O que a Idade Média significou para a Europa

G. K. Chesterton * 1874 / + 1936

Traduzido do inglês por Alex Catharino

Comprometi-me a falar sobre a Idade Média. Tentarei ser impiedosamente neutro, deixar de lado tudo de controverso, e não dizer nada que não seja admitido pelos historiadores de praticamente todas as escolas. Entretanto, para começar, quero fazer uma ressalva. Desejo ser justo convosco e, por isso, também desejo que sejais justos comigo. Não sejais tão tendenciosos, supondo previamente que sou preconceituoso. Como podeis ver, tenho uma desvantagem, já que a própria palavra “medieval” é usada como um termo pejorativo. As pessoas têm chamado de medieval o gás venenoso, embora seja mais moderno do que os telefones. Mas isso porque simplesmente chamam de “medieval” qualquer coisa que não gostam. Ao menos adotai o medievalismo por seus méritos intrínsecos, como fizestes com as grandes culturas da Hélade e da China, sobre as quais trataram dois homens ilustres ao vos dirigir a palavra. Quando estais aborrecidos com vossa tia, não sibilais a palavra “helênica”, mas podeis chamá-la de “medieval”, apenas porque tal adjetivo significa que é velha, embora a Grécia Clássica seja muito mais antiga que a Idade Média. Ou, então, dirão: “O sr. Chesterton, com sua mentalidade medieval, acha que a cidade de Lincoln tem uma bela catedral”. Mas, não vão dizer: “o sr. Arthur Leigh Ashton (1897-1983), com sua mentalidade mongol, pensa que Confúcio (571-479 a.C.) foi um grande homem”. Permitis que Leigh possa pensar que Confúcio era grande, porque era; permitais que pense que as catedrais são grandes, porque são. Ou ainda, lá vem toda aquela conversa sobre “voltar à Idade Média”. Não pensais que o sr. Leigh desejasse que todos deixassem crescer tranças porque elogiou a China, nem é provável que todos saíssem correndo para o oráculo de Delfos, ou adorassem Diana, ou qualquer coisa tão bela. Entretanto, as pessoas “têm” uma ideia confusa de que qualquer elogio a alguma coisa medieval signifique desejar que todos aprendam a utilizar o arco longo ou as técnicas de falcoaria. Podemos abandonar o uso dessa palavra como um jargão e concordamos em ser mais justos com nossos antepassados como se fossem gregos ou chineses?O termo “Idade Média” é utilizado de modo pouco rigoroso para o período da longa transição entre o colapso do Império Romano e da expansão comercial e material de hoje, iniciada, grosso modo, com a expansão geográfica europeia que descobriu a América em 1492. Ora, a primeira coisa que me surpreende, a partir de uma leitura bem ampla e sem pretender tornar-me um especialista, é que o Império Romano terminou muito lentamente, ou que ninguém soube exatamente quando acabou. Estamos acostumados a coisas sensacionais acontecendo, nos jornais e noutros lugares, e temos uma vaga ideia de alguém lendo uma manchete: “A queda de Roma”. Mas Roma nunca caiu dessa forma. Já existiam chefes locais e pequenos reis em todos os lugares sob o domínio do Império Romano, que gradualmente foram expandindo seus domínios, saindo do feudalismo para as grandes nações, mas mesmo assim o Império se reafirmou como o Sacro Império Romano Germânico na metade da Idade Média. Tende esta imagem clara — o pano de fundo do grande império cosmopolita apenas mudando lentamente, porque essa é a chave para muitas coisas medievais, boas e ruins. Assim, como um exemplo do que poderíamos chamar de bom, o mundo era, naquela ocasião, muito mais internacional; agora é muito mais nacional. Esquecemo-nos disso, precisamente porque agora estamos muito ligados à ideia do nacional. Somos ingleses, e espero que patriotas, mas a questão vai muito além. Milhares de nós não podem imaginar qualquer coisa que não seja inglesa, e é assim com a maioria das outras nações modernas.Isso é bastante característico das nações modernas. São grandes o suficiente para serem limitadas, pois são suficientemente vastas para pensarem ser o mundo quando não o são. Um homem ao viver no meio da Alemanha ou no meio dos Estados Unidos ou da Rússia vive num mundo que se fecha para o mundo. Houve patriotismo local acirrado nas cidades gregas antigas, mas todos sabiam que eram cidades gregas, e foi assim nas repúblicas católicas da Itália medieval ou ainda o é nas modernas repúblicas da América do Sul, onde todos sabem que são repúblicas católicas. Na Idade Média havia duas coisas: por um lado, a pequena unidade local amada pelos homens que, por vezes, lutavam por ela e, por outro, a grande civilização do Império e da Igreja a que também pertenciam. Mas vivemos numa terceira coisa: a nação imperial, grande o suficiente para parecer universal e que nos torna simplesmente nacionais. O motivo das guerras modernas serem tão imensas e horríveis, e de demorarem tanto tempo, é cada Estado realmente achar que representa os princípios fundamentais do universo. A Idade Média tinha intermináveis disputas locais, mas possuía uma visão mais universal do cosmo. Havia um homem que andava pelos portões da cidade agitando a lança e bradando as conquistas vindouras; sua cidade estava em guerra com a comuna de Perúgia, que era algo como se existisse uma guerra entre os distritos londrinos de Richmond e Kew. Mas após a paz ser feita esse homem voltou-se para outros interesses. Seu nome era Francisco de Assis (1181-1226). Como o patriota moderno, poderia ser tão bom homem e ter ido para o túmulo acreditando que o objetivo principal de Deus era o extermínio dos peruginos.Este é um dos resultados do lento declínio da unidade romana que devemos considerar bom: as nações estavam mais próximas umas das outras, porque estavam mais perto de suas origens. Outro exemplo, mas que poderíamos chamar de ruim, é o fato da escravidão do mundo romano antigo ter acabado de forma muito lenta — há a mesma controvérsia sobre quando teve fim. Basta dizer aqui, e ninguém há de negar que, até onde sei, ao começar a Idade Média os servos eram escravos (no antigo sentido pagão) e, quando ela terminou, os servos de algum modo tinham se tornado algo bastante diferente: eram muito mais parecidos com o que chamamos de camponeses. Se isso foi a evolução econômica ou o lento crescimento da consciência cristã (que é muito lento na maioria de nós) ou qualquer outra coisa, é uma questão controversa e, por isso, não vou contestar. Meu objetivo aqui é simplesmente mostrar outro exemplo da Antiguidade mudando lentamente, sem qualquer ruptura definitiva.

