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Por Que Sou Católico – The Thing

Gilbert Keith Chesterton

Capítulo Why I am a catholic publicado publicado no livro The Thing (1929).
*Existe um outro artigo de Chesterton com o mesmo título e pode ser lido aqui.
Traduzido por Antonio Emilio Angueth de Araujo
Este texto foi cedido generosamente pelo blog do Angueth


O editorial de um jornal diário foi devotado ao Novo Livro de Oração;[1] sem ter nada de novo a falar sobre ele. Assim, o texto consistiu, principalmente, na repetição, pela milésima vez, que o inglês comum deseja uma religião sem dogma (seja lá o que isso queira dizer), e que as discussões sobre as questões da Igreja são inúteis e estéreis de quaisquer dos dois lados. Mas, tendo lembrado repentinamente que essa equalização dos dois lados tinha a possibilidade de envolver uma leve concessão ou consideração pelo nosso lado, o escritor rapidamente se corrigiu. Ele sugeriu que, embora seja errado ser dogmático, é essencial ser dogmaticamente protestante. Sugeriu também que o inglês comum (aquele sujeito útil) estava muito convencido, apesar de sua aversão a todas as diferenças religiosas, que era vital à religião diferir do catolicismo. Ele estava convencido (ficamos sabendo) que a “Inglaterra é tão protestante quanto o mar é salgado.” Observando reverentemente o profundo protestantismo do Sr. Michael Arlen, ou do Sr. Noel Coward, ou da mais recentejazz dance em Mayfair,[2] podemos ser tentados a perguntar: se o sal perde seu sabor, com que ele deve ser salgado? Mas visto que podemos justificadamente deduzir dessa passagem que Lord Beaverbrook, o Sr. James Douglas, o Sr. Hannen Swaffer e todos os seus seguidores são verdadeiramente austeros e inflexíveis protestantes (e como sabemos que os protestantes são famosos por seu detalhado e apaixonado estudo das Escrituras, livres das influências do Papa e dos padres), podemos mesmo tomar a liberdade de interpretar o que foi afirmado à luz de um texto menos familiar. Será possível que ao comparar o protestantismo com o sal marinho o jornalista estivesse assombrado com alguma débil memória de outra passagem, em que a mesma Autoridade falava de uma fonte sagrada e singular de água viva, porque era água vivificante, que realmente saciava a sede dos homens; enquanto todos os outros lagos e poças eram diferentes porque os que deles bebiam voltavam a ter sede? Isto é uma coisa que acontece ocasionalmente a quem bebe água salgada.

Este é talvez um modo provocativo de iniciar a apresentação de minha mais forte convicção; mas gostaria de respeitosamente alegar que a provocação veio do protestante. Quando o protestantismo afirma calmamente governar todas as almas da forma com que a Britannia governa os mares, é permissível retorquir que a quintessência mesma de tal sal pode ser abundantemente encontrada no Mar Morto. Mas é ainda mais permissível retorquir que o protestantismo está afirmando o que nenhuma outra religião pode, no momento, afirmar. Ele está calmamente alegando a fidelidade de milhões de agnósticos, ateus, pagãos hedonistas, místicos independentes, investigadores psíquicos, teístas, teosofistas, seguidores de cultos orientais e alegres companheiros que vivem como as bestas que perecem. Pretender que todos eles sejam protestantes é rebaixar consideravelmente o prestígio e a significância do protestantismo. É fazê-lo meramente negativo; e o sal não é negativo.

