada “A princesa e Curdie”), a sugestão de viajar para um mundo das fadas, distante, que é a alma dele, impede de atingir este fim particular que é tornar todas as escadas, portas e janelas ordinárias coisas mágicas.

Dr. Greville MacDonald, nestas memórias interessantíssimas de seu pai, penso, menciona em algum lugar o sentido deste estranho simbolismo das escadas. Outra imagem recorrente em seus romances é a de um grande cavalo branco; o pai da princesa tinha um, e havia outro em The Back of the North Wind [Por trás do vento norte]. Até este dia, não posso ver um grande cavalo branco na rua sem uma repentina sensação de coisas indescritíveis. Mas, por ora, estou falando do que pode enfaticamente ser chamado a presença de deuses domésticos – e goblins domésticos. E a imagem da vida nesta parábola não é somente mais verdadeira que a imagem de uma viagem, como a do Peregrino; é sempre mais verdadeira do que a mera imagem de um sítio como o da Guerra Santa. Há algo não somente imaginativo, mas intimamente verdadeiro a respeito da ideia de goblins que estão debaixo da casa e são capazes de importuná-la a partir da adega. Quando as coisas más que nos importunam de fato aparecem, elas não aparecem do lado de fora, mas de dentro. De alguma maneira, aquela simples imagem de uma casa que é o nosso lar, que é sinceramente amada como nosso lar, mas da qual dificilmente conhecemos o melhor ou o pior, e deve sempre esperar por um deles e observá-lo contra o outro, sempre permaneceu em minha cabeça como algo singularmente sólido e irrefutável; e era ainda mais corroborado do que corrigido quando vim a dar um nome definitivo para a senhora que zela por nós desde a torre, e talvez a assumir uma visão mais prática dos goblins debaixo do piso. Desde que li pela primeira vez aquela história, cinco filosofias alternativas do universo chegaram às nossas faculdades, vindas da Alemanha, soprando o mundo como o vento leste. Mas, para mim, aquele castelo ainda permanece nas montanhas e a luz em sua torre não se extingue.

Todas as demais histórias de George MacDonald, interessantes e sugestivas de diversas maneiras, parecem ser ilustrações e mesmo disfarces daquele único disfarce, pois esta é a mais importante diferença entre o seu tipo de mistério e a mera alegoria. A alegoria comum assume seu objeto como lugares-comuns ou convenções necessárias para homens e mulheres comuns, e tenta torná-los agradáveis ou pitorescos, vestindo-os como princesas, ou goblins ou fadas. Mas George MacDonald, na verdade, acreditava que as pessoas eram princesas e goblins e fadas, e os vestia como homens ou mulheres comuns. O conto de fadas está dentro da história comum, não fora. Um resultado disso é que todos os objetos inanimados que são as propriedades do cenário da história retêm aquele glamour ignorado que têm num conto de fadas literal. A escadaria em “Robert Falconer” é tão mágica como a escadaria em “A princesa e o Goblin”; e quando os meninos estão construindo o barco e a menina está recitando versos para eles, em “Alec Forbes”, e alguns velhos cavalheiros dizem galhofeiramente que se erguerá para cantar como um navio mágico escandinavo, sempre me parece como se ele estivesse descrevendo a realidade, sem levar em conta a aparência, do incidente. Os romances enquanto romances são irregulares; mas como contos-de-fadas são extraordinariamente coerentes. Ele nunca, nem por um momento, perde seu fio interior que corre através da colcha de retalhos, e é o fio que a Tetravó põe nas mãos de Curdie para tirá-lo das armadilhas dos goblins.

A originalidade de George MacDonald tem também uma significância histórica, que talvez seja mais bem estimada ao compará-lo com seu grande conterrâneo Carlyle. É uma medida do real poder e mesmo da popularidade do Puritanismo na escócia que Carlyle nunca tenha perdido o humor Puritano, mesmo quando ele perdeu toda a teologia puritana. Se uma fuga do viés do ambiente for um teste de originalidade, Carlyle nunca escapou completamente, mas George Macdonald, sim. Ele desenvolveu, a partir de suas próprias meditações místicas, uma teologia alternativa completa que levava a um humor completamente oposto. E nessas meditações místicas ele aprendeu segredos muito além da mera extensão da indignação Puritana com a ética e a política. Pois no gênio real de Carlyle havia um toque de intimidação, e onde quer que haja um elemento de intimidação há um elemento de trivialidade, de reiteração e de ordens repetidas. Carlyle nunca pôde dizer nada tão sutil e simples como a frase de MacDonald de que Deus é fácil de agradar e difícil de satisfazer. Carlyle estava demasiadamente obviamente ocupado com a insistência em que Deus era difícil de satisfazer; exatamente como alguns otimistas estão, sem dúvida, ocupados em insistir que Ele é fácil de agradar. Em outras palavras, MacDonald tinha criado para si mesmo um tipo de ambiente espiritual, um espaço e transparência de luz mística, que era absolutamente excepcional em seu ambiente nacional e denominacional. Ele disse coisas semelhantes aos ditos dos cavaleiros místicos, dos santos católicos, algumas vezes dos platônicos ou swedenborgianos, mas não pelo menos aos dos calvinistas, mesmo quando o calvinismo permanecia em um homem como Carlyle. E quando ele vier a ser mais cuidadosamente estudado como um místico, como eu acho que ele será quando as pessoas descobrirem a possibilidade de recolher suas joias dispersas em um conjunto muito irregular, perceber-se-á, imagino, que ele se posta antes como um ponto de mutação na história do cristianismo, como um representante da nação cristã da Escócia. Como os protestantes falam da estrela da manhã da Reforma, devemos estar autorizados a notar tais nomes aqui e ali como estrelas da Reunião.

