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Quando Eu Morrer: A Vida Após a Morte

Quando Eu Morrer: A Vida Após a Morte

G. K. Chesterton * 1874 / + 1936 

Traduzido do inglês por Márcia Xavier de Brito
 
“Quando eu morrer, o que acontecerá comigo?”, respondo tal pergunta com certa relutância, pois em grande parte dos tópicos enviados aos jornais que parecem indiscutíveis, um católico é agnóstico. De fato, o católico é, quase, a coisa mais próxima de um agnóstico, deixado entre o acaso, a religiosidade irracional e irreligiosidade de nossos dias. Um católico concorda com Thomas H. Huxley (1825-1895) sobre o dever de “seguir a razão tão longe quanto vá”, e ainda o faz, ao passo que a maioria dos seguidores de Huxley são, agora, seguidores de Henri Bergson (1859-1941), George Bernard Shaw (1856-1950), Émile Coué (1857-1925), sir Arthur Conan Doyle (1859-1930), do grande iogue do país das bananas, ou da senhora Boom do movimento batista do “Balm of Gilead” [bálsamo de Galaad] do Alabama, que pode ser descrito como muito reparador.

O católico também concorda com Huxley ao pensar que sua razão não vai muito longe, sozinha, para solucionar alguns dos problemas que os homens mais querem ver resolvidos, tal como o destino da alma. Mas, acredita que a razão é ajudada (e não contrariada) pela Revelação; ou, em outras palavras, quando seguimos nossa razão, tão longe quanto queira ir, ela se depara, a meio caminho, por assim dizer, com a educação que vem do alto, que lhe completa os resultados com certas verdades essenciais à conduta. Neste sentido, vai além da razão, mas não se contenta com nada menos que a razão, assim como a maioria dos místicos amadores de nossos tempos. Estes se contentam, na melhor das hipóteses, com a simples emoção — se não a mera afetação. Assim sendo, em nada há um contraste mais acentuado entre o catolicismo e a religião ou irreligião da moda do que na atitude em relação à morte. Seguindo a razão onde quer que vá e ao deparar-se com os sentimentos tais quais são, o católico sente, em primeiro lugar, com relação à morte, o mesmo que o conjunto da humanidade sentiu. Na verdade, o católico ainda é bastante simplista para apresentar-se como um ser humano comum.

A morte é um mistério terrível e alarmante, e uma ameaça a qual somente os tolos poderiam ficar indiferentes. Tememos a morte, mas não temos medo de dizer que a tememos. Tememos a morte, e, como um soldado corajoso disse na batalha, se a temêssemos mais, teríamos de sair correndo. Tomemos o exemplo do sr. Iogue e seus amigos; devo dizer com toda a educação que correrão. Irão se refugiar tanto no auto-engano como no mero esquecimento. De qualquer modo, para os homens, assim, tão tementes, e ainda diante do fato da morte, veio uma boa notícia, um Evangelho, que é algo bom, mas também novo; algo que não poderiam obter por nossos próprios meios. Esse Evangelho diz aos homens, definitivamente, embora sem grandes detalhes, que o segredo de Deus é um selo de justiça e misericórdia, e para aqueles que lutam corajosamente há a vitória no além-túmulo. Os católicos sustentam (geralmente por outros motivos, baseados pela confirmação de centenas de outros âmbitos e fatos) que a autoridade que o consola é a verdadeira autoridade, e são, portanto, consolados. Mas não perdem, ou fingem perder, o pavor humano e natural dessa alteração terrível, daquele local onde o poeta pagão A. C. Swinburne (1837-1909) disse: “Deus destinou como símbolo a escuridão que faz temer”.

Agora, quando nos voltamos para falar dos “modernos”, não nos parecem falar como homens. Não falam como falavam os pagãos, os poetas, como realmente falam as pessoas comuns. Os porta-vozes da modernidade se dividem em dois tipos. Em primeiro lugar, temos o materialista moderno, que sempre insiste em explicar que não “quer” a imortalidade. Diz isso com uma fanfarronice desesperada, como o fez um ex-padre noutro dia, que sabe que morrerá como um cão, daqui a alguns anos e não se importa. Aqui, como em muitas outras coisas, Huxley, o pai do agnosticismo, teria dado uma lição mordaz nos agnósticos. Huxley, com realismo e sinceridade, diria, muitas e muitas vezes, que queria muitíssimo a imortalidade, que temia por demais a ideia de extinção, mas que não via seus desejos terem relação alguma com a determinação do destino.