Ouvireis duas críticas ao medievalismo. Ambas ilustram a continuidade romana. A primeira é que o mundo medieval aceitava a autoridade, o que é verdade, mas, curiosamente, não só a autoridade da Igreja, como também, às vezes, a autoridade pagã que quase se opunha à autoridade da Igreja. Por exemplo, o médico de Geoffrey Chaucer (1343-1400) era cético a respeito da religião, mas estava satisfeito com a ciência médica, porque estava baseada na Astrologia. Dificilmente corremos para os hospitais no distrito de Harley Street para consultar um astrólogo. Sabemos que Igreja foi contra a astrologia, mas que Aristóteles (384-322 a.C.) e muitos na antiguidade eram a favor dessa prática. Em segundo lugar, que o mundo medieval não era progressista, e concordo que não se “sentia” progressista. E, pelo mesmo motivo, lamentava a grande civilização que fora internacional. Não vos assusteis, não falo da Liga das Nações, mas a maioria dos homens modernos procura o internacionalismo no futuro, os medievais buscavam por ele no passado. Na verdade, eram progressistas na prática, não na teoria. A Idade Média inventou algumas coisas inteiramente novas. Qualquer arquiteto dirá que o gótico foi realmente uma nova invenção da Engenharia. Surgiram os parlamentos e a imprensa foi inventada naquela ocasião, mas esses dois fatores são raramente notados porque, como disse, as pessoas chamam de “medieval” as coisas que não gostam. Caso pensemos, algum dia, ficar enfastiados dos jornais, acho que deveríamos dizer: “A imprensa é uma relíquia medieval”; caso os políticos se tornem impopulares (algo impensável), devemos dizer: “O Parlamento evidencia sua origem medieval bárbara”. Então correremos para a radiotelegrafia, e ouviremos que não há nada melhor.

