O Sectário Social

Gilbert Keith Chesterton * 1874 / + 1936

Tradução do capítulo The Sectarian of Society, publicado no livro A Miscellany of Men, 1912.

Tradução de Wendy A. Carvalho

Uma crença definida é absolutamente indispensável à liberdade. Se os homens são e deveriam ser diferentes, tem que existir alguma comunicação entre eles, se quiserem deleitar-se para além de sua diferença. E uma fórmula intelectual é a única coisa que pode criar uma comunicação que não dependa de mero sangue, classe ou simpatia caprichosa. Se começarmos a concordar que o sol e a lua existem, podemos falar sobre nossas diferentes visões a respeito deles. O homem perspicaz poderia orgulhar-se de ver o sol como um círculo perfeito; o míope poderia dizer (com orgulho, se impressionista) que vê na lua um borrão prateado; o daltônico poderia regozijar-se no truque de fada que permite a ele viver sob um verde sol e uma lua azul. Mas uma vez sustentado que na visão de um homem não há nada além de um borrão prateado, ou um círculo brilhante (como um monóculo) na visão de outro, então ninguém é livre para ser encerrado numa célula separada do universo.

Mas é certo que, na prática, uma sorte ainda pior decorre da orla da fórmula intelectual básica, que diz não só que o indivíduo se tornou pequeno, mas que espalha pequenez em todo o mundo como uma nuvem; ele fomenta pequenez para crescer e se multiplicar como o joio. O que acontece é o seguinte: todos os míopes se reúnem e fundam uma cidade chamada Miopia, onde consomem miopia de graça, pintam pequenas obras míopes e estabelecem políticas muito míopes. Enquanto isso, todos os homens que conseguem mirar o sol unem-se no Salisbury Plain[1] e não fazem nada além de mirar o sol; e todos os homens que vêem uma lua azul se reúnem para afirmar a lua azul não uma vez, mas a todo momento. Então, ao invés de um pequeno e variado grupo, você encontra grupos grandes e monótonos. Ao invés da liberdade do dogma, você tem a tirania do gosto.

Alegorias à parte, a todos irá ocorrer um exemplo do que digo; talvez o mais óbvio seja o Socialismo. O Socialismo significa o monopólio governamental (qualquer que seja) de todas as coisas necessárias à produção. Se um homem afirma ser Socialista neste sentido, ele pode ser qualquer tipo de homem que ele aprecie num sentido alternativo – um apostador, um Mahatma, um bairrista, um arcebispo ou um crioulo de Margate[2]. Sem, até o momento, contar com os iluminados Socialistas que são tudo isso junto. Óbvio que um lúcido Socialista (isto é: um Socialista com uma crença) pode ser um soldado, como o Sr. Blatchford; um Dom, como o Sr. Ball; um condutor, como o Sr. Meeke; um clérigo, como o Sr. Conrad Noel ou um artístico homem de negócios, como o finado Sr. William Morris.

Mas algumas pessoas se consideram Socialistas que não irão se restringir pelo que chamam de ‘dogma restrito’; dizem que Socialismo está tão, mas tão longe quanto tal dogma; tudo o que é elevado, tudo o que é livre, etc. etc. etc. Os horríveis destinos deles estão marcados: pois, sendo totalmente inaptos para ser homens de negócio, soldados, clérigos ou qualquer outra sofrível profissão humana, serão sempre um só e mesmo tipo de pessoa. Quando descobriram que o Socialismo não significa uma pequena fórmula econômica, também foi descoberto que ele não significa vestir um certo tipo de roupas, ler certo tipo de livros, ultimar certo tipo de pinturas e mesmo, na maioria dos casos, comer certo tipo de comida. Os homens devem reconhecer uns aos outros de algum modo. Estes homens não se reconhecerão com base num princípio, como amigos cidadãos. Não poderão reconhecer-se pelo cheiro, como fazem os cachorros. Terão que recair numa coloração geral; retroceder ao fato de que um homem do seu tipo terá uma esposa vestida em verde pálido e uma cópia do “Triumph of Labour” de Walter Crane pendurado no corredor.