No entanto os modernos não podem concordar com essa atitude humana e estoica. Eles nos dirão, repetidamente, que a morte é o fim de tudo que amamos, e, portanto, não precisamos nos importar se isso acontecerá ou não. De uma forma um tanto absurda, professam que os sacerdotes e os credos inventaram a emoção que faz com que o gato corra do cachorro. Fingem que o homem não perderá nada, ao perder tudo. Isso é absurdo, e, certamente, não é agnosticismo. Isso não é paganismo. Isso não é aquilo que Homero queria dizer ao afirmar que era melhor ser um camponês labutando no campo do que ser um famoso rei dentre os mortos. Não foi isso o que Huxley quis dizer, a respeito da extinção, “preferiria estar no inferno, é muito melhor”. Em segundo lugar, temos outro tipo moderno, que diz justamente o oposto, mas está igualmente confortável, e, para nós, igualmente destituído de conforto. Uma atmosfera “ocultista” produz uma espécie generalizada de otimismo espiritual e idealismo que toma a imortalidade como algo imediato e óbvio. Este tipo está bastante confiante de ser um corpo astral da mesma forma que os demais homens estão contentes em não ser nada além de um corpo. Os espiritualistas e ocultistas desse tipo nos dizem que a morte não é nada demais. Eles a chamam de mera “passagem”. Dizem ser algo como “ir para o andar de cima”. Novamente, as pessoas são convencidas, pelas mensagens das sessões espíritas, de que, realmente, não há separação alguma, nenhuma diferença, absolutamente nenhuma razão para o auto-questionamento. Um homem perguntou aos espíritos se era errado destruir a vida dos animais, e recebeu somente a alegre resposta: “Nunca podes destruir a vida”. Como questão moral, parece que fica a dúvida se o ético é ser errado atirar num tigre ou se é certo atirar no fiscal de impostos. Mas, como questão filosófica, esse é um exemplo típico do tom invariável. O homem não é somente imortal, mas obviamente imortal. A vida não é somente contínua, mas continua praticamente sem ruptura. De fato, o tom dos espíritos e dos espiritualistas é muito parecido com o do meu amigo E. C. Bentley (1875-1956), ao meditar sobre William Wordsworth (1770-1850), num pensamento imortal, um fragmento, creio, nunca antes publicado: “É pena, certamente, / Que dois homens como nós, / Por um nada como ‘A Cova’ / Devamos ficar à sós”. Porém, o que foi dito com graciosa ironia, tais pessoas falam com genuína e colossal solenidade.

Agora, para o instinto católico, ambas as coisas soam falsas. Não digo que sejam decepções, salvo se auto-decepções; mas digo que são afetações. Os dois homens estão tentando impressionar. Estão se pavoneando, quer finjam ser indiferentes à mortalidade, quer finjam estar satisfeitos com a imortalidade. Naturalmente, não sentem, desde o início, a coisa dessa forma, absolutamente não a sentem assim, no fundo de seus corações. Coloque uma pistola, de repente, na cabeça de um cético e ele não ficará indiferente à ideia de morrer como um cão. Diga ao marido espírita, na lua-de-mel, que a esposa acabou de fazer a “passagem” ao cair de um penhasco, e ele não sentirá como se ela tivesse ido “para o andar de cima”. Por essa razão, nossa religião, que é, acima de tudo, realista, se recusa a aceitar tais confortáveis simplificações. Simpatiza com todos os pesares e medos secretos. Mas também os enfrenta e não teme o medo. Portanto, sua forma de funcionamento típico não é batucar numa mesa ou num pandeiro dizendo que tudo no jardim do vizinho é adorável, ou dizer a um moribundo, com um aceno alegre, que ele só está “indo para o andar de cima”: mais do que consolá-lo, dizer-lhe que está morrendo como um cão, para ilustrar o grande princípio cósmico de que todo cão tem seu dia. O oposto disso, é representado pela passagem — creio que de um dos romances de Harold Frederic (1856-1898) — em que um pedreiro irlandês pobre, insignificante e sem nome caiu de um andaime, e o autor cético fica quieto, numa espécie de pasmo ou assombro, diante do ritual que se desenrola ao redor do morto, para igualar-se ao heroísmo pavoroso daquilo que era pedido a ele, como se a mãe de Deus descesse do Paraíso e o chefe das milícias celestes colocasse todos os anjos prontos para o combate ao toque do clarim e da espada, e os querubins, os serafins, os santos, os mártires e todo o divino universo se tornassem uma montanha ou uma pira ardente de orações, para ajudar Pat Murphy a morrer.

E, assim como o catolicismo é sincero sobre o medo da morte, da mesma forma, é realista a respeito da idéia de julgamento. Devemos sempre lembrar que a Reforma, o verdadeiro e original ataque puritano à Igreja, literalmente, foi derrubada um tanto de supetão. Ou seja, foi transformada numa completa desordem, algo como voltar para a batalha se erguendo com a cabeça, porque não existe mais uma perna em que se apoiar. Em outras palavras, o que tais pessoas dizem atualmente está em manifesta contradição com o que disseram então. O que disseram era que o Inferno esperava e encarava cada pessoa que não estivesse imediatamente apta para o Paraíso. Disseram que qualquer coisa que lhes parecesse possuir ainda que a menor noção de uma segunda chance, de uma educação posterior, de um local de arrependimento ou espaço para o aprimoramento, era uma superstição sentimental dos papistas: “uma coisa adorável inventada em vão”.