Esta é a grande linha histórica. Embora tenha havido um lento declínio da civilização romana, certamente houve o grande nascimento da civilização medieval. O século XIII foi ápice da inteligência humana — pelo menos o de algumas mentes humanas. Há passagens em Santo Tomás de Aquino (1225-1274) sobre política que parecem uma utopia moderna, só que mais saudável. Contudo, durante todo o período, à distância de uma flecha do mosteiro, as condições eram quase bárbaras e muitas vezes abomináveis. Não sabemos se os melhores ideais prevaleceram sobre as piores realidades, provavelmente não, mas de qualquer forma, estavam assimetricamente posicionados entre dois grandes fatos históricos, o primeiro a frustrar o progresso e o segundo a matá-lo. Ambos vieram do Oriente, o primeiro, a religião de Maomé (570-632), e o segundo, a Peste Negra.

O maometanismo teve o justo crédito de pregar uma maior igualdade entre um homem e o outro, e uma igualdade, embora menor, entre o homem e a mulher. Foi um verdadeiro rival para o cristianismo, e agora ninguém percebe o quanto verdadeiramente rivalizou. Em grande parte, infelizmente, o efeito da igualdade islâmica foi o aumento de nossa desigualdade. Já havíamos herdado os males da civilização antiga, como a escravidão; os males de sua decadência, como o feudalismo; tínhamos muito da formação militar, em parte da antiguidade, do modelo de Roma e, noutra parte, o da guerra contra os bárbaros. Nessas circunstâncias, vejo que a explosão do Oriente nos paralisou e nos firmou na formação militar. Todos os títulos nobiliárquicos são simplesmente patentes militares, como nos casos de duque ou marquês e assim por diante. Poderíamos ter desenvolvido melhor a nossa própria religião, não fosse a guerra com uma religião rival. Uma democracia pode organizar uma guerra, mas uma aristocracia não pode, ao mesmo tempo, organizar uma democracia “e” uma guerra. O inimigo lhe abaterá. Havia um perigo permanente. Tomemos as cruzadas. Não me importo o quanto podeis atacar as cruzadas como uma agressão, caso não vos lembreis: elas foram um contra-ataque. Os muçulmanos conquistavam a Espanha e a Sicília, e foram detidos em Tours. Ora, um invasor a vagar no meio da França não pode fingir ser um morador inofensivo, perdido num bairro de Meca. Mas as cruzadas fracassaram, e então, além dessa tragédia, veio no encalço a grande peste, que matou os melhores sacerdotes e o povo, deixando um tipo de gente inferior que havia esquecido o melhor dos ideais medievais, e levou a Idade Média ao fim.

Ao tentar uma síntese, retorno à construção gótica. Em primeiro lugar porque foi realmente uma coisa nova, em segundo lugar porque foi uma nova forma de construção, superior à anterior. Talvez, só dos pináculos, senão do mais exíguo pináculo podeis ver a mais extensa paisagem. A visão medieval era muito universal; não devemos subestimá-la. Não menosprezemos a cavalaria e o romance de Dante Alighieri (1265-1321) e sua Beatriz, que era novo, pois não era o mesmo de Catulo (84-54 a.C.) e Lesbia, e está na história do que se chamava de Vida Nova. Aldous Huxley (1894-1963) pediu ao mundo moderno, em vão, que seguisse a razão conforme progredisse; não zombemos dos escolásticos, caso tenham seguido a razão um pouco além. O amor e a lógica eram mais novos e livres, embora limitados por más condições, assim como altas igrejas eram quase sempre construídas em ilhas. As comunicações eram ruins. Atualmente, as comunicações são muito boas e temos a maravilhosa tecnologia da radiofonia pela qual falo com pessoas que nunca vi. Portanto, agora não tenho nada a fazer senão emanar uma poesia tão fresca quanto a de Dante e uma filosofia tão grandiosa quanto a “Suma Teológica”. Só que agora, quando posso me comunicar com todos, não tenho o que dizer.

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Em 27 de março de 1936, G. K. Chesterton deu uma palestra na rádio BBC para as escolas da Grã-Bretanha. O texto do presente ensaio é a transcrição da apresentação, tal como apareceu na edição de 1º de abril de 1936 na revista “Listener”.Em língua portuguesa o artigo foi publicado originalmente, numa versão acrescida de notas do tradutor, no seguinte periódico: “The Chesterton Review (Edição Especial em Português)”, Volume II, Número 2, 2010: 7-13.

Este artigo é protegido pelas leis de Direitos Autorais, sua reprodução é proibida sem a autorização do Centro interdisciplinar de Ética e Economia Personalista (CIEEP). A publicação do artigo no site Chesterton Brasil foi gentilmente permitida pelo CIEEP.

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