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O MEU AMIGO CHESTERTON

 O MEU AMIGO CHESTERTON

Por António Leite da Costa
Publicado no site da Sociedade Chesterton Portugal
Uma sociedade entra em decadência, definitiva ou transitória, quando o sentido comum se torna pouco comumG. K. C.
       Há amigos que andaram connosco na escola, jogaram connosco à bola, estiveram ao nosso lado em inolvidáveis vitórias e sofreram derrotas, como todos nós, que gostaríamos de esquecer. Há amigos que começaram a fazer parte da nossa vida anos mais tarde, já no velho liceu ou nos bancos da universidade: partilharam a mesma mesa de café, entraram em discussões infindáveis e criaram uma tertúlia comum, comentando os mesmos jornais e revistas ou lendo autores e livros que ainda hoje relemos com um misto de reverência e de saudade. Há amigos que encontrámos no emprego, como se estivessem desde há muito à nossa espera, desejosos de conversar sobre os problemas do dia-a-dia, sobre as questões de trabalho, sobre os assuntos correntes e, mais ainda, sobre os assuntos contracorrente, aqueles de que ninguém mais fala e, para nós, falam mais fundo. Há, finalmente, aqueles amigos com quem nunca falámos pessoalmente ou até nunca vimos fisicamente ou, embora pareça impossível, nem sequer temos deles uma imagem definida e precisa. E, no entanto, são amigos verdadeiros, estão sempre disponíveis e nunca nos abandonam, a qualquer hora do dia ou da noite. Conversam connosco muitas vezes, em conversas prolongadas e atentas, sem berros nem alaridos, num murmúrio agradável, quase em silêncio, mas sempre alegres, amigas, familiares e fraternais. São os nossos autores, que fazem parte da nossa família espiritual, que connosco compartilham os bons e os maus momentos, custódios que estão sempre a nosso lado, esperando com paciência e sem pressa, que lhe peguemos na mão com se crianças fossem…Eles que tanto nos ensinam, tornam-se assim simples e humildes, naturalmente à nossa espera nessa prateleira reservada da nossa biblioteca e, por certo, sem o sabermos ou ouvirmos, em amena cavaqueira uns com os outros.

       Os nossos autores são também nossos amigos. Amigos que nos acompanham pela vida fora, e que, ao contrário dos outros, de carne e osso e de corpo e alma, levamos connosco quando mudamos de casa ou na bagagem quando viajamos ou vamos de férias. Todos nós temos amigos destes, com quem gostamos de falar, lendo os seus livros, discutindo as suas ideias, aceitando os seus conselhos. Uns, lemos e relemos, de tempos a tempos, como que a pedir-lhes amparo e apoio, em momentos mais difíceis da nossa vida. Outros, parecem aqueles amigos que um dia desapareceram da nossa vida, mas não do nosso coração, e reencontramos, alegres e felizes, anos mais tarde, por mero acaso, se acaso o acaso existe.

       Pois um dos meus melhores amigos é Gilbert Keith Chesterton – também conhecido como G. K. C. -, escritor inglês que nasceu em Londres em 1874 e faleceu em Beaconsfield em 1936. Não esperou por mim para nascer e quis Deus que já tivesse falecido quando meus pais me levaram à pia baptismal. Não nos cruzámos, por isso, fisicamente e durante alguns anos segui a minha vida, sem imaginar que haveria de estabelecer com ele laços de profunda amizade. Encontrei-o naturalmente numa livraria, no início dos anos sessenta do século passado. Trouxe-o logo para casa e acabámos a conversar os dois sobre o tema do bem e do mal. Não me recordo já em que dia da semana isso ocorreu. Mas lembro-me perfeitamente do título do livro: O Homem que era quinta-feira, numa edição da Portugália Editora. Também eu, como tantos, fui atraído por essa poderosa alegoria em que aparentemente se misturam os anarquistas com os defensores da ordem pública e que não é mais do que a refutação simbólica do maniqueísmo e a subtil defesa da unidade da natureza e da unidade divina. É conhecida a influência que exerceu sobre muitos intelectuais no século vinte e convém recordar que também deu origem a conversões. Por ela houve quem reencontrasse Cristo: foi o que sucedeu, em 2007, com a jornalista Dawn Éden, especialista em música “rock” e que abraçou a fé católica depois de ler esta obra.

