O Esboço da Sanidade

O Esboço da Sanidade

Por Dale Ahlquist

Presidente da American Chesterton Society

Publicado originalmente com o título [Lecture 47] The Outline of Sanity, disponível no site Chesterton.org

Traduzido por Rodrigo de A. Oliveira

A América lidera o mundo em muitas coisas, incluindo em doença mental. Nossa confusa sociedade ajuda a confundir as pessoas. Somos confusos no que se refere à religião, educação, sexo e duas outras coisas fundamentais: política e economia. Somos basicamente insanos quando isso vem acompanhado de dinheiro, leis e nosso pão de cada dia. Desejamos tanto dinheiro quanto possível, temos anseios de que o governo suporte todas as coisas que queremos, e esperamos não ter de pagar por isso.

Um tema recorrente em todos os escritos de Chesterton é a sanidade. Os argumentos básicos de Ortodoxia são que o Credo dos Apóstolos poderia ser o melhor sustentáculo para uma sociedade sã e que as filosofias modernas não só não nos orientam para a verdade como nos conduzem para a maldade. Contemplamos esse tema na ficção chestertoniana muito bem, tal qual nas séries de histórias misteriosas denominadas The Poet and the Lunatics [O poeta e os Lunáticos].

Sanidade diz respeito à inteireza, completitude. Insanidade refere-se à tacanharia e destruição. Vivemos numa defeituosa sociedade, a qual é regida por dois outros grandes feitos, provenientes de estreitas filosofias sociais que se veem em guerra uns com os outros quando, na verdade, conspiram contra o homem comum: socialismo e capitalismo, ou Hudge e Gudge, que nos foram introduzidos em What’s Wrong with the World [O que há de errado com o mundo].

A solução prática para “What’s Wrong with the World” está explicada em The Outline of Sanity [O Esboço da Sanidade]: chamado Distributismo. Ideia difícil de explicar, mas é nesse livro onde se começa. O The Servile State [O Estado Servil] de Belloc é um trabalho essencial, mas tão seco quanto pó. Se você recomenda que este seja uma referência inicial, é óbvio que afastará as pessoas do Distributismo.

Claro, você, provavelmente, afastá-los-á de qualquer modo. Nós temos nos tornados muitíssimos doutrinados na “segurança” do socialismo e na “liberdade” do capitalismo, ambas mentirosas, mas a insanidade somente é exacerbada quando nos esforçamos em ter os dois de uma só vez – não quando tentamos ter liberdade e segurança num mesmo instante, mas no momento em que buscamos nos apossar do capitalismo e socialismo juntos –, e é isso que está, presentemente, no Estado Servil. (Acabo de lhes dizer o que há de mais essencial na leitura do livro de Belloc, portanto, não tragam isso à tona novamente.).

Distributismo oferece liberdade (que é responsabilidade) e segurança (proteção do indivíduo e da comunidade). Isso tem como fundamento o difundido direito privado de propriedade. Presume-se que um pequeno negócio é melhor que um grande, que artesanato é superior à produção em massa, e que o governo local (local government) é melhor que o governo geral (big government).

Foi o Papa Leão XIII quem primeiro articulou a conexão entre propriedade e justiça para o mundo moderno, em sua encíclica de 1893 Rerum Novarum. Esta ideia é transposta poucas décadas depois por G. K. Chesterton para The Outline of Sanity (que é uma coleção de ensaios, originalmente apresentada em seu jornal, G. K.’s Weeklyin 1925). Ele demonstra como o socialismo e o capitalismo promovem a justiça, porque nenhum dos dois estimula a pequena propriedade (small property).

Um batedor de carteira é, obviamente, um campeão de interpretação pessoal. Mas não é um campeão de propriedade privada [1]. O ponto central sobre o capitalismo é que ele prega a extensão dos negócios, mas não a preservação dos pertences; além de também tentar disfarçar o batedor de carteira com algumas virtudes do pirata. O ponto central sobre o comunismo é que ele tenta reformar o batedor de carteira pelo ameaçador de carteiras.

