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O Jogo da Psicanálise II

O Jogo da Psicanálise II

Autor: António Campos – Presidente da Sociedade Chesterton Portugal http://sociedadechestertonportugal.blogspot.com/

“A Psicanálise é uma confissão sem absolvição.” G. K. Chesterton

No seu maravilhoso ensaio sobre a Psicanálise, de 1923, Chesterton trata da substância da técnica em si, que diz ser da mesma natureza dos sonhos. Trata da sua metodologia que classifica de indutiva, não científica, consistindo na generalização de uma fração da realidade a toda a realidade, uma monomania. Trata do seu objeto, o sexo e o inconsciente e, finalmente, como epílogo, a desconstrução cultural, que se iniciou no iluminismo, contra o patrimônio medieval.

Afirma que a psicanálise começou como uma moda para se tornar uma superstição. Como a nossa sociedade constrói mitos, em geral não admite que o seu fundamento possa ser discutido.

Chesterton afirma: “Uma teoria é apenas um pensamento enquanto que uma moda é um fato”.

Lembra muito as palavras de Charles T. Tart, o guru PhD da parapsicologia: “Se está nos mídia, aconteceu. Se aconteceu, mas não está nos mídia, nós cremos que não aconteceu.”

Termina a dizer que a nossa sociedade, sempre a falar em iluminismo e opinião pública, tem os políticos conservadores apoiados por fundos financeiros de proveniência duvidosa e os políticos revolucionários apoiados pelas sociedades secretas.

Claro que as ideias de Freud tiveram correspondência nas artes e nas letras, no chamado movimento surrealista, que se quer libertar da lógica e da razão e penetrar no mundo onírico e no inconsciente. Os surrealistas rejeitam o que chamam “a ditadura da razão” e os valores de pátria, família, religião, trabalho e honra. Pretendem colocar em equivalência o sonho e a realidade. Nas letras, esvazia-se o significante do seu significado, e adopta-se a escrita automática, em que alguém escreve o que lhe vai passando pela cabeça, de forma desconexa e sem fio condutor, buscando a desestruturação. Na pintura, o espanhol Salvador Dali e o belga René Magritte são os seus maiores expoentes.

Curiosamente, A Tentação de Santo Antão, O Homem Invisível e Os Amantes, têm uma conexão direta com este ensaio de Chesterton. O primeiro porque reflete a luta entre a religião e a mitologia, o segundo porque lembra o outro homem que supostamente vive dentro de nós (a que Chesterton chama macaco), e o terceiro porque amantes de face coberta é o equivalente a sexo entre bestas.

A arte, em geral, reflete a sua época. Gostar de uma pintura não nos deve impedir de saber como se chegou ali e qual a ideologia que lhe está subjacente. Se o freudismo originou o surrealismo não será exagero apontar a formulação de Freud como surreal. Trata-se do princípio da não contradição.

Traduzimos o ensaio, quase integralmente. Introduzimos pequenas notas para melhor compreensão. Dividimos o ensaio em capítulos para melhor ordenamento mental da narrativa e do conteúdo.

António Campos

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Chesterton, O Jogo da Psicanálise, The Century Magazine, 1923

Introdução

Pode dizer-se da psicanálise que ela é constituída pela própria substância dos sonhos.

A psicanálise deixou de ser uma mania porque foi elevada à categoria de moda. É uma moda. Apresenta-se tão visível ao homem comum como os manequins das lojas de rua.

É chegada a altura de alguém lhe dar um pontapé, no sentido de voltar a atribuir nomes corretos às coisas. Entendo seguir os princípios gerais da psicanálise ao não reprimir este impulso. Quem sabe se eu não ficaria traumatizado para o resto da vida e, consequentemente, impedido de alcançar o pleno das minhas potencialidades? É muito melhor dar livre curso ao meu impulso, rindo na cara do professor ou fazendo-lhe um gesto obsceno.