       Tornei a encontrar Chesterton ainda nos anos sessenta: Os disparates do mundo, numa edição da Livraria Morais Editora, com tradução e prefácio de José Blanc de Portugal. O título era também sugestivo e o texto seduzia da primeira à última página. Nunca se preocupando com o que estava na moda, pois esta é mais volátil do que o éter, trazia-me uma série de considerações aparentemente paradoxais mas sobretudo eivadas de um sólido e fino bom senso. O sentido do homem comum, que tem os pés bem assentes no chão e a cabeça bem presa no seu devido lugar, era assim vertido numa prosa que me agarrava com ambas as mãos e não mais me largava.

       Já no início de setenta encontrei-me com ele em Ortodoxia, edição da Livraria Tavares Martins, do Porto, com um estudo-prefácio de João Ameal  “A Revolução de Chesterton”. É, como sabemos, um dos livros fundamentais de G. K. C. e que tem uma história curiosa que penso não ser maçada recordar. Três anos antes da publicação de esta obra de referência, talvez hoje ainda mais do que em 1908, editou G. K. Chesterton um livro que causou grande polémica, o que era aliás de pleno agrado para o seu autor, intitulado Heretics (1905) – agora traduzido em português – e em que se criticavam, com vigor e humor, as opiniões religiosas do seu tempo que, curiosamente, em nada diferem das dos dias de hoje, desbravando assim o caminho para um claro e honesto debate sobre o fundamento do mundo contemporâneo. Nesta obra eram visadas as posições sobre esta matéria de alguns autores da moda como Rudyard Kipling, Bernard Shaw, H.G. Wells, George Moore, Lawes Dickinson, McCabe, entre outros, que se diziam ateus, embora como afirmava paradoxalmente Chesterton: “ Hoje, o próprio ateísmo é para nós demasiado teológico”. Ora, o crítico G. S. Street escreveu a propósito de Hereticsque não se ia preocupar com a sua teologia sem previamente saber qual era o pensamento do próprio Chesterton, em que é que ele afinal acreditava, desafiando-o a apresentar publicamente aquilo em que cria, os princípios que defendia, os valores pelos quais se batia. G. K. Chesterton nunca recusava um desafio; enfrentava-o e, normalmente, vencia-o. Assim nasceu Ortodoxia.

       Numa recente edição inglesa ( Hodder and Stoughton, Ld, London, 1999), Philip Yancey conta na introdução que um jornalista perguntou a G.K.C. que livro levaria para uma ilha deserta, ao que este respondeu, com o seu inato sentido de humor e após um breve momento de reflexão: Why, A Practical Guide to Shipbuilding, of course. E acrescenta Philip Yancey que, tirando a Bíblia, ele levaria a Ortodoxia de Chesterton. De facto, esta é uma obra fundamental não só para compreender o pensamento chestertoniano mas, o mais espantoso, uma das melhores apologias do catolicismo escrita por um autor que, à data, ainda não era católico – recebeu o baptismo a 30 de Julho de 1922 -, embora descubra no Credo dos Apóstolos a explicação mais perfeita do insondável mistério da vida e da existência humanas. Do mistério que, como ele próprio diz, é a saúde do espírito. Outro aspecto relevante de esta obra, e que nem sempre é devidamente realçado, é a imediata influência que exerceu sobre alguns intelectuais ingleses que se acolheram, à Igreja Católica Romana, como Eric Gill, Dorothy L. Sayers, Theodore Maynard, escritor que teve um certo renome entre as duas guerras, e, muito provavelmente, Maurice Baring.