Tomando isto como um texto e um teste do presente problema da escolha religiosa, encontramo-nos a princípio frente ao dilema sobre a religião tradicional de nossos pais. O protestantismo como o aqui mencionado é ou uma coisa negativa ou uma coisa positiva. Se o protestantismo for uma coisa positiva, não há nenhuma dúvida de que ele está morto. Na medida em que ele foi realmente um conjunto de crenças espirituais, ele não é mais crido. O credo protestante genuíno não é agora mantido por quase ninguém – muito menos pelos protestantes. Eles perderam tão completamente a fé nele, que quase esqueceram o que ele era. Pergunte a qualquer homem moderno se salvamos nossas almas apenas por meio de nossa teologia ou se fazer o bem (ao pobre, por exemplo) nos ajudará no caminho até Deus; e ele responderá, sem hesitação, que boas obras são provavelmente mais agradáveis a Deus que teologia. Seria provavelmente uma surpresa para ele saber que, por trezentos anos, a fé na fé apenas foi o distintivo do protestante, e a fé nas boas obras o vergonhoso distintivo de um papista infame. O inglês comum (para introduzir nosso velho amigo uma vez mais) não teria nenhuma dúvida sobre o mérito da longa contenda entre o catolicismo e o calvinismo. E aquela foi a mais importante contenda intelectual entre o catolicismo e o protestantismo. Se ele acredita num Deus, ou mesmo que ele não acredite, ele muito certamente preferiria um Deus que tivesse criado todos os homens para o contentamento, e desejasse salvá-los todos, a um Deus que tivesse deliberadamente criado alguns para o pecado involuntário e para a miséria imortal. Mas esta era a contenda, e era o católico que mantinha a primeira posição e o protestante a segunda. O homem moderno não apenas não compartilha, ele sequer compreende, a aversão anormal dos puritanos a toda arte e beleza em relação à religião. Mesmo assim, esse foi o real protesto protestante; e as matronas protestantes de meados do período vitoriano ficavam chocadas com vestidos brancos, quem dirá com uma vestimenta colorida. De praticamente toda a acusação essencial pela qual a Reforma realmente colocou Roma no banco dos réus, Roma foi, desde então, absolvida pelos jurados de todo o mundo.

É a mais pura verdade que encontramos erros reais, que provocaram rebelião, na Igreja Romana pouco antes da Reforma. O que não conseguimos encontrar é um daqueles erros que a Reforma reformou. Por exemplo, era um abuso abominável que a corrupção dos monastérios algumas vezes permitisse que um nobre rico se passasse por patrão ou mesmo abade, ou se valesse das rendas que supostamente pertenciam a uma irmandade pobre e caridosa. Mas tudo que a Reforma fez foi permitir que o mesmo nobre rico tomasse posse de TODA a renda, apoderasse de toda a casa e a transformasse num palácio ou numa pocilga, e apagasse totalmente a última inscrição da pobre irmandade. As piores coisas de um catolicismo mundano foram feitas piores pelo protestantismo. Mas as melhores coisas permaneceram de alguma forma através da era da corrupção; não, elas sobreviveram até mesmo a era de reforma. Elas sobrevivem hoje em todos os países católicos, não somente na cor, poesia e popularidade da religião, mas nas mais profundas lições da psicologia. Elas foram tão completamente justificadas, depois do julgamento de quatro séculos, que cada uma delas está agora sendo copiada, até mesmo por aqueles que a condenaram; ocorre, contudo, que a cópia é, muitas vezes, apenas uma caricatura. A psicanálise é a Confissão sem a salvaguarda confessional; o comunismo é o movimento franciscano sem o moderado equilíbrio da Igreja; e as seitas americanas, tendo urrado por três séculos contra a teatralidade papista e o mero apelo aos sentidos, agora “abrilhantam” suas cerimônias com filmes super-teatrais e com raios de luz vermelha caindo sobre a cabeça do ministro. Se tivéssemos um raio de luz para lançar, não deveríamos lançá-lo no ministro.