Bem, alguns considerarão esta minha sugestão um pouco exagerada ou até leviana; então voltarei ao objeto deste ensaio. Um objeto que, tal como o professor, é muito sério, embora não tão solene.

Andamos mais preocupados com o uso incorreto do termo do que com a sua utilização correta. O uso correto de um termo é algo de linear, lógico, confinado ao seu lugar. Colocado no seu lugar por um número limitado de especialistas. O uso incorreto de um termo é um evento histórico, uma revolução, uma coisa que envolve milhares.

A história da bolha dos mares do sul (1) não se conta por um desenho de algo que aconteceu numa ilha dos mares do sul. O que aconteceu de relevante não foi um evento remoto, mas a mais central e civilizada fábula ou ilusão.

Uma teoria é apenas um pensamento, enquanto que uma moda é um fato. Se certas coisas se apoderam dos centros da civilização, elas partilham o seu lugar na História, quer a sua origem tenha sido um equívoco ou não.

Se certos mahatmas são venerados por todos em Paris ou em Londres, de pouco importa que eles sejam considerados hereges no Tibete. Se certas danças de origem africana forem consideradas sedutoras pelos aristocratas da Europa ou da América, torna-se irrelevante que elas sejam consideradas obscenas e degradantes pelos próprios canibais de África.

A verdade é que o núcleo do verdadeiro estudo psicológico pouco ou nada tem que ver com a moda da psicanálise, tal como o núcleo do estudo biológico genuíno pouco tem a ver com a pantomina popular do elo perdido.

Tanto quanto uma ciência escrupulosamente científica realmente existe, ela possui entre os seus méritos certas características que a tornam incapaz de ser uma moda deste tipo. É característica de uma verdadeira ciência ter um conteúdo especulativo limitado e assente na demonstração prática, avançando com correções múltiplas, muitas vezes chegando quase até ao ponto de origem, outras contraditando-o. Para dar um exemplo de como uma ciência se aplica a problemas psicológicos, tomemos em conta o aforismo de contar carneiros para adormecer: à medida que os numerais aumentam, deixam de ser monossílabos e tornam-se progressivamente mais difíceis de pronunciar. Além do mais, o seu uso é menos comum. Nós raramente dizemos que queremos cento e setenta e três chapéus ou duzentos e dezessete bilhetes de comboio. Por isso, a ciência manda-nos contar, mas na verdade, isso resulta em que deixemos de contar.

Não nego que algum trabalho está a ser feito sobre o inconsciente, a memória e a associação de ideias. Mas, por ser um fato, é óbvio que esse trabalho não vai ser uma moda. Antes de avaliar a mente inconsciente não seria pior descobrir o uso da mente em si.

Métodos

As passagens mais citadas por estes intelectuais da psicanálise demonstram que são fortes em teorizar mas fracos a pensar.

Alguns dizem que Hamlet não só odiava o tio mas também odiava secretamente o pai, pela simples razão de que gostava da mãe. Em Hamlet há uma frase que diz “O mais importante neste tipo de coisas são apenas sombras”. Um professor que tente dissecar uma sombra, que pretenda usar a sua cabeça no estudo dos órgãos internos de uma sombra, ou demonstrar as deformidades de uma sombra, é um personagem de um pesadelo irreal. Trata-se de um sonho ainda mais incompreensível do que os sonhos que tenta interpretar. Até um escrivão consegue formar uma ideia correta quanto a este modo leviano de formar opiniões. Estes intelectuais transpõem para a vida real os truques usados na literatura.

Alguns dizem que alguém ao escrever uma conferência sobre dificuldades inesperadas (unforeseen) se enganou e escreveu dificuldades antecipadas (foreseen) e tomam isso como um ato falhado. Eu diria que quem faz uma conferência sobre dificuldades inesperadas não está a pensar, em consciência, em dificuldades não expectáveis e na apresentação de soluções para as superar, pois sabe perfeitamente que vai dizer um chorrilho de mentiras, pois as dificuldades inesperadas não podem ser, por definição, antecipadas. Há algum homem que por escrever matar camponeses (peasants) em vez de matar faisões (pheasants) deva ser considerado um homicida?