       Foi também no decénio de setenta que li de Chesterton, ou, talvez melhor, com Chesterton, o S. Tomás de Aquino, com tradução e notas de António Álvaro Dória, numa edição –a terceira , de 1957 – da Livraria Cruz, de Braga. Corria então o ano de 1974. Assinalavam-se por todo o mundo culto os setecentos anos da morte do grande e sábio santo dominicano. Sem a mais leve suspeita do seu extraordinário valor, li a melhor introdução ao pensamento tomista, assim considerada por especialistas de renome internacional como Étienne Gilson, Jacques Maritain, Anton C. Pagis, Gillet, O. P. e, logo no ano seguinte, por outro erudito tomista dominicano, James A. Weisheipl, O. P. que, para além dos elogios que presta ao autor desta biografia de São Tomas de Aquino, refere que foi pela sua leitura que se fez dominicano e tomista. A facilidade com que G.K.C. escreveu esta biografia revela não uma profunda erudição ou um conhecimento pormenorizado da vida e da obra do monge italiano, como os autores que antes citei, mas sobretudo uma estreita ligação de pensamento, enraizada no sentido comum, na realidade humana, na verdade das coisas tal como são e não na loucura dos homens que as distorcem e transformam continuamente. O escritor inglês, que foi católico antes de ser recebido na Santa Madre Igreja, era também discípulo de S. Tomás, tomista de corpo e alma, sem nunca ter queimado as pestanas, em longas noites de insónia, a discutir as questões filosóficas e teológicas levantadas pelo Aquinense. E é por isso que continua a ser a melhor introdução ao pensamento de S. Tomás.

       Outra obra cuja leitura me encheu a alma foi o estudo de Gustavo Corção:Três alqueires e uma vaca, da Livraria Agir Editora, do Rio de Janeiro, e já em sexta edição, em 1961, e cuja capa tinha um desenho do próprio G. K. Chesterton. A primeira publicação desta obra é de 1946 e demonstra a profunda ligação do extraordinário prosador brasileiro ao admirável escritor britânico. Aquando do centenário do nascimento do autor de Ortodoxia, escreveu Corção no jornal O Globo, de 6 de Junho de 1974, um artigo que começava assim: “ Graças à vigilância de António Olinto, na sua Porta de Livraria de O Globo, chego ainda a tempo de saudar o centenário de G. K. Chesterton, o incomparável escritor inglês que mais indelevelmente me marcou a alma nos dias em que andei perdido pelo mundo a procurar uma luz, luz de João e Maria, luz de Casa, luz de acolhimento entre as trevas de meu triste exílio. Devo a Chesterton as primeiras alegrias católicas.” Mais adiante, acrescenta: “Grande falta nos fazem hoje autores como Chesterton, que souberam desarmar, denunciar, desmascarar os ídolos, os ideais dos tempos modernos, que não passam das antigas virtudes cristãs tornadas loucas ou perversas.” E termina: “ Não me canso de agradecer a Deus o facto de ter encontrado Chesterton nos dias de desolação em que, sempre crendo em Deus-Todo-Poderoso, Criador do Céu e da Terra, das coisas visíveis e invisíveis, não conseguia, entretanto, encontrar a alameda e a porta de Sua Casa (…) O resto da apologia e deste estudo está no livro Três alqueires e uma vaca, que escrevi quando, graças a Chesterton, entre tantos autores e amigos, consegui passar no vestibular da Casa do Pai, isto é, consegui voltar à Fé e à Igreja do meu baptismo. Ave Maria!”

       Do convívio com G. K. C. pela mão amiga e sabedora de Gustavo Corção – duplo e gratificante convívio -, passei para a leitura da Autobiografia, numa edição da Livraria Morais Editora (Lisboa, 1960, tradução e notas de Luís Sousa Costa). Foi o último livro que escreveu, embora tenham saído postumamente várias obras, sobretudo recolha de textos de carácter ensaístico. Para grande alegria dos seus muitos leitores e amigos. Como sucedeu também com esta Autobiografiachestertoniana em que a agilidade do Autor, verdadeiro caçador de lugares-comuns, ao jeito de Léon Bloy, nos atrai e nos cativa desde as primeiras páginas. Mas há também neste livro todo um percurso espiritual que o leva ao encontro da Igreja Católica Romana, terminando na Cidade Eterna, em pleno Vaticano.Deixemos que seja o próprio Chesterton a contar-nos: Esta história não pode, portanto, deixar de acabar como as histórias policiais, ou seja, com as respostas aos problemas e com a solução do problema original. Milhares de histórias totalmente diferentes, acabam da mesma maneira, com o problema resolvido. Mas, para mim, o meu fim é o meu começo, como diria Maurice Baring, citando as palavras de Maria Stuart; e esta convicção esmagadora numa chave capaz de abrir todas as portas me leva à memória do meu primeiro pressentimento do dom maravilhoso dos sentidos, feito ao homem, e da experiência sensacional da sensação. E eis que se ergue à minha frente, claríssimo e recortado como nos velhos tempos, o perfil de um homem atravessando uma ponte com uma grande chave debaixo do braço, tal como o vira no dia em que os meus olhos se abriram pela primeira vez para o mundo das fadas, pela janela que dava para o teatro de bonecos construído pelo meu pai. Mas eu sei agora que aquele a quem chamam o Pontífice, o artífice da ponte, se chama também o Porteiro, o homem das chaves; e que as chaves lhe foram dadas para fechar e para soltar, no tempo em que ele era um simples pescador, numa província distante nas margens de um pequeno mar, quase secreto.

