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Nossa tradição se Cristo viesse

Nossa tradição se Cristo viesse

SE EU TIVER DE RESPONDER à pergunta “Como Cristo resolveria os problemas modernos se estivesse na terra hoje?”, tenho de respondê-la sem rodeios; e àqueles que compartilham de minha fé existe uma só resposta. Cristo está na terra hoje; vivo num milhar de altares; e Cristo resolve os problemas das gentes exatamente como os resolvia quando cá estava no sentido ordinário da palavra. Isto é dizer, resolve os problemas do número limitado de pessoas que escolhem, de livre e espontânea vontade, dar-Lhe ouvidos. Ele não surgiu,
naquela época, como um sultão oriental ou um conquistador romano; não haveria de surgir agora como um policial ou agente da lei seca. Daí, eu receio, muitos haverão de inferir que estou a dizer uma de duas coisas:

1) que Cristo lida apenas com indivíduos e, portanto, “não tem qualquer política” que afete o
bem-estar comum;

2) que eu me escondo atrás da desculpa banal e tediosa de que Jesus de Nazaré tinha uns quantos ideais sociais maravilhosos que morreram com Ele; e dos quais “A Igreja” se esqueceu, os quais ela perverteu ou inverteu. Eu aceito o desafio; e contradigo absolutamente tanto uma quanto a outra visão.
Eu digo, e quero mesmo dizê-lo, que a Igreja Católica continua a aconselhar os homens como Jesus os aconselhou. E que houve um colapso do capitalismo por este não ter dado ouvidos ao catolicismo; exatamente como houve uma queda de Jerusalém por esta não ter dado ouvidos a Jesus. Estou bastante pronto a basear esta reivindicação definitiva em fatos sólidos. Quarenta anos atrás, quando eu era um garoto, a nossa civilização industrial presente estava no seu pior, pois supunha-se que estava ela no seu melhor.

Parlamentos, partidos, jornais e quantas opiniões públicas havia estavam a enaltecer a prosperidade do sistema; os negócios grandes cavam maiores; microempresários eram comprados ou faliam; todo o capital se estava a centralizar no capitalista, e a única crítica inteligente que alguém lhe fazia vinha dum punhado de socialistas, que por sua vez queriam-no ainda mais centralizado no Estado. Foi a estas tantas que o líder da Igreja Católica, a quem chamamos Vigário de Cristo, emitiu uma proclamação comumente chamada de Rerum novarum, na qual afirmou três coisas: 1) que a concentração existente de riqueza no capitalista “impunha sobre os milhões trabalhadores um jugo pouco melhor que a escravidão”; 2) que não deveríamos buscar escapar disso por meio de uma concentração ainda maior no comunismo, vez que aí se negam até mesmo as formas naturais de propriedade, liberdade e moradia; 3) que, conquanto os assalariados tenham o direito de se ajuntar e mesmo de fazer greve, sob certas condições de justiça, seria melhor se “os pobres, tanto quanto seja possível, se tornassem donos”; isto é, pequenos capitalistas ou donos de meios de produção. Não se tem aí um texto sinóptico escrito em grego antigo; tampouco um conselho puramente teológico destinado a uma alma isolada. É um esboço perfeitamente claro dum curso de ação geral; e não lhe havia nada de errado, exceto o fato de ninguém lhe ter dado ouvidos.

Agora, é claro: não era lá muito provável que o mundo inteiro, de repente, fosse dar meia-volta, mudando a sua direção, como se a obedecer uma ordem, e instantaneamente começasse a agir de acordo com a coisa. Não era muito provável que todos os milhões de puritanos e pagãos modernos, de agnósticos e anti-clericais, para não dizer nada dos católicos débeis e mundanos, fossem de súbito obedecer ao toque da corneta, como soldados. Dificilmente haveriam de instantaneamente começar a desfazer a malha dos conchavos, a dividir a propriedade entre os pobres, a persuadir todos os milionários a desmembrar os seus milhões, transformá-los em fortunas independentes e as dar a completos estranhos. E não era lá muito provável, à primeira vista, que o Sumo Sacerdote de Jerusalém e o Procurador da Judéia instantaneamente iriam dar ouvidos ao conselho de um camponês de Nazaré montando num jumento. Mas era um bom conselho, e se afigurou a todos ainda melhor quarenta anos depois. Ora, eu mantenho, sem hesitar, que, houvesse o mundo moderno dado ouvidos ao conselho do Papa até mesmo quarenta anos atrás; houvesse ele feito, de fato, um esforço violento para descentralizar o capitalismo sem aceitar o comunismo; para fazer da propriedade total uma coisa ordinária para pessoas ordinárias, não estaríamos agora nesta confusão medonha. Teríamos uma condição decente e digna de propriedade, que poderia ser realmente defendida pelos cristãos contra os comunistas. Por termos palmilhado o nosso próprio e horrendo caminho pagão, somos obrigados agora a defender algo quase indefensável; apenas porque o remédio é ainda pior que a doença.

Portanto eu respondo, coisa que aliás me parece ser a resposta de poucos participantes no simpósio, que Cristo haveria de dizer, divinamente, precisamente o que a Igreja de Cristo diz por meio de línguas humanas, e, portanto, apenas humanamente. Que os Dez Manda mentos estão certos muito embora quase sempre não os apliquemos do modo certo; que não devemos cobiçar o boi do próximo, e que ele deveria ter um boi. E quais de nós temos um vizinho dono de um boi? Um boi é um Meio de Produção, e quase todos eles foram comprados pelo Conchavo das Carnes. A Igreja histórica tem, a dizer a verdade, frequentemente feito soar o alarme para o mundo; apenas, o mundo se esqueceu do alarme até deparar-se uma vez mais com o perigo. Por exemplo: metade de nosso emaranhado de finanças não-naturais teria sido cortado fora se os antigos mandamentos católicos contra a Usura houvessem sido obedecidos à risca. Desafio qualquer um a mostrar que Cristo ou o cristianismo falharam; salvo no sentido de que tudo mais falhou, assim que falhou em ouvir-Lhes os conselhos. Se, uma vez mais, nosso Senhor os pudesse dar pessoalmente, a coisa seria certamente mil vezes mais impressionante. Mesmo, porém, quando Ele o fez, a coisa não foi inteiramente bem recebida.

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