A marca do psicanalista é que ele sempre fala de complexos, mas nunca parece ter ouvido falar de complexidade. Por isso chamo a este movimento as simplificações doentias. Cada uma delas toma parte da verdade, por vezes uma centésima parte da verdade e, depois, oferece-a como toda a verdade.

Por exemplo, os calvinistas tomaram a omnisciência divina para sufocar todos os outros atributos divinos. Os seus descendentes, os deterministas, negaram qualquer escolha, negando mesmo a possibilidade de as pessoas escolherem aquilo que eles próprios dizem ser verdadeiro em detrimento daquilo que eles próprios dizem ser falso.

Os utilitaristas desfilaram a sua forma universal do interesse próprio, da mesma forma implacável, embora essa forma possa ser um trocadilho, pois os utilitaristas usaram a palavra próprio (self) como os psicanalistas usaram a palavra sexo (sex). Calvinistas, utilitaristas e todos esses homens de apenas uma ideia são abusadores intelectuais. O seu objetivo em dar nomes severos às coisas é arrepiar-nos, ao ouvirmos nomes feios atribuídos a coisas comuns e naturais.

Claro que a prossecução de qualquer ideal só pode ser levada a cabo numa alma consciente, num eu. Eles fizeram um trocadilho e chamaram a isto egoísmo.

O prazer que os intelectuais têm ao espalhar uma atmosfera de sexo sobre toda a expansão na direção da beleza ou da arte, lembra um rapaz que assusta as suas irmãs, falando sobre sangue como um ogre, quando, na verdade, apenas fez um pequeno corte no seu dedo.

A mesma irracionalidade se comete quando se pega numa pequena fração obscura e duvidosa da verdade e se publicita como a verdade e nada mais do que a verdade. É exatamente isto que se faz quando se apregoa a natureza sexual de todos os problemas não sexuais.

Que o instinto sexual é muito importante é uma evidência; que é difícil dizer o quanto ele influência outras coisas também parecem evidente. Agora o modo como certos especialistas falam do complexo materno (2), só indica que uma mãe é demasiado complexa para que eles a possam analisar. A sua ênfase não é tanto se existe algo como o instinto sexual, mas sobretudo negar que exista algo como o instinto maternal. Por esta teoria, uma galinha não se interessa por pintinhos mas apenas se interessa por frangos. Ou, o andorinha macho só traz comida ao ninho para os passarinhos fêmea, procedendo a fêmea de modo inverso.

Parece absurdo, mas não é mais absurdo do que afirmar que as mães não querem saber das filhas, tal como dizer que os pais ignoram os filhos. O que é fato é que o instinto parental é a força que corre na natureza que é de longe a mais poderosa e determinante que atravessa a natureza humana. É claro que a gentileza de um pai para uma filha ou o especial carinho de uma mãe para com um filho pode ter uma tonalidade indelével da diferença entre sexos. Mas essa tonalidade é, não só diminuta, como praticamente imperceptível.

Estas escolas monomaníacas nunca se preocupam com proporção ou equilíbrio. Aquilo que para elas é novo, agiganta-se no universo, ignorando ostensivamente aquilo que é, para toda a gente, verdadeiro. Aliás, qualquer pessoa sã diria sobre o assunto que, se é que existe, faz parte da mente subconsciente e, portanto, é melhor que continue inconsciente.

Mas é marca do agnóstico pretender estar consciente do seu inconsciente. E, por detrás de tudo isto, como no diabolismo dos calvinistas ou no materialismo dos utilitaristas, encontra-se muitas vezes uma atitude ou um padrão que consiste num prazer absurdo na brutalidade ou na blasfêmia.