Claro que há muitos outros exemplos, pois a sociedade moderna é quase que repleta destes monocromáticos remendos. Eu, por exemplo, lamento a superação da velha unidade Puritana, fundada na teologia – embora abraçando tipos que vão de Milton ao dono da mercearia –, pela mais nova unidade Puritana, que é fundada em certos hábitos sociais, certos lugares comuns, simultaneamente permissivos e proibitivos, ligados a certos prazeres sociais.

Lamento que, se você vai conceber uma aristocracia, ela não permanecerá fundada na ciência lógica da heráldica, que afirma e defende teoria bastante defensável da qual a genealogia física é o teste; ao invés, será, como agora, uma mera máquina de Eton[3] e Oxford[4] para envernizar alguém bastante rico de um verniz monótono.

É o que ocorre mormente no caso da religião. Tão logo tenhas um credo, que todos em certo grupo acreditem ou digam acreditar, tal grupo consistirá na figura recorrente da velha história religiosa, que pode ser contestada ou julgada pelo credo. O santo, o hipócrita, o intolerante, o irmão fraco. Ou tais pessoas fazem bem umas às outras ou todas elas se unem para fazem bem ao hipócrita, com reiterados golpes pesados. Mas uma vez quebrado o vínculo da doutrina que sustenta a união dessas pessoas, cada uma delas passará a gravitar em sua própria seita fora do grupo. Os hipócritas irão se reunir pensando serem santos; os santos se perderão num deserto e chamar-se-ão ‘a irmandade fraca’; os irmãos fracos se enfraquecerão numa generalizada atmosfera de imbecilidade e os intolerantes procurarão alguém mais com quem possam brigar.

Isso acontece demais na moderna religião da Inglaterra. Freqüentei muitas igrejas, capelas e salões onde junto de um orgulho confiante em ter superado certos credos vem a sutil incapacidade de superar expressõezinhas. Mas onde quer que apareça a falsidade, sua origem é a mesma da verdade: que homens deveriam concordar sobre determinado princípio; que deveriam discordar de todo mundo; que Deus deu aos homens uma lei que eles possam transformar em liberdades.

Havia um sentido muito maior nos antigos que diziam que uma esposa e um marido deveriam ter a mesma religião do que há em todos as novidades contemporâneas sobre almas gêmeas, parentesco de espíritos e auras de cor idêntica. Na realidade, quanto mais os sexos estão em violento contraste menos estarão em violento conflito. Quanto mais incompatível seus temperamentos melhor estão. É óbvio que a alma de uma esposa não pode ser uma alma gêmea. Tão raro quanto um primo de primeiro grau. Há muito poucos casamentos de idêntico gosto ou temperamento; e geralmente são infelizes. Mas ter a mesma teoria fundamental, pensar na mesma coisa como virtude (treinando-a ou negligenciando-a), na mesma coisa como um pecado (punindo-o, perdoando-o ou dele rindo), e em última instância, ter o mesmo conceito de direito e de desgraça – isto é realmente necessário a um casamento feliz e tolerante; isto está mais representado por uma religião comum do que por afinidades e auras. O que se aplica à família se aplica à nação. Uma nação com raiz religiosa será tolerante. Uma nação sem religião será intolerante. Por último, o pior efeito de todos é este: quando homens se unem para professar um credo, eles o fazem corajosamente, ainda que escondidos em catacumbas e cavernas. Mas quando eles se reúnem numa seita se tornam vis, renegando toda mudança ou discrepância, ainda que seja para jantar com uma banda musical num grande hotel londrino. Pois os pássaros de penas semelhantes voam juntos, mas pássaros de pena branca voam mais alto que todos os outros.

[1] Trata-se de um planalto de giz, localizado na região centro-sul da Inglaterra.

[2] Local situado na costa inglesa, no distrito de Thanet, no condado de Kent.

[3] Colégio particular inglês para garotos, fundado em 1440 por Henrique VI da Inglaterra.

[4] A Universidade de Oxford, situada na cidade de Oxford, na Inglaterra, é a mais antiga universidade do mundo anglófono.

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