O Detetive Divino

O Detetive Divino

Por G. K. Chesterton,

Disponível no livro A Miscellany of Men (1912), Capítulo “The Divine Detective”.

Tradução: Vinicius Oliveira

Toda pessoa de educação sólida aprecia estórias de detetive, e há mesmo vários pontos em que elas possuem uma superioridade saudável sobre a maioria dos livros modernos. Uma estória de detetive geralmente descreve seis homens vivos discutindo como é que um homem está morto. Uma estória filosófica moderna geralmente descreve seis homens mortos discutindo como qualquer homem pode possivelmente estar vivo. Mas aqueles que gostam do romance policial devem ter notado uma coisa, que quando o assassino é pego ele dificilmente é enforcado. “Isso”, diz Sherlock Holmes, “é a vantagem de ser um detetive particular”; depois que ele captura ele pode libertar. A Igreja Cristã pode ser melhor definida como um enorme detetive particular, corrigindo o detetive oficial – o Estado. Isso, de fato, é uma das injustiças feitas ao Cristianismo histórico; injustiças que surgem de olhar para complexas exceções e não para o grande e simples fato. Dizem-nos constantemente que teólogos usaram potros e anjinhos [1], e eles usaram. Teólogos usaram potros e anjinhos bem como usaram dedais e banquetas de três pernas, porque todo o mundo as usava. O cristianismo não criou as torturas medievais mais do que criou as torturas Chinesas; ele as herdou de qualquer império tão pagão quanto o Chinês.

A Igreja consentiu, num momento maligno, imitar a comunidade e empregar crueldade. Mas se nós abrirmos nossos olhos e olharmos para o quadro inteiro, se olharmos para o formato geral e cor da coisa, a verdadeira diferença entre a Igreja e o Estado é enorme e clara. O Estado, em todas as terras e épocas, criou um mecanismo de punição, mais sangrento e brutal em alguns lugares, mas sangrento e brutal em todos os lugares. A Igreja é a única instituição que alguma vez tentou criar um mecanismo de perdão. A Igreja é a única coisa que alguma vez tentou através de um sistema perseguir e descobrir crimes, não a fim de vingá-los, mas a fim de perdoá-los. A fogueira e o potro foram meramente as fraquezas da religião. Sua especialidade – ou, se preferir, sua excentricidade – fora essa misericórdia impiedosa; esse implacável cão de caça que busca salvar em vez de destruir.

Posso ilustrar melhor o que quero dizer fazendo referência a duas peças populares de tópicos mais ou menos paralelos, que fizeram sucesso aqui e na América. The Passing of the Third Floor Back [2] é um experimento humano e reverente, que lida com a influência de uma figura desconhecida mas divina, enquanto passa por um grupo de personagens Esquálidos. Eu não desejo fazer piada barata das conversões extremamente abruptas de todas essas pessoas; isso é um ponto de arte, não de moralidade; e, afinal, muitas conversões foram abruptas. O método desse salvador para fazer boas as pessoas é dizer a elas o quanto elas já são boas; e no caso de desamparados suicidas, cujos dorsos morais estão quebrados, e que estão ensopados com sincero desprezo por si mesmos, eu posso imaginar que esse método pode bem ser o caminho certo. Eu não devo entregar essa mensagem a autores ou membros do Parlamento, porque eles cordialmente concordariam com ela.

Ainda assim, não é completamente aqui que eu discordo da peça do sr. Jerome. Eu discordo vitalmente de sua estória porque não é uma estória de detetive. Nela não há nada dessa grande ideia Cristã de arrancar o mal para fora dos homens; falta nela o realismo dos santos. A redenção deveria trazer verdade tanto quanto traz paz; e a verdade é uma coisa boa, apesar de os materialistas terem enlouquecido por causa dela. As coisas precisam ser encaradas, mesmo a fim de serem perdoadas; a grande objeção de “deixar deitados os cães que dormem” [3] é que eles estão deitados em mais de um sentido. Mas em Passing of the Third Floor Back do sr. Jerome o redentor não é um detetive divino, impiedoso em sua determinação de saber e perdoar. Em vez disso ele é um tipo de pateta divino, que sequer perdoa, porque ele não vê nada que acontece. Pode ser, ou não, verdade dizer, “Quem sabe tudo, tudo perdoa” [4]. Mas é muito mais evidentemente verdadeiro que, “Quem nada entende, nada perdoa” [5], e “Third Floor Back” [6] não parece compreender nada. Ele pode, no final das contas, ser um sentimentalista bastante egoísta, que descobriu ser reconfortante pensar bem de seus vizinhos. Não há nada muito heroico em amar após você ter sido enganado. A coisa heroica é amar após você ter sido desenganado.