Por outro lado, o protestantismo pode ser uma coisa negativa. Em outras palavras, ele pode ser uma lista nova e totalmente diferente de acusações contra Roma; uma continuação apenas, pois ainda é contra Roma. Isto é o que, em grande medida, ele é; e isso é presumivelmente o que realmente quis dizer o DAILY EXPRESS quando disse que nosso país e nosso compatriota estão saturados de protestantismo como o estão de sal. Em outras palavras, a lenda de que Roma está errada de qualquer forma, é ainda uma coisa viva, embora todas as características do monstro estejam agora inteiramente alteradas na caricatura. Mesmo isso é um exagero, se aplicado à Inglaterra atual; mas há ainda uma verdade nisso. Ocorre que a verdade, quando verdadeiramente percebida, dificilmente será satisfatória para um honesto e genuíno protestante. Pois, afinal, que tipo de tradição é esta, que conta uma história diferente a cada dia ou a cada década, e se satisfaz contanto que todas as lendas contraditórias sejam ditas contra um homem ou uma instituição. Que tipo de causa santa a ser herdade de nossos ancestrais é essa que nos faz continuar a odiar algo ou a ser consistentes apenas no ódio; enquanto somos volúveis e falsos em tudo o mais, mesmo em nossa razão para odiar? Poremo-nos seriamente a inventar um novo conjunto de histórias contra o conjunto de nossos companheiros cristãos? É isto o protestantismo; e vale a pena compará-lo ao patriotismo ou ao mar?

De todo modo, essa era a situação que me descobri enfrentando quando comecei a pensar nessas coisas, a criança de uma ancestralidade puramente protestante e, no sentido comum, de um lar protestante. Mas, de fato, minha família tendo se tornado liberal, não era mais protestante. Fui criado como um tipo de universalista e unitarista; aos pés daquele homem admirável, Stopford Brooke. Não era protestantismo, exceto num sentido muito negativo. Muitas vezes era o oposto completo do protestantismo, mesmo naquele sentido. Por exemplo, o universalista não acredita no Inferno; e era enfático em dizer que o paraíso era um estado mental feliz – “uma disposição mental”. Mas ele tinha a percepção para ver que a maioria dos indivíduos não vive ou morre num estado mental tão feliz que lhes assegurará um paraíso. Se o paraíso for uma disposição mental, ele certamente não será universal; e muitos passam pela vida numa miserável disposição mental. Se todos estes forem possuir o paraíso, apenas por meio da felicidade, parecia claro que algo devia lhes acontecer primeiro. O universalista, portanto, acreditava num progresso depois da morte, ao mesmo tempo castigo e aprendizado. Em outras palavras, ele acreditava no Purgatório; embora não acreditasse no Inferno. Certo ou errado, ele obviamente contradizia completamente o protestante, que acreditava no Inferno, mas não no Purgatório. O protestantismo, através de toda a história, travou uma incessante guerra a esta idéia de Purgatório ou progresso além túmulo. Vim a perceber na visão católica completa verdades muito mais profundas sobre todas as três idéias; verdades relativas à vontade, criação e o mais glorioso amor de Deus pela liberdade. Mas mesmo no começo, embora não pensasse em nada de catolicismo, eu não conseguia perceber por que devia ter qualquer preocupação como o protestantismo; que sempre dissera o diametralmente oposto ao que um liberal agora devia dizer.

Descobri, em resumo, que não havia mais nenhuma razão para me apegar à fé protestante. Era uma simples questão de me apegar ou não do feudo protestante. E com enorme perplexidade, descobri muitos de meus companheiros liberais ansiosos em continuar no feudo protestante, embora não mais professassem a fé protestante. Não tenho o direito de julgá-los; mas pareceu-me, confesso, como uma feia indignidade. Descobrir que você vem difamando alguém por alguma coisa, recusar a se desculpar e inventar outra história plausível contra tal pessoa de forma que você possa manter o espírito de difamação, pareceu-me de início um modo muito vil de comportamento. Resolvi pelo menos considerar os próprios méritos da instituição difamada original e a primeira e mais óbvia pergunta era: por que os liberais eram tão pouco liberais em relação a ela? Qual era o significado do feudo, tão constante e tão inconsistente? Essa questão levou um longo tempo para ser respondida e levaria agora muito mais tempo para ser descrita. Mas ela me levou à única resposta lógica, que cada fato da vida agora confirma; que a coisa é odiada, como nada mais é odiado, simplesmente porque ela é, no exato sentido da expressão popular, como nada neste mundo.