       E vieram depois as edições em língua castelhana, publicadas ora em Espanha, na Argentina ou no México. A primeira foi uma edição castelhana de A Inocência do Padre Brown, com tradução do escritor mexicano Alfonso Reyes, adquirida, numa tarde de verão, na velha Casa del Libro, em plena Avenida José António, em Madrid. Posso assim dizer que foi em Espanha que Chesterton me apresentou o seu querido amigo Padre John O’Connor, de Bradford, irlandês sensível, de espírito agudo, com aquela ironia profunda e aquele potencial de irritabilidade que é próprio das pessoas da sua raça e, ao mesmo tempo, airoso e delicadopessoa divertida e que diverte. O Padre O’Connor que tanto apoiou Chesterton no campo espiritual – foi a ele que G. K. C. se abriu em confissão pela primeira vez – serviu-lhe de modelo e inspiração para o famoso detective Padre Brown que todos os amantes da boa literatura policial tão bem conhecem. E que, diga-se a propósito, influenciou grandes escritores do género. Há referências directas ao Padre Brown ou a Chesterton em Ellery Queen (O mistério dos fósforos queimadosA prova dos nove), S. S. Van Dine (O caso Benson), Agatha Christie (Crime no vicariato), só para citar, e meramente a título de exemplo, alguns dos mais conhecidos e apreciados pelos leitores contemporâneos. O sacerdote-detective e o seu criador exerceram também uma definitiva influência na obra de Dorothy L. Sayers, sem dúvida uma das mais populares escritoras de romances policiais do século vinte.

       Do Padre Brown – cujas obras li anos mais tarde em tradução portuguesa – se pode dizer, usando as palavras do meu bom amigo Gustavo Corção, que a sua força “ está no bom-senso e no olhar poético e místico com que vê o mundo. Está até numa certa dose de distracção e sonolência com que se alivia do penoso trabalho de catar pontas de cigarros e impressões digitais. Diante dos dados concretos, candidamente apreendidos, interpretados muitas vezes ao pé da letra, ele se encontra em simpatia com o criminoso, e inventa poeticamente, ou recorda misticamente, como praticaria ele o crime.” E sempre impregnado da razão, mesmo quando parece distraído, a ponto de perder o guarda-chuva ou de não saber onde está. Foi por isso que logo na primeira aventura – A Cruz Azul -, espécie de cartão de visita de apresentação a todos nós, desmascara o falso sacerdote ao dizer-lhe que teve a certeza de que não era padre quando atacou a razão. Para logo acrescentar: É má teologia.

       É ainda de este período a leitura de O homem que sabia demais, também em tradução castelhana, e que constitui um soberbo relato de mistério e de intriga sobre a corrupção política desenvolvida pelas altas esferas por meio de influências familiares e pessoais, nem sempre claramente visíveis e apercebidas de imediato, em que a personagem principal e verdadeiro detective, Horne Fisher, parece inspirado no velho amigo de Gilbert Keith Chesterton, o escritor e homem polifacetado Maurice Baring.

