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Sobre crenças

G. K. Chesterton * 1874 / + 1936

Tradução: Leonardo Lopes

G.K. Chesterton: As I Was Saying, 1936.

Fonte utilizada: In Defense of Sanity: The Best Essays of G.K. Chesterton.

Há algum tempo atrás, quando houve uma comoção em razão de um livro certamente admirável chamado Quem Removeu a Pedra? que pode ser descrito, com todo respeito, como uma história divina de detetive e, quase que, como um thriller teológico, um pequeno jornal combativo na Fleet Street fez um comentário que tem rondado minha memória como mais misterioso que qualquer história de mistério do mundo. O escritor disse que qualquer homem que acredita na Ressurreição é forçado a crer na história de Aladin nas Mil e Uma Noites. Não faço ideia do que ele quis dizer. E imagino que nem ele faça. Mas essa curiosa conjunção de ideias recorrem à minha mente em conexão com uma sugestão certamente interessante feita pelo Sr. Christopher Dawson[1] acerca do que podemos chamar de História da Ciência. Em face disto, o comentário que citei do jornal combativo parece não ter outra qualidade senão o combate. Não há esse tipo de conexão lógica entre acreditar num evento esplêndido e acreditar em outro, ainda que fossem exatamente semelhantes ou completamente diferentes. Se eu acredito que o Capitão Peary chegou ao Polo Norte, não sou forçado a acreditar que o Dr. Cook também chegou lá, ainda que ambos chegassem nas mesmas neves com com trenós e puxados por cachorros. De forma que é uma falácia mesmo onde duas coisas estão próximas o bastante para serem comparadas. Mas, a comparação entre o milagre Evangélico e o conto de fadas Árabe é a mais desafortunada comparação do mundo. Pois, no primeiro caso, há uma razão simples e particular para pensar que é verdade, ou pelo menos, pretende ser. E, no segundo caso, há uma razão também simples e particular para perceber que o conto não é só falso, mas nem mesmo pretende ser verdadeiro.

O caso histórico para a Ressurreição é que todos, exceto os Apóstolos, tinham todos os motivos possíveis para expor o que fizeram com o corpo, se alguma coisa foi, de fato, feita com ele. Os Apóstolos poderiam ter escondido o corpo a fim de declarar um milagre falso, mas é muito difícil imaginar homens sendo torturados e mortos pela verdade de um milagre que sabem ser uma farsa. No caso do testemunho dos Apóstolos, as circunstancias gerais sugerem que ele é verdadeiro. No caso do conto Árabe, as circunstancias gerais admitem e proclamam que é falso. Pois, somos informados pelo próprio livro que todas as histórias foram contadas por uma mulher apenas para entreter o rei e desviar sua atenção da ideia de cortar a cabeça dela. Não é muito provável que um romancista nessa situação pessoal confinar-se-ia estritamente à precisão monótona, e seria mais impossível ainda, claramente, dizer ao leitor que todos os contos são mentiras. No primeiro caso, então, temos testemunhas que não apenas acreditam na Ressurreição, mas o fazem verdadeiramente acreditando que ela é tão verdadeira quanto a morte, ou mais verdadeira que a morte. Eles, portanto, preferem a morte a negação dessa verdade. No segundo caso, temos um contador de histórias que, tentando evitar a morte, tem todos os motivos para mentir. Se São João, O Batista, desejasse evitar a decapitação, e tivesse poupado sua vida inventando uma longa série de lendas Messiânicas ou Cristãs primitivas no calor do momento, a fim de chamar a atenção do rei Herodes, eu poderia não ver qualquer “mito da ressurreição” que ele pudesse contar como um argumento histórico contundente para a Ressurreição. Mas, São João foi morto bem como o foram os Apóstolos de forma que penso que suas evidencias não podem ser identificadas por um conhecimento seguro como uma porção de As Mil e Uma Noites.

Detive-me apenas por um momento nesse paralelo selvagem e absurdo como um exemplo passageiro da forma esquisita com que os céticos agora se recusam a seguir um argumento e seguem apenas um tipo de associação ou analogia. Mas, a verdadeira razão para lembrar esse estranho comentário sobre As Mil e Uma Noites pode ser encontrada numa analogia mais genuína entre a Ciência e a Magia Orientais. Ninguém, a não ser um lunático, buscaria seus dados ou sua fé em As Mil e Uma Noites. Mas, curiosamente, havia um toque dos magos Árabes nos matemáticos Árabes. Havia, realmente, um sabor leve de feitiçaria Oriental na genuína sabedoria Oriental; mesmo quando essa sabedoria estava, de fato, fazendo o trabalho para o qual o mundo será sempre grato, na geometria, na química, na matemática ou na medicina. Desse modo, encontramos um paradoxo: um homem pode, afinal, procurar alguns elementos de ciência em As Mil e Uma Noites, embora, dificilmente, ele procuraria lá por qualquer coisa mais edificante ou elevada nos moldes dos elementos da religião. Em síntese, a velha e obscura conexão entre Medicina e Magia tem uma espécie de significado oculto de grande interesse histórico. Isso é desenvolvido pelo Sr. Dawson num ensaio sobre o elemento oriental na ciência medieval tardia, e aparece em um livro de ensaios chamado Religião Medieval.