Há aqui espaço apenas para indicar uma dentre milhares de coisas que confirmam o mesmo fato e confirmam umas às outras. Eu poderia escolher qualquer assunto aleatoriamente, da carne de porco à pirotecnia, e mostrar que ele ilustra a verdade da única verdadeira filosofia; tão realista é a observação de que todos os caminhos levam à Roma. De todos eles, tomo aqui apenas um fato; que a coisa é perseguida época após época por um ódio irracional que muda permanentemente sua razão. Ora, quase todas as heresias mortas estão, pode ser dito, não só mortas como condenadas; isto é, estão condenadas ou serão condenadas pelo senso comum, mesmo fora da Igreja, uma vez que sua atmosfera e mania tiverem passado. Ninguém hoje deseja reviver o Direito Divino dos reis que os primeiros anglicanos defenderam contra o Papa. Ninguém hoje deseja reviver o calvinismo que os primeiros puritanos defenderam contra o rei. Ninguém hoje lamenta que os iconoclastas foram impedidos de destruir todas as estátuas na Itália. Ninguém hoje se lamenta de que os jansenistas fracassaram em destruir todos os dramas da França. Ninguém que saiba alguma coisa sobre os albigenses deplora que eles não tenham convertido o mundo ao pessimismo e à perversão. Ninguém que realmente compreenda a lógica dos Lollards (um grupo de indivíduos muito mais simpáticos) anseia realmente que eles tivessem sido bem sucedidos em tirar todos os direitos e privilégios políticos daqueles que não estivessem em estado de graça. “Autoridade fundada na Graça” era um ideal devoto, mas considerado como um plano para desrespeitar um policial irlandês que controla o tráfego no Picadilly, até que descubramos se ele se confessou recentemente a um padre irlandês, é falta de realismo. Em nove entre dez casos, a Igreja simplesmente foi o esteio da sanidade e do equilíbrio social contra hereges que eram às vezes muito parecidos com lunáticos. Mesmo assim, em cada momento particular, a pressão do erro predominante era muito grande; o exagerado erro de toda a geração, como a força da Escola de Manchester nos “anos cinqüenta” ou o Socialismo Fabiano como uma moda, em minha própria juventude. O estudo de casos históricos mostra-nos comumente o espírito da época indo na direção errada, e os católicos indo na direção, pelo menos, relativamente certa. É como uma mente sobrevivendo a centenas de diferentes estados de humor.

Como eu disse, esse é apenas um aspecto; mas foi o primeiro que me afetou e que me levou aos outros. Quando um martelo acerta o prego certo bem na cabeça centenas de vezes, acabamos por suspeitar que não é inteiramente por coincidência. Mas essas provas históricas não seriam nada sem as provas humanas e pessoais, que demandariam uma descrição completamente diferente. Basta dizer que aqueles que conhecem a prática católica a consideram não somente certa, mas sempre certa quando tudo o mais está errado; tornando a Confissão o trono mesmo da sinceridade, quando o mundo lá fora fala dela como um tipo de conspiração; preservando a humildade, quando todos estão louvando o orgulho; carregada de caridade sentimental, quando o mundo fala de um brutal utilitarismo; carregada de severo dogmatismo, quando o mundo está ruidoso e dissoluto com seu vulgar sentimentalismo – com acontece hoje. No lugar em que os caminhos sem encontram, não há dúvida da convergência. Um homem pode pensar todo o tipo de coisas, a maioria delas honesta e muitas delas verdadeiras, sobre o lado certo para o qual se virar no labirinto de Hampton Court. Mas ele não pensa que está no centro; ele sabe.

[1] Uma das muitas versões do livro publicado em 1549, produto da Reforma Inglesa. É um livro que contém o missal, todos os ritos sacramentais – batismo, confirmação, casamento, etc. – cânticos, ladainhas e os Salmos. (N. do T.)
[2] Área central de Londres. (N. do T.)
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