Quando eu vi essa peça foi natural compará-la a outra peça que eu não vi, mas que eu havia lido em sua versão impressa. Me refiro a The Servant in the House, do sr. Rann Kennedy, cujo sucesso se espalha por tantos jornais Americanos. Também se preocupa com uma figura ofuscante, mas ainda assim evidentemente divina, mudando os destinos de todo um grupo de pessoas. Estruturalmente, é uma peça melhor que a outra; na verdade, é uma peça muito boa mesmo; mas não há nada estético ou delicado sobre ela. É igualmente ou mais sensacional, democrática, e (eu uso a palavra em um sólido e bom senso) Salvacionista que a outra.

Mas a diferença está precisamente nisso – que o Cristo do sr. Kennedy insiste em realmente conhecer todas as almas que ele ama; ele recusa conquistar através de um tipo de estupidez sobrenatural. Em outras palavras, ele é um Cristão, e não um Cientista Cristão. Sem dúvida a distinção é parcialmente explicada pelos problemas individualmente escolhidos. O sr. Jerome praticamente supõe que Cristo esteja tentando salvar pessoas sem honra; e isso, claro, é naturalmente um trabalho simples. O sr. Kennedy supõe que Ele esteja tentando salvar pessoas honradas, o que é um caso muito maior. Os principais personagens em The Servant in the House são um reverendo popular e esforçado, e a sua elegante e enérgica esposa. Não seria bom dizer a essas pessoas que elas tinham bondade nelas – pois isso era o que elas estavam dizendo a si mesmas o dia inteiro. Elas precisavam ser lembradas de que tinham algum mal nelas – idolatrias instintivas e traições secretas que elas sempre tentaram esquecer. É em conexão com esses crimes de riqueza e cultura que nós encaramos o verdadeiro problema do mal positivo. O papel da controvérsia do sr. Blatchford sobre o pecado foi completamente viciado pela consciência de alguém de que sempre que ele escrevia a palavra “pecador” ele pensava em um homem em trapos. Mas aqui, novamente, nós podemos encontrar a verdade meramente fazendo referência à literatura vulgar – sua fonte infalível. Quem lê uma estória de detetive sobre pessoas pobres? Os pobres têm delitos; mas os pobres não têm segredos. E é porque o orgulhoso tem segredos que eles precisam ser detectados antes de serem perdoados.

NOTAS DO TRADUTOR

[1] Racks e thumbscrews – instrumentos de tortura.

[2] Sem título oficial em português.

[3] The great objection to “letting sleeping dogs lie” is that they lie in more senses than one. A tradução ao pé da letra não deve ser comum, mas achei preferível pelo sentido da frase em que ela está inclusa – que ainda assim pode ter sido vago.

[4] “Tout comprendre est tout pardonner”, ditado francês conhecido de muitos psicólogos. Freud o usava e foi verdadeiramente ele que o difundiu. “Quem compreende tudo, tudo perdoa”.

[5] Trocadilho de Chesterton com a anterior, “Rien comprendre est rien Pardonner”.

[6] Pelo modo que Chesterton se expressa, “Third Floor Back” se refere a um morador do fundo do terceiro andar: and the “Third Floor Back” does not seem to comprehend anything. He might, after all, be a quite selfish sentimentalist, who found it conforting to think well of his neighbours.

[7] Originalmente “vicar”, termo inglês usado para igrejas episcopais e anglicanas.

 

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