       Numa edição de bolso, igualmente em castelhano mas agora publicada na Argentina, continuei a conversar amenamente com G. K. C. através de A Esfera e a Cruz, uma trepidante novela em que as duas principais personagens – um empedernido ateu e um fogoso católico – passam pelas mais inesperadas e mirabolantes aventuras para se baterem em duelo em defesa das suas ideias, sem nunca o conseguirem. Com naves espaciais à mistura, discussões quase kafkianas, entradas e saídas de manicómio e intermináveis perseguições policiais, temperadas sempre com o fino humor chestertoniano. O original inglês – The Ball and the Cross – foi publicado em 1911. Quinze anos depois influenciou O Processo, de Kafka e deixou marcas em Admirável Mundo Novo (1932), de Aldous Huxley, eem George Orwell. Também num livro italiano, do Cardeal Albino Luciani, Patriarca de Veneza, Ilustríssimos Senhores, que ao jeito de Giovanni Papini, reúne uma série de cartas dirigidas a personagens célebres, entre as quais uma ao “Caro Chesterton”, se faz uma excelente análise da actualidade de esta obra. Diga-se, a propósito, que o Cardeal Patriarca de Veneza foi, pouco depois, eleito Papa com o nome de João Paulo I. Há uma questão se fundo que percorre todo o livro: quando nos empenhamos em destruir a cruz, ou seja a religião cristã, estamos no fundo a destruir-nos a nós próprios, porque este sinal – com os dois braços abertos -, estende-se indefinivelmente e acolhe dentro de si todas as coisas, ao contrário da aparentemente perfeita e monótona esfera. Curiosamente, o livro começa com um debate entre o professor Lúcifer e o monge Miguel, cuja controvérsia se inicia exactamente no ponto em que a esfera e a cruz se intersectam, na cúpula de S. Paulo, em Londres.

       Foi durante estes anos que se cimentou entre mim e G.K.C. uma sólida amizade. Os anos seguintes que, somados, já ultrapassam um quarto de século, serviram para reforçar este permanente e contínuo convívio, através da leitura de romances, ensaios, biografias ou poemas. Há por vezes a tentação, quando gostamos de um autor, de adquirirmos as obras completas, em bonita e sólida encadernação, daquelas que ficam como que a luzir na prateleira. Mas a ideia não me parece muito boa, pois a maior parte das vezes ficam a luzir e a dormir, já que raramente nos abalançamos a pegar nos grossos volumes e a levá-los connosco debaixo do braço. Agrada-me muito mais ter várias edições, de formas e formatos diferentes, que se podem transportar facilmente e ler em casa, no café, nos transportes públicos ou na praia. E edições noutras línguas, por vezes enriquecidas com excelentes prefácios e abundantes notas que demonstram quantos amigos tem o meu autor noutras terras e paragens. Foi assim que fiz com o meu amigo G. K. Chesterton. Entre algumas edições de bolso na língua original, há várias edições em castelhano, prova do profundo interesse por este autor no mundo hispânico, e também italianas, de que saliento um Francisco de Assis – “ La vita di un trasgressore, grande Santo della Cristianità, nel raconto di un maestro dell’humour”, como nos diz o editor, Guida Editori, Napoli, 1990 – que adquiri, há anos, num alfarrabista em Siena. Infelizmente, não há nenhuma edição portuguesa de St. Francis of Assisi (1932), mas há uma brasileira.

       Já num artigo publicado no início da sua carreira literária (Speaker, 1 de Dezembro de 1900) tinha escrito Chesterton: A maioria das pessoas diz que a acção de S. Francisco encerra uma contradição fascinante. Expressou a ideia de que o riso é tão divino como o choro com uma linguagem muito mais fina e audaciosa do que qualquer outro pensador de este mundo. Chamava aos monges os saltimbancos de Deus. Os pássaros que passavam voando sobre ele, as gotas de água que caíam por entre os seus dedos nunca deixaram de lhe causar uma grande alegria. Seguramente foi o mais feliz dos filhos da humanidade. E, contudo, este homem fundou a sua regra inequivocamente sobre a negação do que nós consideramos necessidades imperiosas. Com os três votos que instituiu, pobreza, castidade e obediência, privava-se a si mesmo e aos que mais queria da propriedade, do amor e da liberdade. Por que é que o espírito mais poético e generoso da sua época encontrou nessas terríveis renúncias o ambiente que mais lhe agradava? Por que procurava fechar os olhos àquilo que os outros mais desejavam, ele que amava o que mais ninguém via? Por que foi um monge e não um trovador? Estas questões são demasiado amplas para poder ser contestadas aqui; deviam, no entanto, colocar-se em algumas das suas biografias.