A coloração espiritual da Escócia, como a cor local de tantos sarracenos escoceses, é um roxo que sob algumas luzes pode parecer cinza. A característica nacional é na realidade intensamente romântica e apaixonada; na verdade, excessiva e perigosamente romântica e apaixonada. Sua torrente emocional tem apenas muito frequentemente se dirigido para a vingança, ou luxúria, ou crueldade ou bruxaria. Não há embriaguês como a embriaguês escocesa; ela tem em si o barulho antigo e a estridência selvagem dos Mênades das montanhas. E, claro, é igualmente verdade quanto ao lado bom, como na grande literatura da nação. Stopford Brooke e outros críticos apontaram com razão que um senso vívido de cores aparece nos poetas escoceses medievais antes deste aparecer de fato entre qualquer poeta inglês. E é absurdo falar da dura e perspicaz sobriedade do tipo nacional que se tem feito mais bem conhecido por toda parte no mundo moderno pelo literalismo prosaico do “Tesouro da ilha” e o realismo monótono de “Peter Pan”. No entanto, por um estranho acidente histórico, este povo vívido e colorido foi forçado a vestir-se de preto numa espécie de funeral sem fim num eterno Sabá. Na maioria das peças e quadros, entretanto, em que eles são representados quando vestidos de preto, alguns instintos fazem o ator ou o artista verem que eles não combinam muito bem. E assim o fazem.

Os escoceses apaixonados e poéticos – como os italianos apaixonados e poéticos –devem, obviamente, ter tido uma religião que competia com a beleza e vivacidade das paixões, que não deixava o diabo ter todas as cores brilhantes, que respondia glória com glória e fogo com fogo. Isso teria equilibrado Leonardo com São Francisco; nenhum jovem ou pessoa viva realmente pensa que isso pode ser equilibrado com John Knox. A consequência foi que este poder nas letras escocesas, especialmente no dia (ou noite) da plena ortodoxia calvinista, foi enfraquecida e desperdiçada centenas de vezes. Em Burns ela foi levada para fora de seu curso como loucura; em Scott, somente era tolerada como memória. Scott somente podia ser um medievalista tornando-se o que ele chamaria um antiquário, ou o que chamaríamos um esteta. Ele tinha de fingir que seu amor estava morto para que pudesse ser autorizado a amá-la. Assim como Nicodemos foi até Jesus à noite (ver Jo 3:1), o esteta somente vai à igreja à noite.

Agora, entre os muitos homens de gênio que a Escócia produziu no século XIX, havia apenas um tão original para voltar a sua origem. Havia apenas um que realmente representava o que a religião escocesa deveria ter sido, se tivesse mantido a coloração da poesia escocesa medieval. Em seu tipo particular de obra literária, ele de fato percebeu o aparente paradoxo de São Francisco de Aberdeen, vendo o mesmo tipo de halo em torno de uma flor e de um pássaro. Não é a mesma coisa que a apreciação da beleza da flor ou do pássaro. Um bruto pode sentir isso e continuar bruto, ou, em outras palavras, continuar triste. É um certo senso especial de significância, que a tradição que mais a valoriza chama sacramental. Ter voltado para isso, ou avançado para isso, num salto de meninice, para fora do negro Sabá de uma cidade calvinista, foi um milagre de imaginação.

Ao notar que ele bem pode ter este lugar na história, no sentido da religião e da história nacional, eu não tento aqui fixar seu lugar na literatura. Em todo caso, ele é um dos tipos que é mais difícil de classificar. Ele não escreveu nada vazio; mas ele escreveu muito que é tão cheio e cuja apreciação depende antes de uma simpatia com a substância do que à primeira vista com a forma. De fato, os místicos não são com frequência homens de letras em seu sentido perfeito e quase profissional. Um homem cuidadoso encontrará mais sobre o que pensar em Vaughan ou Crashaw do que em Milton, mas ele também encontrará muito a criticar; e ninguém precisa negar que, no sentido ordinário, um leitor casual pode desejar que haja menos de Blake e mais de Keats. Mas mesmo essa permissão não deve ser exagerada; e é exatamente no mesmo sentido em que nos compadecemos de um homem que perdeu tudo de Keats ou de Milton, que podemos sentir compaixão pelo crítico que não caminhou na floresta de Phantastes ou não tomou conhecimento do Sr. Cupples nas aventuras de Alec Forbes.

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