Enquanto Chesterton demonstra como o Socialismo falha completamente em preencher qualquer uma dessas promessas – pelo fato de não confiar na capacidade do homem comum de tirar suas próprias decisões –, ele também aponta que a falha primária do capitalismo é ter realizado todas as coisas que o socialismo ameaçou fazer. Sob o capitalismo, um trabalhador vive numa casa que não lhe pertence, que não foi feita por ele, e que ele não a deseja. Ele pensa em termos de salários, de necessidades. Não faria nenhuma diferença para o trabalhador de uma gigante corporação se o seu serviço fosse realizado num departamento governamental. Não faria a menor diferença se ele fosse um anônimo do Estado ou do Rico.

O atual sistema, especialmente como os existentes nos países industrializados, já se tornou um perigo, e está rapidamente se tornando uma armadilha mortífera. Este sistema se baseia em duas ideias: que o rico sempre será rico o bastante para empregar o pobre; e que o pobre sempre será pobre o bastante para querer ser empregado pelo rico.

A paralisia dentro deste sistema é inevitável. Capitalismo é uma contradição. Quando mais homens forem assalariados, mais dificilmente eles se tornarão consumidores. O capitalismo está sempre tentando cortar a sua demanda de empregos. Fazendo assim, ele está diminuindo o poder aquisitivo de seus clientes. Ele está desejando que o mesmo homem seja igualmente rico e pobre.

Chesterton, profeticamente, descreve The Bluff of the Big Shops [O Blefe das Grandes Lojas]. Ele viu claramente que as “Hiper-lojas” (Superstores) poderiam inalar as pequenas, e , assim como sempre, seria o consumidor que sofreria. Com a eliminação das pequenas lojas, não há mais compras espalhadas. Na grande loja, nós realmente não podemos comprar o que desejamos.

Penso que uma grande loja é uma má loja. Comprar nela não é somente uma ação má, mas uma má barganha. O monstruoso império não é somente vulgar e insolente, mas incompetente e desconfortável. E eu nego que essa grande organização seja eficiente. Na verdade, grande organização é sempre desorganização.

Diz-se que é conveniente pegar todas as coisas numa mesma loja. Todavia, a verdade é que o monopólio de compra é apenas conveniente ao monopolista. Eles concentram negócios bem como concentram riqueza – nas mãos de cada vez menos cidadãos.

De todo modo, esta submissão ao monopólio moderno não tem que ganhar espaço. Tudo o que temos que fazer para sustentar os pequenos comércios é apoiá-los. Todo mundo poderia fazer isso, mas ninguém pode imaginar isso sendo feito. Por um lado, nada é muito simples e, por outro, nada é muito difícil. Rendermos ou não (às grandes lojas) é uma questão de vontade moral, e não lei econômica.

A solução preferida de Chesterton é a de que a maioria dos negócios se torne pequenos negócios. Onde os amplos negócios fossem necessários, eles deveriam pertencer aos empregados, os quais deveriam ser direcionados por um guia, combinando as suas contribuições e dividindo os seus resultados. Ele acredita que pequenas lojas podem ser governadas – mesmo que sejam governadas por si mesmas. Ele acredita que pequenas lojas podem ser sustentadas – se as apoiarmos.

Distributismo é Democracia. Distributismo é baseado na propriedade. Democracia pode funcionar somente se a propriedade for expandida. Democracia significa autogoverno. Propriedade significa autossuporte. Numa sociedade Distrubutista, pessoas produzem e usam seus próprios bens, fazem as suas próprias leis e não são dependentes de estranhos.

Chesterton não diz que não há lugar para troca, nem diz que o homem não precisa de nada do Estado. Ele diz que essas coisas devem existir, mas numa devida proporção. Nem o Negociante, nem o Governo Oficial deveriam desempenhar um papel dominante na sociedade.

Pode isso ser feito? Chesterton assevera que o Distributismo é feito pelas pessoas, não para elas. Isso pode ser feito, se decidirmos fazê-lo. Isso significa tomarmos extraordinário controle sobre as nossas próprias vidas; pararmos de ser escravos assalariados e consumistas; sermos justos, livres e esperançosos. “A finalidade do homem político”, diz Chesterton, “é a felicidade humana. Mas isso não significa que estamos obrigados a nos tornarmos ricos, ou atarefados, ou mais eficientes, ou mais produtivos, ou mais progressivos. Nós não estamos obrigados a ser qualquer dessas coisas se elas não nos fizerem mais felizes”.

[1] O autor tenta fazer uma trocadilho entre as expressões “private enterprise” e “private property”: “A pickpocket is obviously a champion of private enterprise. But he is not a champion of private property.”

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