       Joseph Pearce, professor universitário inglês que nasceu em Londres em 1961 e se converteu ao catolicismo pela mão de Chesterton, autor de importantes estudos sobre G.K.C., entre os quais uma sólida biografia – Wisdom and Innocence. A Life of G. K. Chesterton (Hodder and Stoughton, London, 1996) – afirma, com toda a razão, que este texto bem poderia servir de introdução à biografia de S. Francisco de Assis que o escritor inglês escreveu no seu estilo inconfundível, extraordinariamente apelativo e profundamente cristão. Foi a primeira biografia redigida após a sua conversão ao catolicismo, e um dos seus maiores êxitos literários, que viu em S. Francisco um místico da luz do dia e da obscuridade, mas nunca da penumbra, um poeta que vivia a poesia e, sobretudo, um frade que descobriu a melhor forma de acção: a acção de graças.

       A amizade implica sempre uma estreita relação entre a comunicação, que é o seu verdadeiro fundamento, e a expressão de essa amizade, que a consolida e solidifica, ou seja, o convívio. É através desse continuado e permanente convívio que melhor fortalecemos a amizade, ao mesmo tempo que nos apercebemos da riqueza interior do amigo escolhido, percorrendo em comum a sua vida, identificando-nos com princípios, valores e ideais que, como nós outros, persegue e defende, com persistência e segurança. E, por isso, é igualmente com agrado que vemos que, pela mesma razão, muitos o admiram e respeitam. Daí o meu natural interesse em textos, que antecedem algumas das suas obras, assinados por escritores que não escondem a sua relação, também ela afectiva e não apenas intelectual, com G. K. Chesterton. A lista seria imensa se fosse completa, e dificilmente estaria actualizada, dada a constante reedição de obras de G. K.C., quer em inglês, quer em traduções, nomeadamente em castelhano, pois a admiração pelo criador do Padre Brown é enorme no mundo hispânico, como já referi. Mas, mesmo assim, atrevo-me a citar a introdução de André Maurois à biografia de William Blake (edição castelhana); a selecção de ensaios chestertonianos e respectivo prólogo de Alberto Manguel, com o sugestivo títuloCorrer atrás do chapéu e outros ensaios (edição castelhana); o texto, fundamental, do seu inseparável amigo Hilaire Belloc – Bernard Shaw chamava à dupla de amigos, Chesterbelloc – que serve de introdução a uma antologia deEnsaios, em edição mexicana; a apresentação de O Poço e os Charcos (The Well and the Shallows, 1935) – uma das últimas obras publicadas ainda em vida de Chesterton – pelo presidente da Sociedade Chestertoniana Argentina, Horácio Velasco-Suárez, em recente edição argentina; e as palavras introdutórias do romancista espanhol contemporâneo Juan Manuel de Prada a O Homem Eterno(The Everlasting Man,1925), também numa recente edição espanhola. Esta obra, edição portuguesa da Aletheia 2009, marcou profundamente o conhecido escritor irlandês C. S. Lewis, criador das crónicas de Nárnia e das famosas Cartas do diabo ao seu sobrinho, e o romancista inglês Evelyn Waugh.

       A influência de Chesterton na sua geração foi imensa, embora alguns dos seus melhores estudiosos considerem, e creio que com razão, o seu século seja verdadeiramente o século XXI que alguém já se atreveu mesmo a chamar “O Século de Chesterton”. De facto, encontram-se referências elogiosas em intelectuais tão diferentes como Ezra Pound, Jorge Luís Borges, Ronald Knox, Aldous Huxley, Graham Green, J. R. R. Tolkien, entre muitos outros. O interesse que a sua vida e vastíssima obra continua a suscitar é claramente visível se tivermos em conta as várias sociedades chestertonianas e revistas que lhe são dedicadas um pouco por todo o mundo: Argentina, Austrália, Brasil, Canadá, Chile, Croácia, Espanha, Estados Unidos, França, Inglaterra, Itália, Lituânia. O dinâmico presidente e fundador da American Chesterton Society, Dale Ahlquist – que também se converteu ao catolicismo através da leitura de Gilbert  Keith Chesterton – é autor não só de livros sobre este escritor mas também de uma série de televisão G. K. Chesterton: The Apostle of Common Sense para a cadeia de televisão americana EWTN.