Naqueles dias, em suma, diziam que o que não podiam acreditar era no Purgatório. Atualmente, não acreditam em nada mais além do Purgatório. Não acreditam em nada senão no progresso eterno, o que significa o eterno purgatório. Inicialmente, os reformadores recomendaram à Igreja largar a ideia de Purgatório e se manter fiel à ideia de Inferno e, atualmente, os novos reformadores ordenam que se largue o Inferno e nos atenhamos ao Purgatório. Uma simples alteração, e a Igreja se acostumará com isso. Igualmente, não duvido, alguma seita futura irá ordenar que a Igreja elimine os querubins, mas mantenha os serafins, e mais tarde (numa outra reflexão), que elimine os serafins e mantenha os querubins, pois esse é o tipo de esporte de que o mundo nunca se cansa. Mas embora acreditemos no progresso ou na educação no além-túmulo, fomos prejudicados por acreditar nisso quando nossos críticos caprichosamente negavam; também acreditamos que havia um propósito último, e que o homem pode alcançá-lo, e que, finalmente, pode negá-lo ou recusar a alcançá-lo. E se nos perguntassem por que um católico acredita numa potencial danação (em especial, na sua), a resposta, nas palavras com que comecei: porque acredita no seguimento da razão onde quer que vá, e porque, quanto mais o faz, ela aponta na mesma direção que a autoridade da Igreja.

Acredito que o mal é real. Diria que sei que é real. Não me orgulho em saber disso, muito ao contrário, tenho vergonha, pela mesma razão de que tenho certeza: porque já o encontrei na pessoa que conheço melhor. E, ao conhecer o mal como se apresenta em mim, sei muito bem que poderia ter seguido na direção da destruição de todo o bem, caso minha razão seguisse aquele processo, onde quer que ele fosse parar. Recordo-me do período de provocação mórbida e distorção imaginativa de minha juventude, que facilmente poderia ter parado em mero diabolismo, caso tivesse seguido minha imaginação onde quer que ela me levasse. Seria bastante dizer que vi que a tendência em pensar todas as recusas otimistas dessa possibilidade, é, desprezivelmente, superficial. E, naquilo que vi do mundo, desde então, há evidências de algo “pior”, que essas boas pessoas ignoram. Nenhuma delas entende, por exemplo, que o diabólico não é, simplesmente, a busca do mal, mas a profanação do bem a serviço do mal.

O diabólico aprecia o bem, e até mesmo a bondade do bem, como algo que tem o prazer de parodiar, atormentar ou corromper. Não é necessário, portanto, e é inútil lhe oferecer, simplesmente, mais bem para que possa parodiar, atormentar ou corromper. Lembremo-nos disso ao ler, por exemplo, a estória de sir Arthur Conan Doyle sobre um “espírito das trevas” que foi convertido por um clérigo espírita, que lhe convenceu a respeito do poder do amor, e creio que o leitor entenderá o que quero dizer por superficialidade. Caso o espírito tivesse ficado menos malévolo a ponto de desejar que um gentil sacerdote lhe “dissesse umas poucas palavras”, não nos pareceria que fosse muito perverso. O gentil reverendo pode ter tentado ser uma espécie de “algodão entre cristais”, mas falar dessa forma com um espírito escarnecedor teria sido exatamente colocar lenha na fogueira. Se o leitor ou eu, que não somos (espero) demônios, podemos, às vezes, rir ou mesmo bocejar naqueles sermões a respeito do amor, o que um espírito realmente “das trevas” diria disso? Pode ser que diga a sir Arthur Conan Doyle, bem voluptuosamente, “Por favor, mande-me outro daqueles sacerdotes engraçados”.

Ao seguir nossa razão onde quer que vá, portanto, vemos que a prorrogação da vida pode ser, possivelmente, a extensão do mal, assim como a do bem, e isso dá um tom muito diferente às esperanças de ampliá-la aos outros na forma de bem: seja como purgatório ou bem progressivo. Com um pouco mais de humildade em nossa esperança, e um pouco mais de gratidão em nossa fé, então, poderá haver também esperança e fé para aqueles que acreditam que os espíritos das trevas não oferecem perigo algum e que podem ser iluminados com facilidade. Mas, enquanto vivermos numa atmosfera moral que trata a morte e o mal como fato, e não tivermos a vantagem de que qualquer modismo passageiro nos convencerá de que um ou outro está na moda, temos a vantagem de sentir nossa fé também como fato. Um fato muito antigo para ser confundido por coqueluches. Com base nas quatro pedras fundamentais da razão e, acima delas, nos torreões da autoridade, podemos alçar o homem alto o bastante para ver, como uma tênue silhueta, mas não como miragem, as praias do outro mundo.

O artigo foi publicado originalmente na edição de 22 de novembro de 1925 do jornal “The Weekly Dispatch”.
Em língua portuguesa o artigo foi publicado, numa versão acrescida de notas da tradutora, no seguinte periódico: “COMMUNIO: Revista Internacional de Teologia e Cultura”, Volume XXVIII, Número 3 (Edição 103), Julho / Setembro 2009: 671-676.
Este artigo é protegido pelas leis de Direitos Autorais, sua reprodução é proibida sem a autorização do Centro interdisciplinar de Ética e Economia Personalista (CIEEP). A publicação do artigo no site Chesterton Brasil foi gentilmente permitida pelo CIEEP.

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