O mesmo exercício, que consistiu em dizer que a maioria dos homens se encontra condenada ou que todos os homens são egoístas, é efetuado ao sugerir, embora de forma absurda, que a santidade da maternidade ou o amor às crianças tem como pano de fundo algo das trevas inumanas de Édipo.

O mesmo paralelo pode encontrar-se em muitas escolas de ética e política do nosso tempo. Tal como a mania de proclamar que tudo era sexo, assim foi a mania de proclamar que tudo era econômico. A noção marxista, a teoria materialista da história, tem nela o mesmo tipo de autoconfiança estúpida no centro do seu insuficiente materialismo.

Uma moda concebe tudo acerca do nascimento como sendo sexual, tal como podia conceber ser tudo acerca de apanhar minhocas. Isso seria inadequado até para os pássaros que, apesar de não fazerem mais nada a não ser comer e procriar, ainda não escreveram grandes ensaios do tipo “as ações douradas dos pintassilgos” ou “a vida das cotovias famosas”.

Todo o pensamento reside, pois, numa confusão entre as condições necessárias à vida e os objetivos de vida.

É óbvio que a vida não poderia continuar se a comida e o sexo não estivessem presentes, mas nada nos diz qual a importância da sua presença. Será como afirmar que, como um homem sempre se apoia nas suas pernas, sempre se desloca nas suas pernas, então as suas pernas são o único interesse da sua vida. Se ele corre para apanhar o comboio é apenas para exercitar as pernas ou, por outro lado, se herdar uma fortuna vai logo comprar um par de botas.

Claro que o homem só consegue progredir na história apoiado nos dois apoios que são a alimentação e a reprodução, mas que ele se preocupe apenas com estas coisas é desmentido por toda a História, e, só assim ele poderia ter alguma história. Se só existissem estes dois apoios não existiriam romances como “O Egoísta”, “O Império Romano”, “As Cruzadas”, “A Revolução Francesa” ou “A Grande Guerra”.

Objeto: o sexo e o subconsciente

A monomania da omnipresença do sexo, tal como a monomania da omnipresença da economia, pode ser refutada claramente pela experiência do mero homem comum. Tal como qualquer homem comum que se tenha apaixonado, que tenha apanhado uma bebedeira com os amigos ou que tenha ido passear no campo, sabe que existem muitos objetivos que não são econômicos, assim também qualquer adulto que alguma vez tenha olhado com ternura para um menino de três ou quatro anos, sabe que o complexo do pai é idiota e que o seu carinho faz parte de uma série de coisas que a psicanálise não analisa, entre elas o sentido do absurdo.

Estas modas passam rapidamente, mas existe uma consideração a fazer. É característico destas manias que embora nem sempre consigam convencer, elas turvam a mente. Sobretudo escurecem-na. Todas estas descobertas temporárias e tremendas têm a característica singular de que não são apenas degradantes, mas também deprimentes. Nenhuma deixa vestígios da verdade e das grandes conclusões deste mundo, mas cada uma deixa feridas graves e profundas e afastamento na mente do homem comum.

O caso contra a nova psicologia é meramente psicológico. Quando não pode ser tomada como ciência, deve ser tomada como doença. Um pesadelo nunca é verdadeiro e nunca dura muito, mas sempre se empina acima das estrelas e envolve o céu e a terra enquanto dura. É nosso dever dar um beliscão às pessoas, ao passar, para ver se elas acordam.

Claro que existem outras coisas na psicanálise para além da loucura de ver instinto sexual em todos os outros instintos ou ideias. A ideia fixa sobre a influência indireta do sexo é típica desta tendência. A maior verdade sobre a psicanálise é que não se trata de uma análise. Não é análise porque analisar significa decompor a realidade em todos os seus componentes básicos. No caso da alma, isso não pode ser efetuado de forma perfeita, e estes doutores ainda o fazem de forma mais imperfeita do que deveria ser feito. Eles encontram a sua causa predileta em casos em que um verdadeiro analista encontraria cinco ou seis causas; portanto os seus complexos continuam complexos. Acima de tudo, lidam com um complexo que deixam mais complexo que o próprio universo.