Contudo, esse ponto particular não está preocupado com a religião, mas está conectado de forma curiosa com a ciência. E este é o ponto: essa Magia (no sentido antigo) e a Medicina (no sentido moderno) são, em certo sentido, muito semelhantes, porque ambas são bem distintas de Ciência pura e abstrata como concebida pelos Gregos Antigos. Ciência significa apenas conhecimento; e para aqueles antigos ela significava apenas conhecimento. Eles não queriam outra coisa senão o prazer de conhecer; estavam particularmente orgulhosos por possuírem um grande conhecimento de coisas totalmente inúteis. Dessa forma, a ciência favorita dos gregos era a Astronomia, porque era tão abstrata quanto a álgebra. E, quando o Filisteu no meio deles disse: ‘O que são as Plêiades para mim?’ o filósofo respondeu ao Filisteu, dizendo: ‘Elas significam muito mais para mim na medida em que significam menos’. Podemos dizer que o grande ideal Grego era não fazer uso de coisas úteis. O Escravo era aquele que aprendia coisas úteis; o Homem Livre era aquele que aprendia coisas inúteis. Este permanece, ainda, como o ideal de muitos homens nobres da ciência, no sentido de que eles desejam a verdade a mesma forma como os grandes Gregos a desejavam; e suas atitudes são um protesto eterno contra a vulgaridade do utilitarismo. Contudo, havia, e há, outro lado da ciência, também para ser respeitado, que foi representado primeiramente por coisas como a Medicina. E, se havia alguma associação entre Medicina e Magia, era porque a Magia sempre foi extremamente prática.

O Mago moderno, às vezes um cavalheiro respeitável, que acreditava que furar com agulhas a imagem de cera de um político seria um ato prático de utilidade social pode ter mudado de ideia. Por outro lado, o Homem-da-Medicina que acreditava que o sangue dos texugos misturado ao vinho e sal é sempre uma cura imediata para o reumatismo pode ter mudado de ideia também. Mas, não há nada nessa mudança de opinião, nem mero fato mesmo nem nos detalhes dele, que diferem de qualquer outra mudança no método médico moderno, como por exemplo, em curar consumição[2] abrindo e fechando todas as janelas. O ponto é que os dois tipos de Homens-da-Medicina eram empregados por pessoas que queriam algo rápido e prático, por exemplo, matar políticos e curar reumatismo. E, a nota desse tipo de ciência, que o Sr. Dawson remete ao Oriente, é que ela sempre se orgulha de possuir Poder, sendo, dessa forma, diferente do tipo mencionado acima que desfruta a Verdade. Muitos de nós mesmos já nos encontramos com o tipo de místico teosófico que está sempre sussurrando que pode nos mostrar o caminho para o Poder; que, se apenas dissermos ‘Eu sou a Sabedoria; Eu sou o Poder’ setenta e sete vezes antes de nos olharmos no espelho nós controlaremos o Cosmos. Havia uma nota dessas mesmo na medicina medieval. A ciência Medieval era, realmente, mais prática que a ciência Pagã, contudo, algumas vezes ela soava menos prática para ser saudável o bastante. Por isso, alguns idealistas da higiene moderna estão muito preocupados com a  saúde, mais do que seria suficientemente saudável. É difícil debruçar-se perpetuamente nesse elemento do poder sem envenená-lo com algum elemento de orgulho. Assim, estranhamente, Aladin e sua Lâmpada Maravilhosa, de fato, tem alguma relação remota com os milagres da ciência, ainda que, dificilmente ele tenha alguma relação com os milagres da religião.

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Notas:

1. Christopher Dawson.  Dawson foi convidado pela Universidade de Edimburgo, em 1946, para fazer as famosas Palestras Gifford, e assumiu, em 1958, uma cátedra como professor de estudos católicos romanos em Harvard. Dawson sempre viveu fora do circuito acadêmico, participando como articulista, idealizador e editor de uma variada gama de revistas e periódicos de cultura. Obras traduzidas em português: Progresso e Religião e Dinâmicas da História do Muindo, ambas pela Editora É Realizações.

2. Original: Consumption: uma condição caracterizada por um definhamento dos tecidos do corpo, como pode ser visto especialmente na tuberculose pulmonar.

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