       Em 1996, políticos, diplomatas e um arcebispo argentino pediram que se iniciasse o processo de canonização de Gilbert Keith Chesterton, inicialmente sugerido com a formação da sociedade britânica em 1974. Tudo, porque a sua marca é constante, a sua presença é permanente, a sua influência é indiscutível. Também a sua desconcertante inteligência, natural bondade e alegria de viver, solidamente alicerçadas numa fé inquebrantável, parece que conseguiram crescer ao virar do século vinte e são, cada vez mais, a melhor chave para abrir as portas do nosso século vinte e um. Talvez por isso, Nicolae Steinhardt (Bucareste, 1912- Rohia, 1989), escritor romeno, da geração de Mircea Eliade, Eugen Ionesco, Emil Cioran, Vintila Horia ou Alexandru Ciarãnescu, autor de um livro verdadeiramente extraordinário, de uma grande densidade humana e enorme riqueza cultural e espiritual – O Diário da Felicidade (1991) -, publicado postumamente, e que é hoje a obra mais lida na Roménia com mais de 200.000 exemplares vendidos, onde nos relata a sua vida, grande parte passada nas prisões comunistas em que, no meio de constantes privações, encontrou Cristo, fonte de perene e autêntica felicidade, deixa escapar um – mais que actual -: São Chesterton, rogai por nós!
                                                     ANTÓNIO LEITE DA COSTA

ADENDA – Este texto foi redigido em 2008. Felizmente, a apetência por Chesterton cresceu nestes últimos tempos e foram, por isso, reeditadas, em Portugal, algumas obras: Ortodoxia (Alêtheia Editores) e Disparates do Mundo(Diel), em 2008; O Homem Eterno (Alêtheia Editores), este pela primeira vez e em boa hora editado entre nós, e S. Tomás de Aquino (Civilização Editora), em 2009. Também o interesse pelo processo de canonização de G. K. Chesterton foi renovado e no passado dia 4 de Julho de 2009 realizou-se na Capelania católica da Universidade de Oxford um encontro de chestertonianos que comungavam essa mesma intenção. Abriu o colóquio uma comunicação do presidente da Chesterton Society Britânica, William Oddie – “Fé, Esperança e Caridade, as virtudes fundamentais de Chesterton”  -, que serviu de mote para a referência à prática da virtude pelo escritor inglês e que a Igreja exige como requisito para abrir uma causa de beatificação. Sheridan Gilley falou sobre “ a santidade de G.K.C. como jornalista”; o Padre Ian Kerr discorreu sobre “ humor e santidade”; o professor dominicano Aidan Nichols – autor do importante estudo, The Thought of Benedict XVI. An  Introduction of the Teology of Joseph Ratzinger, Londres, 2006 – aflorou a hipótese de Chesterton, “defensor da Fé”, como lhe chamou o Papa Pio XI, ter a verdadeira dimensão de um “doutor da Igreja”. Ideia também subscrita por William Oddie. O presidente da American Chesterton Society, Dale Ahlquist, lembrou a difusão da fé cristã pelas obras de G. K. C. – que o Papa actual, S. S. Bento XVI também lê e cita -, realçando a análise profética que faz do nosso tempo e que é verdadeiramente notável. Joseph Pearce, professor de literatura da Ave Maria University, da Florida, Estados Unidos, descreveu o seu “encontro” com G.K.C. e a sua conversão ao Catolicismo, enquanto William Oddie sublinhou, uma vez mais, o carácter de G. K. Chesterton que “odiava a heresia mas tinha uma extraordinária capacidade de amar o herético”.

    Por tudo isso é este escritor tão actual e me atrevo, de novo, a repetir: São Chesterton, rogai por nós!

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