O outro grande objeto da psicanálise, além do instinto sexual, é o subconsciente. É evidente que ninguém pode analisar o que é inconsciente. Ninguém pode separar o todo nas suas mais pequenas partes elementares, contar esses elementos e estar seguro de que nenhuma falta. O máximo que se pode fazer é ter um esboço da coisa, não como os investigadores, que alegam conhecer quando nem sequer sabem se as coisas detectadas são significativas ou insignificantes, comparativamente às coisas que permanecem ocultas. Na verdade, é óbvio que entre as possibilidades do subconsciente se encontram todas as possibilidades psíquicas.

No momento em que uma coisa está fora da luz da consciência, não podemos saber que aliados possui nas trevas. Na verdade, nem podemos tão pouco saber se tem origem em nós ou não. Se algo vem de um local do qual não temos consciência, é óbvio que não podemos ficar seguros de que a sua proveniência apenas reside no nosso subconsciente. Tanto quanto sabemos são eventos de lado algum, pelo que podemos depreender que podem ser manifestações de qualquer lado.

Não podemos imaginar a existência de uma terra incógnita e depois traçar fronteiras entre as suas diversas nações, que desconhecemos. Estamos a melhorar da posição do filósofo que disse que uma “snark” era um “boojum” (3), apenas usando a nossa autoridade para afirmar categoricamente que uma “snark” não pode definitivamente ser um “boojum”. Tudo o que podemos afirmar sobre a região além do nosso consciente, é que ela pode conter qualquer coisa, desde o céu ao inferno.

A Mitologia

A poesia de cordel, a ficção da moda, as conversas na sala de estar e alguns títulos de jornal, enchem-se de mitologia ridícula sobre como todo o homem tem dentro dele uma espécie de macaco selvagem, idoso e microcéfalo. Fazem poemas melancólicos sobre como é fascinante o macaco que vive dentro do homem e há, inclusive, debates de natureza ética que visam definir se é o homem que comanda o macaco ou se é o macaco que comanda o homem.

Os homens esquecem-se que a inconsciência é, por natureza, inconsciente, tal como esquecem que o elo perdido sempre esteve por encontrar. Estão a fazer um retrato do homem subconsciente exatamente como fizeram um retrato do super-homem. Neste ambiente intelectual se a coisa não passar como uma moda só pode ficar como superstição. O mundo moderno pode ou pode não recuperar a religião, mas está rapidamente a construir uma mitologia.

A desconstrução moderna

Foi desta mitologia que eu aqui tratei, que ameaça ser uma superstição, ideal para selvagens, mas sem vestígio de qualquer tratamento para a mente humana. Reconheço que, nas mãos de homens verdadeiramente cientistas e de preferência sensatos, muito pode ser feito para que uma pessoa se liberte de memórias mórbidas ou associações bizarras. Mas, não há dúvida de que este lado sensato da análise se encontra no tempo em que o calvinismo iniciou a doença destas monomanias modernas. A nossa civilização, antes da emergência da filosofia calvinista, estava impregnada da filosofia católica. Os puritanos destruíram as instituições da sociedade medieval, uma a seguir à outra, e os modernos estão a restaurá-las uma atrás da outra. A única diferença é que uma coisa que tinha uma forma medieval moderada tem agora uma forma moderna extravagante.

O culto do feminismo tornou ridículo os protestos contra a Mariolatria. Existem seitas protestantes na América, hoje em dia, que recusam terminantemente honrar a mãe de Deus, embora se interroguem por que razão Deus não se chama mãe em vez de Pai.

O culto do esteticismo tornou ridículos os protestos contra o ritualismo. William Morris coloca em papel de parede os símbolos que os católicos foram proibidos de colocar nas suas paredes.

Uma vez que os homens não deveriam recitar a Ladainha da Virgem com reverência, Swinburne reescreveu-a para que eles a pronunciem como uma blasfémia, dirigida a uma prostituta.

Uma vez que os monges praticavam um comunismo voluntário em pequena escala que era tido como superstição, vieram os bolchevistas impô-lo a todos os homens numa escala colossal.

Uma vez que destruímos as confrarias medievais que eram conservadoras, somos agora compensados com os sindicatos que são revolucionários.

O mundo moderno rejeitou, como inacreditável, os milagres medievais que envolviam relíquias e lugares sagrados e resolveu criar os seus próprios milagres com mesas e pandeiretas (4); negou que um morto pudesse vir a adquirir um corpo glorioso e vive para ouvir os seus cientistas dizer que podemos ter um clube de golf glorioso (5) e um brandy com soda glorioso.

Não existe uma única instituição medieval que não tenha sido ridicularizada e destruída e que não ressurja agora como paródia na sociedade moderna.

Talvez faltassem algumas que agora aparecem. A psicanálise é o repor do confessionário.

O mundo moderno realmente carrega um fardo pesado de secretismo. Sempre a falar de iluminismo e opinião pública, tem mais segredo, no pior sentido, que qualquer outra época. Os seus políticos conservadores são financiados por fundos de proveniência duvidosa; os seus políticos revolucionários pelas sociedades secretas. Em termos afetivos, desenvolveu-se de forma mais fria e venenosa. O aspecto mais saudável desta nova psicologia é que é apenas mais um surto dessa secreção.

Do ponto de vista prático a comparação permanece. Quer faça ou não todo o bem que o confessionário faz, seguramente fará todo o alegado mal que o confessionário era acusado de fazer. Está de acordo em toda a linha com a velha acusação: a falta de decoro da matéria em questão e a falta de dignidade do destinatário.

Na verdade, a acusação comum é mais evidente contra um experimentalista ocasional do que contra um dedicado celibatário. Um padre pode ser libertino e quebrar os seus votos, mas não é evidente porque razão um libertino inveterado não deveria ter também votos para quebrar.

Mas toda esta comparação vai além da questão aqui em consideração. Basta dizer que também nesta questão o mundo moderno cópia de forma enviesada o mundo medieval, que condena furiosamente. E, se é verdade que isso é um defeito, deve dizer-se que este é o modo mais próximo que ele se aproxima da virtude.

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1 The South Sea Bubble, foi a denominação que se deu ao crash bolsista na City da cotação da Companhia dos Mares do Sul. Esta companhia financiou a Inglaterra na Guerra de Sucessão Espanhola e, em contrapartida ficou com o monopólio do comércio com toda a América do Sul. Claro que isso tornou a companhia muito atractiva em  bolsa, devido ao potencial de ouro e prata da América do Sul. Após uma especulação selvagem sobreveio o colapso.

2 Complexo materno: grupo de ideias ou sentimentos associados à imagem da mãe. Complexo de Electra: a criança identifica-se tanto com a mãe que deseja matá-la para possuir o pai.

3 Lewis Carrol, autor de Alice no País das Maravilhas, escreveu um poema em que fala de um animal imaginário que não chega a descrever. Disse que não podia explicar, porque nunca o viu. No entanto dizia que o/a snark arranha ou morde. Caça-se o/a snark com força e coragem pois o animal tem um fraco sentido de humor e gosta de acordar tarde. O boojum é um tipo particular de snark que fez com que um padeiro desaparecesse e nunca mais fosse encontrado.

4 Referência à psicanálise e às suas filhas, a hipnose e a hipnose regressa e, provavelmente, também ao espiritismo.

5 Hoje poderíamos dizer um clube de futebol glorios

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